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Domingo 09.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Especial

Vulnerabilidades que aproximam

Das aldeias às ruas, combate a covid-19 esbarra em desigualdade e na ausência de direitos básicos, como saúde, emprego e moradia

Postado em 11 de Maio de 2020 - Rogério Lannes Rocha, Luiz Felipe Stevanim, Ana Cláudia Peres - Radis

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A expansão da pandemia de covid-19 pelas favelas, periferias e interiores do Brasil escancarou a perversa desigualdade social e econômica entre as classes sociais, naturalizada e aceita por grande parte da sociedade e das instituições do Estado, o que representa uma barreira às recomendações de higiene básica, distanciamento físico e permanência em casa.

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) alerta sobre a necessidade de especial proteção a grupos em situação de vulnerabilidade ou em risco como as pessoas em situação de rua, com sofrimento ou transtorno mental, com deficiência, vivendo com HIV/aids, LGBTI+, população indígena, negra e ribeirinha e trabalhadores do mercado informal, como catadores de lixo, artesãos, camelôs e prostitutas. À lista do Conselho acrescentamos a população carcerária, sobrevivendo em condições subumanas, e os profissionais de saúde que lidam com o risco real de contaminação e os sentimentos de medo, frustração e impotência em seu trabalho.

A violência crônica nas periferias é uma epidemia adicional no interior do país. Em 2019, aumentaram em 22% as ameaças de morte e 14 % os assassinatos de trabalhadores do campo, indígenas, quilombolas. O terror acompanha o desmatamento que cresceu 51% nos últimos meses. Nas áreas indígenas, a invasão por garimpeiros e madeireiros e a incursão de missionários representam a propagação de doenças. As populações indígenas em todo o Brasil estão entre as mais vulneráveis na pandemia. “Ficar nas aldeias” será seguro se a sociedade e o Estado garantirem o direito dos povos originários à sua terra. Ainda assim, o desmonte do subsistema de indígena de saúde os deixam desassistidos.

Uma das maiores preocupações do CNS é a desigualdade nas condições de saneamento e moradia frente à pandemia. Nesta edição, trazemos reflexões sobre os determinantes sociais que agravam a pandemia e entrevistas com quem conhece de perto a realidade nas terras indígenas, periferias e favelas e nas ruas das cidades, onde se dorme e trabalha.

“Quando começaram a falar em covid-19 e disseram ‘fiquem em casa’, isso dilacerou nossos corações”, lembra o representante no CNS do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, entrevistado pela Radis. Para ele é preciso mais do que oferecer serviços de saúde para essas pessoas durante a pandemia. É preciso haver ações integradas com as áreas de moradia e assistência social.

Quem não tem acesso a condições dignas de moradia e vida e aos mínimos direitos fundamentais ou está sem trabalho e renda nunca esteve tão vulnerável. Nos bairros de periferia e favelas das regiões metropolitanas brasileiras, é comum famílias aglomeradas em poucos cômodos, e “ficar em casa” significa também compartilhar os espaços externos com parentes e vizinhos. Com o adensamento, há casas sem janelas e ventilação. Muitos ficaram desempregados nos últimos anos e a renda vem de trabalhos informais e descontínuos. Com a quarentena, famílias já passam fome.

No Rio de Janeiro, conversamos com a moradora da Mangueira que chamou a atenção de milhares de pessoas nas redes sociais para a falta de um plano do Estado para prevenção da covid-19 nas favelas e com o ativista do morro da Providência que divulgou em vídeo a falta de água em plena pandemia. Com discurso afiado sobre a responsabilidade histórica da sociedade e dos governos na situação “catastrófica” das favelas, comunicadores e ativistas do conjunto de favelas do Alemão criaram um Gabinete de Crise para pressionar as autoridades e divulgar alertas à população com faixas, cartazes e funk. Na Maré, ativistas cobraram adequação das recomendações oficiais, por não levarem em conta a aglomeração inevitável nas casas e utilizaram carro de som, faixas e cartazes no comércio local para divulgar as orientações de higiene em linguagem mais clara e propor o compartilhamento de água. Todas essas iniciativas incluíram campanhas pelas redes para a doação de cestas básicas e material de higiene às comunidades.

