Semana On

Sexta-Feira 05.jun.2020

Ano VIII - Nº 395

Saúde

Taxas de isolamento social no Brasil caem em momento crítico

Isolamento no País está em 43,4%, mas especialistas apontam necessidade de o número mínimo ser de 70%. Bolsonaristas são os que mais violam a quarentena, mostra estudo

Postado em 15 de Maio de 2020 - Márcio Dolzan (Estadão), Bruno Lupion (DW), Carta Capital – Edição Semana On

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Apontado como uma das armas mais eficazes para tentar conter o avanço da pandemia do novo coronavírus, o isolamento social está em queda e bem abaixo do índice considerado ideal em todo o Brasil. Nos últimos dias, o número de pessoas que evitou sair às ruas ficou em patamar próximo aos da primeira quinzena de março, quando os casos de covid-19 ainda eram reduzidos no País. O afrouxamento da quarentena por parte da população coincide com o momento em que o sistema público de saúde começa a entrar em colapso e em que até mesmo a rede privada dá sinais de não conseguir absorver a demanda de pacientes.

Dados da Inloco, empresa de tecnologia que fornece inteligência a partir de dados de localização, mostram que a média de isolamento no País está em 43,4%, enquanto que especialistas apontam para a necessidade de o número mínimo ser de 70%. Nenhum Estado brasileiro chega nem sequer perto disso - todos apresentam índice de isolamento inferior a 51%.

São Paulo, epicentro da doença no País, ocupa apenas o 13.º lugar em isolamento entre todos os estados. Nem mesmo o rodízio de veículos mais rigoroso na capital, promovido desde segunda-feira, melhorou os números gerais. Ontem, o monitoramento apontou uma taxa de isolamento social de 43,03%

A situação de calamidade na saúde vista de norte a sul também não tem sido suficiente para convencer a população a seguir as orientações de afastamento. O Amazonas - que nos últimos dias bateu recordes diários de infecção por covid-19, está com seu serviço público de saúde saturado, e enfrentou dificuldades para atender ao aumento da demanda por urnas funerárias - tem menos da metade de seus habitantes em isolamento.

Ainda assim, o número consegue ser melhor do que aquele visto no centro-oeste do Brasil, cuja população menos tem ficado em casa nesta época de pandemia. Os três piores índices de isolamento ficam na região. A população de Goiás é a menos afeita ao distanciamento - apenas 36,9%. Tocantins (37,5%) e Mato Grosso (39%) vêm na sequência.

O pico de isolamento no Brasil foi registrado no dia 22 de março, quando 62,6% da população ficou em casa. Desde então, contudo, as curvas de isolamento têm apresentado tendência de queda - o inverso do que registram as curvas de contaminação e mortes por covid-19.

Lockdown

Os dados mais recentes demonstram pouca eficácia no lockdown das duas unidades que o decretaram na semana passada, Pará e Maranhão. O número de pessoas que têm evitado ir às ruas ainda é baixo naqueles Estados. Enquanto o Pará registrou 55% de isolamento no último fim de semana, essa curva voltou a cair e, na quarta, era de 49,5%. No Maranhão, chegou a 50% no dia das Mães, mas dois dias depois caiu para 48,7%.

Os dois Estados enfrentam uma grave crise em seu sistema de saúde por causa da pandemia de covid-19. O Pará está com a taxa de ocupação de seus leitos acima de 90% há pelo menos três semanas, mesmo com a inauguração de novos hospitais de campanha no período. O Estado contava com 152 respiradores vindos da China para ampliar o atendimento aos pacientes graves de covid-19, mas todos chegaram com defeito. No Maranhão, a pandemia é agravada pelos baixos índices econômicos e sociais, e o isolamento se torna particularmente difícil pela grande quantidade de trabalhadores informais.

O Ceará, que na quarta-feira (13) se tornou o segundo Estado com mais infectados, atualmente possui o melhor índice de quarentena - 50,9% da população tem evitado ir às ruas. Em terceiro no ranking de infectados por covid-19, o Rio de Janeiro tem taxa de isolamento social em queda diária, e atualmente é de 46,7%. No auge, superou os 64%. Parte da piora pode ser creditada à população da capital fluminense, que nas últimas semanas relaxou à quarentena. Alguns chegaram até mesmo a ir à praia no feriado. Iniciativas de algumas prefeituras, porém, poderão aumentar o distanciamento social. Esta semana, Niterói, São Gonçalo e Rio apresentaram medidas de lockdown parcial.

No Rio Grande do Sul, o governador Eduardo Leite (PSDB) estabeleceu um plano de "distanciamento controlado", que passou a vigorar na segunda-feira, 11. A medida prevê diferentes níveis de isolamento no Estado, que serão baseados no tipo de atividade econômica e nas curvas de contaminação pelo novo coronavírus. O plano deverá ter impacto no índice de isolamento social do Estado, que já é baixo, inferior na casa dios 42%.

Estudo aponta evidências de que bolsonaristas violam mais a quarentena

Um grupo de pessoas vestindo verde e amarelo nas ruas, criticando o isolamento social e declarando apoio ao presidente Jair Bolsonaro se tornou imagem recorrente desde o início da pandemia no Brasil, em março. Apesar de o número de manifestantes nesses atos ser pequeno, eles refletem um fenômeno mais amplo, segundo um estudo estatístico conduzido na USP: bolsonaristas tendem a desrespeitar mais o isolamento, uma medida amplamente reconhecida como eficaz para reduzir o contágio pelo novo coronavírus.

Com base em dados sobre mobilidade fornecidos pelo Google e pelo governo de São Paulo, no percentual de votos em Bolsonaro no primeiro turno das eleições de 2018 e em levantamentos realizados pelo Datafolha, um grupo de cientistas de dados liderado por Márcio Moretto, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, encontrou três evidências de que os bolsonaristas praticam menos o isolamento social do que o resto da população.

