Semana On

Terça-Feira 02.jun.2020

Ano VIII - Nº 395

Poder

Transcrição de vídeo desnuda versão de Bolsonaro

Em petição enviada ao Supremo, o procurador-geral da República associou-se ao governo na defesa do breu. Pediu ao ministro Celso de Mello que mantenha longe dos olhares da opinião pública o grosso da gravação

Postado em 15 de Maio de 2020 - Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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"Não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu", declarou Jair Bolsonaro na fatídica reunião ministerial de 22 de abril. "Vou interferir. Ponto final", proclamou ele noutro trecho. Não são manifestações obtidas de terceira mão. Constam de transcrição oficial levada pela Advocacia-Geral da União ao Supremo Tribunal Federal. As palavras do presidente valem por um strip-tease.

Antecipando-se à decisão do ministro Celso de Mello, relator do caso Moro X Bolsonaro na Suprema Corte, a AGU extraiu da gravação feita durante a reunião os trechos que considera relevantes para o inquérito em que o presidente é acusado de tramar a interferência política na Polícia Federal.

A transcrição é parcial. Mas o pouco que ela expõe já é suficiente para desnudar a versão oficial difundida pelo próprio Bolsonaro. "Eu não falo Polícia Federal" na gravação, dissera o presidente aos repórteres. Mentira. A menção ao órgão escorre dos lábios do presidente no instante em que ele se queixa do desempenho dos serviços de espionagem do governo. "Pô, eu tenho a PF, que não me dá informações", ralhou a certa altura.

Às voltas com a síndrome do que estava por vir, Bolsonaro também afirmara aos repórteres que o conteúdo da fita estilhaçaria a acusação de Moro segundo a qual ele ameaçara demitir o então ministro da Justiça se não pudesse trocar o chefe da PF no Rio de Janeiro.

Na versão de Bolsonaro, ele mencionara no encontro apenas preocupações com a sua segurança pessoal e a proteção de seus filhos e amigos. Queixa dirigida não a Moro, mas ao general Augusto Heleno, chefe do GSI, o Gabinete de Segurança Institucional. Lorota. O contexto e os fatos que se sucederam ao encontro não deixam dúvidas. Os alvos de Bolsonaro eram a PF e Moro.

No trecho mais importante da coletânea editada pela AGU, Bolsonaro soa assim: "Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura."

O presidente prossegue, em timbre ameaçador: "Vai trocar; se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira."

Nesse trecho, Bolsonaro não cita a PF nem Moro. Mas também não há vestítigio de referência ao GSI, responsável pela segurança do presidente e de seus familiares. Não se ouve tampouco o nome do general Heleno. Confrontada com os fatos, a versão de Bolsonaro, ecoada no Supremo pela AGU, não para em pé.

Tomado pelas palavras, Bolsonaro não parece preocupado com a própria segurança ou com a integridade dos filhos. Inquieta-se com hipótese de surgimento de "sacanagem" com potencial para "foder" a "família toda" ou algum "amigo".

A inquietação com os amigos destoa do trabalho do GSI, pois a lei que prevê o fornecimento de segurança ao presidente e seus familiares não contempla a extensão do serviço de guarda-costas aos amigos do rei.

De resto, o que se verificou nos dias subsequentes à reunião foi uma incursão de Bolsonaro na estrutura da Polícia Federal, não no GSI. O presidente exonerou o direitor-geral da PF, Mauricio Valeixo. Fez isso com requintes de falsidade. Anotou no ato de exoneração que o delegado deixou o cargo "a pedido". Mentira. O Planalto Incluiu no documento a assinatura digital de Sergio Moro. Falsidade.

Nas pegadas do expurgo de Valeixo, sobrevieram o desembarque de Moro; a tentativa de nomeação do delegado doméstico Alexandre Ramagem, cuja posse foi barrada pelo Supremo; a troca de Ramagem pelo subordinado dele na Abin, Rolando de Souza; e a mexida no comando da superintendente da PF no Rio.