Ainda em março, mais de 60 comunicadores populares reuniram-se em uma coalização nacional de enfrentamento ao coronavírus, criando a frente Corona nas Periferias, que lançou manifesto questionando o poder público, que deixa “à mercê da sua própria sorte as favelas, periferias, guetos, quilombos, sertões e toda a população à margem”.

Enquanto isso, notícias falsas sobre a pandemia são produzidas e compartilhadas. Num período de 30 dias entre março e abril, o aplicativo Eu Fiscalizo verificou que 10,5% das fake news foram publicadas no Instagram, 15,8% no Facebook e 73,7% no WhatsApp, plataforma em que 71% delas tinham a Fiocruz como suposta fonte da informação.

Vulnerabilidades que aproximam

“Fique em casa” tem outro sentido nas aldeias. O apelo da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de outras autoridades sanitárias pelo distanciamento social — única medida capaz de conter o avanço da pandemia do novo coronavírus — é adaptado à realidade dos povos indígenas. Do território Xakriabá, localizado no município de São João das Missões, no extremo norte de Minas Gerais, Célia Xakriabá conta que as populações indígenas acompanham com preocupação as notícias sobre o novo vírus e reforçam outra ideia: para eles, o “Fique em casa” é “Fique na aldeia”. “É muito mais uma reflexão sobre ‘Fique na sua primeira casa’, que é nosso próprio corpo, para repensar o comportamento do nosso ser no mundo”, ressalta a líder indígena, cientista social e doutoranda em antropologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para além de uma guerra biológica contra a covid-19, estamos diante, segundo Célia, de uma “guerra civilizatória que requer outro modo de vida”.

Por sua vivência de base comunitária, que torna mais propícia a disseminação do coronavírus, e pelo déficit na garantia de direitos fundamentais como a saúde e o respeito ao território, os indígenas são apontados como uma das populações vulneráveis no contexto da pandemia. O CNS reforçou às autoridades brasileiras a necessidade de proteger contra os impactos da covid-19 principalmente os grupos em situação de vulnerabilidade ou em risco, como pessoas em situação de rua, com sofrimento ou transtorno mental, com deficiência, vivendo com HIV/aids, LGBTI+, população indígena, negra e ribeirinha e trabalhadores do mercado informal, como catadores de lixo, artesãos, camelôs e prostitutas. “Uma das questões que mais nos preocupa tem a ver com o tamanho do nosso país e a desigualdade nas condições de saneamento básico e de estrutura domiciliar que as pessoas têm para enfrentar adequadamente essa pandemia”, afirma Moysés Toniolo, conselheiro nacional de saúde e integrante da Articulação Nacional de Luta contra a Aids (Anaids) e da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/aids.

Das favelas às aldeias, as marcas da desigualdade aumentam o desafio para prevenção e controle da covid-19 e exigem estratégias intersetoriais adaptadas a contextos diferentes. Uso de álcool gel e máscaras, higienização das mãos e mesmo a recomendação para não sair de casa são medidas que esbarram em realidades em que falta água tratada e saneamento, como nas periferias brasileiras, ou na ausência de direitos básicos, como saúde, emprego e moradia. As ruas foram a casa de Vanilson Torres por 27 anos, em Natal, no Rio Grande do Norte; hoje ele é conselheiro nacional de saúde e integrante do Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR). “Quando começaram a falar em covid-19 e disseram ‘fiquem em casa’, isso dilacerou nossos corações. Para a população em situação de rua, como vai ficar em casa?”, indaga. Segundo ele, para cuidar dessas pessoas no contexto da pandemia, não bastam os serviços de saúde: é preciso ações integradas com as áreas de moradia e assistência social.

Indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pessoas em situação de rua, refugiados, ciganos, moradores de favela e periferia, aqueles que vivem com HIV/aids, trabalhadores informais e outros grupos têm algo em comum: por estarem à margem da sociedade, precisam lidar com as desigualdades no acesso aos direitos, o que os torna ainda mais vulneráveis diante da pandemia de covid-19. Contudo, o que define essas condições de vulnerabilidade? Para Marcelo Pedra, psicólogo sanitarista e pesquisador do Núcleo de Pesquisa com Populações em Situação de Rua da Fiocruz Brasília, são fatores culturais, socioeconômicos e demográficos. “A gente se habituou a pensar em populações vulneráveis ao falar de pessoas em situação de rua, em privação de liberdade, as LGBTQI+, o povo cigano, catadores e trabalhadores da reciclagem, ou seja, pessoas que estão de alguma maneira expostos, o que radicaliza muito mais nesse momento de covid-19”, afirmou durante o evento Conexão Fiocruz (2/4), transmitido online.

A definição de “vulnerável” se amplia em tempos de coronavírus e pode abranger também os próprios profissionais de saúde, que estão mais expostos à contaminação do vírus e precisam ainda lidar com sentimentos como medo, frustração e impotência . “É preciso falar também dessa vulnerabilidade psíquica que os trabalhadores vão experimentar”, pontuou Marcelo. Como cuidar e se proteger nesse contexto? O caminho talvez esteja em compreender o que aproxima cada um de nós nesse momento de distanciamento social, “pois o que é covid para um é covid para o outro”, como lembra a psicóloga Débora Noal [Leia entrevista ]. Radis reuniu relatos de pessoas que pertencem a alguns desses grupos em situação de vulnerabilidade para entender como eles têm lidado com o contexto de uma pandemia que pode tanto isolar quanto colocar mais próximos aqueles que partilham a mesma luta por saúde.

Aldeias contra a covid

A luta histórica dos povos indígenas para permanecer nos territórios torna-se, mais do que nunca, uma medida de sobrevivência. “Quando se fala em ‘fique em casa’ ou ‘fique na aldeia’, as pessoas ainda não entenderam que essa sempre foi a nossa luta: a garantia de ficar na casa, de ficar na aldeia”, explica Célia. Para cobrar do governo ações que protejam essas populações, a Articulação Nacional dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) publicou nota (20/3) em que reivindica a adoção de um Plano de Ação Emergencial, que abranja tanto o fortalecimento da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) quanto medidas para coibir a invasão dos territórios por grileiros, garimpeiros e madeireiros. Célia conta que lideranças de todo o país fecharam seus territórios para evitar a chegada do vírus nas aldeias, mas o controle é dificultado porque os povos não são respeitados. “A realidade é que, enquanto nós queríamos ficar em nosso território, o Estado brasileiro tentava saquear as nossas casas. Muitas aldeias vivem sob essa ameaça: enfrentando a pandemia e ainda tendo que lidar com os conflitos territoriais”, destaca.

A confirmação da primeira morte de indígena por covid-19 foi de um adolescente yanomami em Boa Vista (RR), acompanhada de outros casos confirmados ou relatados por lideranças. “A gente vê que o vírus não está longe. Está chegando nas aldeias”, alerta Célia. Para ela, todo o esforço é para não chegar o primeiro caso. “Depois que chega, alastra de uma forma muito violenta e perigosa e não temos estrutura para lidar com isso”, reforça. A Apib também articulou com governadores estaduais uma carta com estratégias para a proteção aos povos indígenas de todo o Brasil (7/4). Outra iniciativa foi a construção de um Projeto de Lei (PL 1.305/2020), apresentado pelas deputadas Talíria Petrone (Psol-RJ), Joenia Wapichana (Rede-RR) e outros parlamentares da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, que dispõe sobre o Plano Emergencial para Enfrentamento ao coronavírus nos territórios indígenas, assegurando a garantia de direitos sociais e territoriais.

