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Sexta-Feira 29.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Coluna

O antimanicomio agora

É preciso fortalecer e apoiar os recursos de todas as modalidades e diversidades de composições familiares, fortalecer cada casa, que mais que nunca precisa ser também casulo e asas

Postado em 21 de Maio de 2020 - Ricardo Moebus

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Esta foi a semana da Luta Antimanicomial, com o dia nacional da Luta Antimanicomial em 18 de maio.

Todos os anos grandes manifestações de rua com participação de usuários de serviços de saúde mental, trabalhadores, familiares, amigos e simpatizantes aconteciam em todo o Brasil, pedindo sempre a expansão das Redes de Atenção Psicossocial (RAPS), mas não só isso.

Este ano claro que as manifestações, debates, seminários etc tiveram que migrar para os ambientes virtuais, em função da pandemia e do necessário afastamento social.

Vale lembrar, sobretudo neste momento politicamente sombrio que estamos vivendo, que a Luta Antimanicomial vai bem além da Reforma Psiquiátrica, ou seja, é um movimento social organizado que almeja muito mais do que melhoria da assistência e da atenção em saúde mental.

Claro que todas as melhorias dos serviços assistenciais em saúde mental, ou muito mais do que isso, a reformulação total do modelo de assistência que era anteriormente centrado nos hospitais psiquiátricos (hospitalocêntrico), centrado nos atendimentos médicos (medicocentrado), centrado na medicalização (medicamentocêntrico), centrado na internação, no isolamento social, na ruptura dos laços sociais; sem dúvida nenhuma precisava ter mesmo acontecido e precisa continuar acontecendo, tendo a maior relevância e importância.

Mas a amplitude das mudanças tornou o nome Reforma Psiquiátrica incapaz de representá-las. Porque não se tratava de reformar ou aperfeiçoar a especialidade médica Psiquiatria, além do que, tais reformulações não foram capitaneadas pelos psiquiatras, ainda que com a importante participação de muitos deles.

Tamanha reformulação do próprio modo como se vê os cidadãos portadores de sofrimento mental e o apoio psicossocial que pode ser dado aos mesmos, foi muito além de uma Reforma da Psiquiatria.

Em relação especificamente ao campo assistencial, este passou a ser centrado na comunidade, centrado nas equipes multiprofissionais e transdisciplinares, centrado nos recursos psicossociais, centrados nos serviços abertos, na sustentação do trânsito social, na restauração e ampliação dos laços sociais, centrado nas necessidades específicas de cada usuário destes novos serviços; portanto uma mudança radical, oposta ao modelo anterior.

Mas a Luta Antimanicomial vai além, ela representa uma posicão política em defesa incondicional da vida, em defesa do valor imensurável da vida de cada um, em defesa do princípio de que a vida de todos e de cada um vale a pena e precisa ser respeitada, defendida, potencializada, estimulada, cuidada.

Portanto, a Luta Antimanicomial se contrapõe frontalmente a esta necropolítica que se instalou e assaltou o país.

A posição Antimanicomial defende a vida de todos e não apenas dos usuários dos serviços de saúde mental, a posição Antimanicomial, que sempre combateu o isolamento social, sabe que defender a vida é agora apostar no necessário afastamento social.

O Antimanicomio que sempre buscou a apostou nas atividades coletivas, nas soluções coletivas, nos tratamentos coletivos, no encontro múltiplo e multiplicador de possibilidades e vitalidades; sabe que agora a defesa da vida é ficar em casa sempre que possível, é buscar os encontros virtuais sempre que possível, é fortalecer os recursos psicossociais que cada um e cada família dispõe para enfrentar essa travessia, esse momento.

O Antimanicomio agora é fortalecer e apoiar os recursos de todas as modalidades e diversidades de composições familiares, é fortalecer cada casa, que mais que nunca precisa ser também casulo e asas.

“A casa

mais que casa

é um caso

casulo

e asas”

Alice Ruiz        


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