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Sábado 08.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Coluna

Desparecidos da covid-19 no Brasil

É preciso preservar a memória dessas pessoas para não repetirmos, como sociedade, essa lamentável situação que estamos vivendo hoje

Postado em 14 de Maio de 2020 - Emerson Merhy e Ricardo Moebus

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“Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta.”

Alex Polari

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Minha geração, que nasceu e cresceu no pós segunda guerra mundial, nos anos 1960/1970 viveu um mundo especialmente paradoxal.

Por um lado, um crescente movimento social que lutava pela ampliação dos direitos civis, já consagrados para parte da humanidade, como, por exemplo, a luta dos afro-americanos pela conquista de seus direitos civis, em um país profundamente marcado pelo racismo; e também a luta pela criação de novos direitos, como a luta das mulheres pela liberdade sexual.

Por outro lado, o crescimento de governos ditatoriais se espalhando pelo continente africano e latino-americano, que deixaram, como um dos malditos legados, o tema dos desaparecidos dos regimes militarizados, pessoas perseguidas, presas, mortas e desaparecidas por esses regimes ditatoriais fascistas.

Na América Latina até hoje temos como obrigação procurar revelar que os assassinatos cometidos por essas ditaduras não foram poucos e os assassinos e torturadores que os praticaram, em muitos desses países, não foram devidamente denunciados e nem julgados, com algumas dignas exceções, como Argentina.

No caso da Argentina, desde o final do regime militar ditatorial, vários grupos sociais se mobilizaram para procurar as pessoas que tinham sido presas e sumido durante a ditadura. Esse trabalho estimou em 30 mil o número de desaparecidos e propôs um conjunto de estratégias para identificar corpos e através de estudos chegar na identidade de quem foi assassinado, e com isso não deixar passar uma memória histórica e social, buscando maneiras para que os ditadores e seus sócios fossem implicados com as ações atrozes que fizeram.

Particularmente comovente foi o esforço das “Madres de Plaza de Mayo” e das “Abuelas de Plaza de Mayo”, que seguem ainda hoje, por mais de quarenta anos, incansáveis na busca por seus filhos e netos desaparecidos.

Estas ações além disso, revelaram o quanto foi brutal a herança que esses regimes deixaram como marca em suas sociedades. Isso, se repetiu de uma maneira bem mais tímida no Brasil, Uruguai e Chile, por exemplo, mas, sem dúvida a luta do povo argentino abriu caminho e mostrou o quanto as mãos dos ditadores estavam sujas de dores, sofrimentos e sangue.

Problematizar, nesse momento da Pandemia pelo novo coronavírus, em particular no Brasil, parece ser um esforço necessário, pois além do modo irresponsável como o governo nacional vem se posicionando em relação ao enfrentamento da COVID19, podemos constatar que um dos seus efeitos será a criação dos desaparecidos da COVID19.

O Brasil tem adotado, como uma medida autorizada juridicamente, que várias pessoas que morreram ou venham a morrer durante a Pandemia possam ser enterradas sem identificação e sem atestado de óbito. Ou seja, autorizando a produção de vários desaparecidos, o que nos parece lamentável.

Precisamos, desde já, deixar bem claro que essa situação vai exigir de todxs uma vigilância contra esse processo, além de se criar socialmente essa questão como um problema que teremos que deixar visível para o conjunto da sociedade brasileira.

 A nossa obrigação será lutar contra isso que constituirá, de fato, a nova fabricação da existência de dezenas de milhares de pessoas mortas não identificadas, sobretudo se a Pandemia continuar caminhando do modo como vem, hoje em dia, na qual se aponta para a morte de dezenas e dezenas de milhares de mortxs.

Procurar preservar a memória dessas pessoas e desse processo é necessário para não repetirmos, como sociedade, essa lamentável situação que estamos vivendo hoje no Brasil.


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