A covid-19 chega em um contexto crítico para a saúde indígena no Brasil. “Uma das primeiras medidas do governo, além da transferência dos processos de demarcação da Funai para o Ministério da Agricultura, foi a ameaça de municipalização da saúde indígena, tirando a responsabilidade do órgão específico, a Sesai, que faz toda a conduta hoje”, aponta Célia. Segundo a indígena xakriabá, isso representa uma grande ameaça, porque o município não dá conta e em muitos casos a própria gestão municipal tem interesses relacionados aos conflitos territoriais. Célia alerta que, se nada for feito, o extermínio dos povos indígenas no contexto da pandemia pode ser justificado como mera “fatalidade”. “Nós conhecemos essa história, pois fomos vítimas do extermínio em massa por meio de epidemias e crises virais. Muitos povos indígenas foram dizimados pela gripe, sarampo e por comida contaminada”, ressalta.

Nas aldeias, não há estrutura para controlar a disseminação da doença. “Quando as pessoas falam em acesso aos EPIs [equipamentos de proteção individual], máscara, luva, álcool em gel, as famílias nas aldeias nem sabem o que é isso”, conta. Os hábitos de convivência coletiva também preocupam, como o compartilhamento de objetos e utensílios e a própria alimentação. Por isso, enfrentar a covid-19 nas aldeias exige das lideranças a busca de outras estratégias. “A linguagem que foi disponibilizada como forma de orientação na internet não é tão acessível nos territórios”, considera. Célia narra ainda que, além da covid-19, os povos precisam enfrentar o avanço sobre suas terras, que não cessou com a quarentena. “Eu costumo dizer: a pandemia mata, a fome mata, a ausência do Estado mata, a colonização mata, o agronegócio mata. Não dá para dizer qual é a arma mais violenta. Apenas matam em velocidades diferentes”, afirma.

Os povos indígenas sempre foram expostos a uma situação de vulnerabilidade desde a colonização, como afirma a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) — com a chegada desses tipos de virose, as consequências são elevados índices de mortalidade, “especialmente para os povos em isolamento voluntário e de contato recente”, afirma a entidade em seu Plano de Ação Emergencial, publicado em abril. Célia pontua que os territórios indígenas permanecem negligenciados nas ações de enfrentamento à pandemia. “Estamos sendo invisibilizados novamente”, sintetiza.

O chamamento da líder indígena xakriabá é para que a solidariedade — estimulada em tempos de coronavírus — não seja somente para alguns, e outros não. “Se as pessoas não entenderem a importância de cuidar dos povos indígenas agora, todos aqueles que sobreviverem vão ter que enfrentar outra guerra respiratória, que são as mudanças climáticas. Porque somos nós que protegemos a maior biodiversidade do planeta”, afirma. Ela considera que a busca pela cura está na investigação dos princípios ativos em laboratório, mas também em “ativar nossos princípios de vida”. “É uma corrida pela retomada do tempo, já que o mundo não parou para ter tempo. O tempo parou com o mundo”, reflete. Célia, que também é educadora, aponta que as pessoas se preocupam como vão fazer com o trabalho, o calendário escolar e com tanta coisa “perdida”; mas, segundo ela, estamos “num momento de retomada de valores” em que teremos de reinventar o que não for vivido em 2020. “Se as pessoas passarem por tudo isso e não entenderem essa reflexão sobre a mudança radical que exige em nosso modo de vida, não vão entender realmente o que está acontecendo”, conclui.