Tudo exatamente como ameaçara Bolsonaro na reunião: "Vai trocar [o superintendente do Rio]; se não puder trocar, troca o chefe dele [Valeixo]; não pode trocar o chefe, troca o ministro [Moro]. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira." No GSI, a cabeça de Augusto Heleno continuou sobre o pescoço do general. Não há registro de substituições no grupo que cuida da segurança de Bolsonaro e de sua família.

Afora a percepção de que Bolsonaro tentou mesmo colocar a PF a serviço do seu clã, a transcrição trazida à luz pela AGU revela que o presidente tem uma noção esquisita sobre a tarefa dos órgãos de inteligência do governo. Do modo como se expressou, o presidente parece associar esse setor mais à bisbilhotagem do que à coleta de dados estratégicos, úteis à tomada de decisões de um presidente.

Bolsonaro declarou: "Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações; eu tenho as inteligências das Forças Armadas que não têm informações, a Abin tem os seus problemas, tem algumas informações, só não tem mais porque tá faltando realmente... temos problemas... aparelhamento, etc. A gente não pode viver sem informação."

Nesse ponto, o presidente fez uma inusitada analogia familiar: "Quem é que nunca ficou atrás da... da... da... porta ouvindo o que o seu filho ou a sua filha tá comentando? Tem que ver pra depois... depois que ela engravida não adianta falar com ela mais. Tem que ver antes. Depois que o moleque encheu os cornos de droga, não adianta mais falar com ele: já era. E informação é assim."

Na sequência, Bolsonaro se diz preocupado com a "estratégia". Absteve-se de definir o que entende por estratégia. Limitou-se a ralhar e ameaçar: "E, me desculpe, o serviço de informação nosso — todos — é uma vergonha, uma vergonha, que eu não sou informado, e não dá para trabalhar assim, fica difícil. Por isso, vou interferir. Ponto final. Não é ameaça. Não é extrapolação da minha parte. É uma verdade."

O linguajar rastaquera, os modos rústicos e a ignição instantânea fazem parte do DNA de Bolsonaro. Mas os temas tratados na reunião do dia 22 de abril parecem ter aguçado os seus maus bofes. Em certos trechos, o presidente dirigiu-se aos subordinados como se estivesse fora de si. E sempre que isso ocorre, Bolsonaro não consegue esconder o que tem por dentro.

Aras é mais realista do que o rei na defesa do breu

O excesso de irritação de Bolsonaro acabou produzindo material para um inquérito criminal. Resta agora ao presidente confiar na aposta que fez ao indicar Augusto Aras para o posto de procurador-geral da República.

Se Aras decidir que a investigação contra Bolsonaro deve ser arquivada, babau. Não importa a quantidade de evidências em contrário. Do ponto de vista jurídico, o assunto estará encerrado. É o que espera Bolsonaro. Para evitar que eventuais desdobramentos políticos lhe ameacem o mandato, o capitão se acerta com o rebotalho do centrão.

De concreto, por ora, apenas a evidência de que o rei se desnudou. O preço do apoio do centrão dependerá do tamanho da nudez.

Em petição enviada ao Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral da República associou-se ao governo na defesa do breu. Pediu ao ministro Celso de Mello que mantenha no escuro, longe dos olhares da opinião pública, o grosso da gravação.

Aras revelou-se menos concessivo do que a Advocacia-Geral da União. Pior: mostrou-se mais realista do que o rei. O próprio presidente da República admite divulgar uma fatia maior do vídeo. Ao falar sobre o tema numa transmissão ao vivo pelas redes sociais, Jair Bolsonaro não suspeitava que o procurador-geral lhe saísse melhor do que a encomenda.

Aras defendeu junto ao ministro Celso de Mello, relator da encrenca no Supremo, que sejam divulgadas apenas as fatias do vídeo estritamente relacionadas ao inquérito, "notadamente as que tratam da atuação da Polícia Federal, da 'segurança', do Ministério da Justiça, da Agência Brasileira de Inteligência e da alegada falta de informações de inteligência das agências públicas."