Uma delas é que, quanto maior o percentual de votos em Bolsonaro em um estado, mais rápido foi o relaxamento da quarentena nas duas semanas posteriores ao dia 24 de março, quando o presidente fez seu primeiro pronunciamento oficial criticando a quarentena.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores calcularam a velocidade do relaxamento em cada estado. Em Santa Catarina, onde Bolsonaro recebeu 66% dos votos válidos no primeiro turno, a reta que representa a velocidade de relaxamento tem uma inclinação de -0,76 (quanto mais próxima de 1, mais rápida). Já no Maranhão, em que ele obteve 24% dos votos, a inclinação é de −0,14.

A relação entre percentual de votos no presidente e velocidade do relaxamento fica mais evidente quando todos os estados são representados em um mesmo gráfico. A distribuição mostra que, em geral, quanto maior o percentual de votos no presidente, mais rápido foi o relaxamento da quarentena no período.

Outra evidência encontrada é que, nos municípios do estado de São Paulo com mais de 300 mil eleitores, o grau de isolamento médio nas duas semanas posteriores ao pronunciamento de 24 de março também se relaciona com o percentual de votos em Bolsonaro: quanto mais apoio ele teve na eleição, menor é o isolamento médio da cidade, informado pelo governo paulista.

Em média, a cada 10 pontos percentuais a mais de votos em Bolsonaro em 2018, o índice de isolamento médio cai 3 pontos percentuais.

Por exemplo, em Diadema, onde Bolsonaro teve 40% dos votos válidos no primeiro turno, o grau médio de isolamento foi de 57% no período. Já em Campinas, onde o presidente teve 56% dos votos, o isolamento médio foi de 52%. E em São José do Rio Preto, onde o capitão reformado do Exército teve 64% dos votos, o isolamento foi de 47%.

Por fim, o estudo também analisou as respostas captadas por dois levantamentos realizados pelo Datafolha por telefone, nos dias 17 e 27 de abril, que perguntaram aos eleitores o quanto eles estavam engajados no isolamento social e a opinião sobre a conduta de Bolsonaro em relação à covid-19.

Os pesquisadores construíram uma escala de isolamento, com valores de 0 a 3, sendo 0 os que responderam que estavam "vivendo normalmente" e 3 o que estavam "totalmente isolados". Depois, separaram os eleitores em dois grupos: os que avaliaram o desempenho do presidente como bom ou ótimo e o restante da população.

Em ambas as datas, a adesão ao isolamento era menor no grupo de apoiadores do presidente. Em 17 de abril, os bolsonaristas pontuaram 1,7 na escala, enquanto o resto da população, 1,98. Em 27 de abril, apoiadores do presidente pontuaram 1,72, e os demais, 1,87.

Motivos da rejeição ao isolamento

A posição dos eleitores sobre a quarentena é fruto de uma interação entre a opinião individual e as declarações e políticas adotadas por vereadores, prefeitos e governadores no nível local, afirma a antropóloga Isabela Oliveira Kalil, que acompanha movimentos de direita desde 2013 e é professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

"A pesquisa mostra que políticas específicas locais podem reforçar ou barrar a posição de Bolsonaro sobre a quarentena", afirma, chamando a atenção para como duas cidades paulistas onde o PT tem uma presença histórica – Diadema e São Bernardo do Campo – registraram graus de isolamento superiores à média do estado.

Por outro lado, nos municípios onde Bolsonaro teve altos percentuais de votos, houve uma combinação entre a orientação política dos representantes locais e as posições do presidente, que acabam por fortalecer a crítica ao isolamento.

Ela aponta também efeitos de uma polarização comunicacional, que leva apoiadores de Bolsonaro a rechaçarem veículos de imprensa tradicionais que destacam a importância do isolamento e, no lugar, a acreditarem em narrativas falsas.

Mas há fissuras nessa base. Uma delas se dá entre os evangélicos que apoiaram Bolsonaro, já que parte dos líderes religiosos reconhece o valor da quarentena e recomenda a seus fiéis que evitem aglomerações, enquanto outras lideranças são contrárias ao isolamento, aponta Kalil.

A socióloga Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que pesquisa a ascensão da extrema direita no Brasil, identifica três grupos hoje entre os bolsonaristas. Um, equivalente a cerca de 17% da população, é radicalizado e vive uma identificação com o presidente que extrapola as opiniões políticas e inclui a esfera emocional. Esses compartilhariam, por exemplo, a visão de Bolsonaro de que a covid-19 seria uma "gripezinha".

Já entre os que votaram em Bolsonaro e são favoráveis à quarentena, há dois subgrupos. Um é formado por eleitores que sabem dos riscos do novo coronavírus e da importância do isolamento, mas apresentam desculpas para a posição do presidente, dizendo que ele "faz o que pode", "é cabeça dura", "é honesto" e um político "não tradicional". O outro grupo está muito decepcionado com a conduta de Bolsonaro e começando a retirar o apoio a ele, por considerá-lo "irresponsável", diz Solano.

Maioria da população brasileira apoia isolamento social, aponta pesquisa

Apesar dos pesares, a maioria da população brasileira se diz favorável ao isolamento social como prevenção ao coronavírus. Foi o que mostrou uma pesquisa divulgada no último dia 12 12, pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT).

O levantamento mostra que 67,3% defendem que o isolamento social deve ser praticado por todos, independentemente de ser ou não do grupo de risco. 29,3% acreditam que apenas o grupo considerado de risco deve ser isolado e 2,6% acham que ficar em casa não deveria ser uma opção.


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