Populações esquecidas

Garantir proteção social para as populações em situação de vulnerabilidade, no contexto da pandemia, é também uma forma de promover saúde. “Tem pessoas, pelo tipo de trabalho que exercem, que serão muitíssimo afetadas, porque não só diminuirá como poderá acabar totalmente a sua forma de subsistência”, avalia Moysés Toniolo. Para ele, esses grupos incluem desde as prostitutas e outros trabalhadores do sexo até as diaristas e empregadas domésticas e vendedores do comércio informal. Pensar saídas de cuidado e subsistência para essas pessoas é também tirá-las do esquecimento. “A gente não pode esquecer essas populações e temos que zelar para que elas tenham a atenção do Estado”, enfatiza o conselheiro de saúde e integrante da Anaids.

As desigualdades sociais preocupam o Conselho Nacional de Saúde (CNS) no enfrentamento da covid-19 no Brasil. Uma das questões que chama atenção é a precariedade das moradias em algumas regiões. “Temos populações que, nesse momento, para garantir o mínimo de isolamento domiciliar, estão com famílias inteiras — e, em alguns casos, com muita gente — restritas a um mesmo espaço, inclusive sem saber que alguma já pode estar infectada”, aponta Moysés. Segundo ele, o acesso a saneamento básico, água encanada e esgoto domiciliar, em regiões de difícil acesso ou nas periferias, são fatores que dificultam o controle da epidemia.

“A isso se soma o fato de que a população negra geralmente é a mais afetada pela desigualdade, com menos condições socioeconômicas de enfrentamento a esse tipo de situação”, completa. Ainda preocupam as correlações com outras situações de vulnerabilidade, como pessoas com doenças crônicas ou autoimunes, pessoas imunossuprimidas (como as que fizeram transplante) ou imunodeprimidas (que vivem com HIV ou hepatites virais). “Uma das orientações que nós, da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/aids, consideramos mais importante, é a manutenção dos serviços de farmácia e dispensação de medicamentos antirretrovirais, sem interrupção nesse período. O tratamento não pode ser interrompido, caso contrário as pessoas vão adoecer ou morrer”, destaca Moysés.

Durante a pandemia, a atuação do SUS será percebida por toda a sociedade, mas sobretudo por essas populações em situações de vulnerabilidade ou em risco, afirma o conselheiro de saúde. Para ele, existem duas posições antagônicas: a tentativa de minimizar a pandemia como uma simples gripe, o que expõe as pessoas ao risco, e as evidências científicas. “A preocupação é com a perda do lucro, ao invés da perda de vidas”, ressalta. Moysés considera que as consequências da covid-19 serão sentidas em todo o mundo, por isso o Estado precisa construir políticas para evitar efeitos perversos sobre as populações mais desassistidas. Ele afirma que o SUS é uma “retaguarda” capaz de minimizar os impactos sobre a saúde, desde que medidas de contenção sejam tomadas. Uma delas foi apontada pelo CNS: a imediata revogação da Emenda Constitucional (EC) 95, que congelou por vinte anos os investimentos em políticas públicas como saúde. “Esse é o momento em que a sociedade pode ver o SUS como ele é”, conclui Moysés.

Vozes das ruas

Sem ações concretas direcionadas às pessoas em situação de rua, elas não vão “sofrer apenas com o vírus”, mas também com a fome, a ausência de higiene e a escassez de água, como acredita Vanilson. De acordo com documento publicado pelo Movimento Nacional da População em Situação de Rua (24/3), do qual ele faz parte, e por outras organizações, com propostas da sociedade civil para garantia de direitos humanos, proteção e atendimento a essas pessoas, “a população em situação de rua aparece com um dos grupos sociais mais vulneráveis” diante da pandemia de covid-19, o que evidencia um cenário de desigualdade e injustiça social. “A atenção especial a essa população é necessária por diversos aspectos. Pelas condições sociais, por ela estar nas ruas, pela ausência de higiene e água potável, pela ausência de segurança alimentar”, considera Vanilson.