Defensor de Bolsonaro, o advogado-geral da União, José Levi Mello do Amaral Junior, defendeu que sejam expostas à luz solar todas as manifestações de Bolsonaro na reunião, menos "a breve referência a eventuais e supostos comportamentos de nações amigas", além das falas dos ministros e presidentes de bancos públicos presentes à reunião.

Quer dizer: o advogado-geral foi mais generoso com a curiosidade alheia do que o procurador-geral. Bolsonaro disse o seguinte aos devotos que carregam o seu andor nas redes sociais: "São dois trechos de 30 segundos que interessam ao processo. Mas, da minha parte, autorizo a divulgar todos os 20 minutos, até para ver dentro de um contexto. O restante a gente vai brigar. A gente espera que haja sensibilidade do relator [Celso de Mello]. É uma reunião reservada nossa."

No serviço público, a publicidade é a regra. O sigilo, a exceção. Pela lei, o Planalto poderia ter requisitado a classificação da fita da reunião como sigilosa, secreta ou ultrassecreta. Mas não ocorreu a ninguém que seria necessário proteger segredos de polichinelo, desejados num encontro com mas de duas dezenas de pessoas, incluindo dirigentes de bancos públicos.

Integrante do seleto grupo de autoridades que tiveram acesso à íntegra do vídeo em que a cúpula do governo se reúne sob atmosfera de boteco, Aras justifica a defesa do breu com o argumento de que a divulgação da íntegra transformaria o inquérito em "palanque eleitoral precoce das eleições de 2022." Se procurar um pouco, o procurador notará que o palanque já está montado. De um lado, Bolsonaro, candidato à reeleição. Do outro, Moro, potencial adversário do ex-chefe.

Aras esmiuçou suas preocupações: "A divulgação integral do conteúdo o converteria, de instrumento técnico e legal de busca da reconstrução histórica de fatos, em arsenal de uso político, pré-eleitoral (2022), de instabilidade pública e de proliferação de querelas e de pretexto para investigações genéricas sobre pessoas, falas, opiniões e modos de expressão totalmente diversas do objeto das investigações."

Deve-se torcer para que o esforço exibido pelo procurador na busca de argumentos para poupar o governo da exposição de um vexame seja duradouro. O empenho pode ser útil na hora de procurar no inquérito elementos para o oferecimento de uma denúncia criminal que Bolsonaro dá de barato que o procurador-geral não formalizará.

General Heleno inventa o patriotismo de botequim

E não se pode abordar o tema sem citar o papelão do comandante de uma escrivaninha no Planalto, o general Augusto Heleno, que desceu à trincheira das redes sociais armado de tambores e clarins. Estufando o peito como uma segunda barriga, Heleno proclamou que o ministro Celso de Mello, do Supremo, cometerá "um ato impatriótico, quase um atentado à segurança nacional" se mandar divulgar a íntegra da gravação da reunião ministerial de 22 de abril.

Heleno insinua que Jair Bolsonaro e seus ministros trataram na reunião de temas sensíveis. Na definição do general, abordaram-se "assuntos confidenciais e até secretos." Em petição ao decano do Supremo, a defesa de Sergio Moro pede transparência total. Alega que a gravação não expõe "segredo de Estado", apenas "constrangimentos".

De fato, tomada pelos vazamentos, a reunião do Planalto transcorreu sob atmosfera constrangedora, marcada por xingamentos, desqualificações e alucinações.

Foi como se Bolsonaro e os ministros estivessem com a barriga encostada no balcão de um boteco de quinta categoria. Ou com os cotovelos recostados numa mesa de ferro —dessas que têm os pés em formato de 'X' e o tampo apinhado de garrafas de cerveja vazias.

Até para desfazer essa imagem, Heleno deveria defender o escancaramento da gravação. Sob pena de potencializar a sensação de que o general do GSI e seus companheiros de farda no Planalto inventaram uma modalidade nova de patriotismo: o patriotismo de botequim.


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