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Domingo 06.dez.2020

Ano IX - Nº 422

Artigo da semana

A origem das milícias digitais

Passou da hora de elucidar o funcionamento deste esquema criminoso, capaz de vencer eleições e manipular a opinião pública

Postado em 20 de Maio de 2020 - Guilherme Boulos

Ilustração: The Intercept_Brasil Ilustração: The Intercept_Brasil

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A história começa com um magnata norte-americano chamado Robert Mercer, dono de um fundo de investimentos que utilizava algoritmos e modelos matemáticos para prever o futuro e fazer seus clientes ainda mais ricos. Ou melhor, começa com a associação de Mercer com outra figura das sombras, Steve Bannon, ex-executivo do Goldman Sachs que vociferava ideias fascistas nas redes sociais. Juntos, decidiram usar seus conhecimentos e fortunas para incidir politicamente. Nasceu daí uma empresa chamada Cambridge Analytica.

Com ela armaram um grande esquema de Big Data com o objetivo de manipular os resultados de diversos processos eleitorais. O Brexit e a eleição de Donald Trump foram os pioneiros. O primeiro passo da operação foi coletar de forma ardilosa os dados de cidadãos em celulares e redes sociais, sem que eles soubessem, por meio de aplicativos, enquetes ou de testes do tipo quizz. Assim, com questionários ingênuos, milhões de pessoas deixaram dados sobre seus traços de personalidade, desejos e medos.

Com esses dados em mãos, eles utilizaram técnicas de segmentação comportamental, definindo o perfil psicológico dos eleitores. O cruzamento com os dados que deixamos nas redes sociais, a cada curtida ou comentário, formava um conjunto que permitiu catalogar as pessoas em diferentes “caixas psicológicas”. Os rastros digitais nos revelam. Esse método não foi inventado pela Cambridge Anaytica. Já era utilizado há muito tempo como estratégia de mercado, para levar a mercadoria certa ao cliente certo. Começou com os planos de saúde nos EUA. A novidade da Cambridge foi aplicá-la em larga escala, violando a privacidade e para finalidade eleitoral.

A partir dessa operação, tornou-se possível personalizar a mensagem política. A segmentação permitia definir qual tipo de conteúdo cada eleitor receberia, aquele que melhor se adequava à sua história digital.  Não é mais receber o mesmo santinho, ver a mesma placa, assistir à mesma propaganda.

Para uma senhora diabética, a mensagem vai falar sobre o preços de medicamentos. Para um homem que pesquisou cercas elétricas para sua casa, mensagens sobre violência, medidas de segurança pública. Ou, na versão brasileira, para uma senhora evangélica, mensagens sobre o kit gay e mamadeira de piroca. Não foram todos que as receberam. Apenas aqueles que teriam maior propensão de acreditar.

O modelo da Cambridge contou ainda com uma estratégia de intoxicação informativa. Para isso, Mercer adquiriu, antes das eleições dos EUA, o portal de notícias Breibarth News, onde eram ancoradas as narrativas em que seriam distribuídas as informações aos eleitores. Os links, com ar de seriedade, eram depois disparados nas redes sociais.

Estamos falando de uma estratégia sofisticada de comunicação política. Algo que alguém tão limitado como Carluxo jamais teria condições de imaginar. Sim, a operação veio pronta, sob medida, para uso do bolsonarismo. Carluxo é apenas um gestor na ponta.

A milícia digital bolsonarista constituiu-se de forma profissional em 2018, na pré-campanha à Presidência. Um dos momentos mais visíveis de sua formação foi a greve dos caminhoneiros. Ali houve uma coordenação para incidir naquele processo. Mensagens personalizadas eram criadas e a vinculação de Bolsonaro com a greve começou a tomar as redes sociais. Foi um “laboratório”, um experimento do que viria pela frente e segue rolando.

A partir da base fornecida pela rede de extrema-direita internacional, desenvolveram técnicas de controle de narrativa. Cria-se um fato, não importa se é verdadeiro, e fazem um ataque sincronizado para o “fato” começar a circular nas redes. Usam sites de “jornalismo fake”, ao estilo do Breibarth nos EUA, para difundir uma notícia distorcida ou falsa. E criam mensagens personalizadas de Twitter, Facebook, Instagram e WhatsApp. Ao fim, usam os bots (robôs) e serviços de mensagem automática para ampliar o alcance. Funciona. Ganharam uma eleição desse modo e há um ano e meio governam com base nisso.

Passou da hora de as autoridades elucidarem o funcionamento desse esquema. A omissão do Tribunal Superior Eleitoral custa um preço alto ao País. A negligência das plataformas nas violações de privacidade e no bloqueio de disparos criminosos segue permitindo a manipulação da opinião pública pela milícia digital.

Hoje há três grandes dúvidas a serem esclarecidas. Primeiro, quem financia? Há dinheiro público? Segundo, quem oferece a tecnologia? Por fim, onde estão os servidores que segmentam as mensagens e organizam os disparos? É muito provável que, no dia em que encontrarmos a resposta, o governo atual caia.

Guilherme Boulos - Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.


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