Seu olhar é de preocupação também em relação aos impactos da pandemia sobre a população mais pobre e ele teme que o aumento do desemprego leve à precarização ainda maior das condições de vida. “A gente tem que pensar antes, durante e pós-pandemia. Estou preocupado sobre como essa situação vai impactar diretamente nas ruas do Brasil. As pessoas não conseguirão pagar seus aluguéis e algumas terminarão nas ruas”, avalia. Para evitar um sofrimento ainda maior dos moradores em situação de rua, Vanilson ajudou a organizar em Natal, cidade onde vive, a campanha “A solidariedade não pode entrar em quarentena” para arrecadar doações como alimentos e material de higiene. Ele acredita que ações de saúde devem vir juntas a políticas de assistência social e moradia. “Em relação à saúde, nós percebemos que ela ainda está muito longe dessa população. Há preconceito e discriminação, mesmo nos serviços”, pontua.

Diversas cidades do país organizaram abrigos para acolher a população em situação de rua durante a pandemia, mas também surgem denúncias de superlotação e condições insalubres. “Nesse momento é essencial que sejam garantidas as condições básicas de higiene pelo Estado, por meio da articulação entre as políticas públicas de saúde e assistência social”, afirmou Carolina Sampaio, assistente social da equipe do Consultório na Rua no Distrito Federal, durante o evento Conexão Fiocruz (2/4). Segundo ela, a prioridade é a política de abrigamento, com a oferta de um local em que as pessoas possam ter a satisfação de suas necessidades básicas. Ela lembra que essa população geralmente vive dos “excedentes” da sociedade e todas as formas de acesso à renda para subsistência estão muito afetadas pela pandemia. “O que há para ser feito nesse momento é abrigar e cuidar dessas pessoas. Não é somente tirá-las da rua”, disse Marcelo Pedra, psicólogo que já coordenou equipes de Consultório na Rua e hoje pesquisa o tema na Fiocruz Brasília.

Vanilson acredita que é preciso fortalecer o SUS — nos cuidados com a população em situação de rua, mas também para todos os brasileiros. “O SUS é universal, tem que ser integral, garantidor de direitos para todos: para quem mora no papelão ou na mansão”, afirma. Lidar com as desigualdades é o maior desafio da pandemia de covid-19, na visão da psicóloga sanitarista Débora Noal. Segundo ela, enquanto para uma parcela da sociedade a preocupação é com o crescimento da curva de contágio pelo vírus, as pessoas que vivem na rua se preocupam muito mais com a sobrevivência no presente. “Quem tem fome, tem fome hoje, não é amanhã ou daqui a duas semanas. Esse é o desafio trazido pela pandemia: Como lidar com políticas públicas que são de hoje para hoje, têm que ser pensadas agora, com necessidades muito práticas?”, reflete [Leia entrevista na página 18]. Entender que “estamos juntos” — para além das diferenças — talvez seja um caminho para ampliar e fortalecer o cuidado. Ou, como nas palavras de Célia Xakriabá, “esse é um momento de retomada de valores” e de construir outros olhares sobre o mundo.

Favelas contra o vírus

Ela escreveu um post-desabafo indagando sobre como fazer isolamento em comunidades com becos apertados e sem ventilação. Ele gravou um vídeo para denunciar a falta de água. Elas montaram cesta básica para distribuir com quem precisa escolher entre o pão e o álcool em gel. Eles organizaram uma estrutura para melhor informar a população e pressionar autoridades. Carta, funk, carro de som, um gabinete de crise, uma campanha pela vida de suas mães. Radis acompanhou a mobilização nas redes e reúne histórias de gente que pôs a máscara e foi à luta para enfrentar uma pandemia que “escancara as desigualdades” — como disse uma outra entrevistada. Nas próximas páginas, você encontra relatos vindos das favelas, dos morros, das quebradas, das periferias de um país onde os programas de renda básica parecem longe de se transformar em política pública. Tudo junto ainda que separados. Qual o coletivo de isolamento?

“Existe um plano para que os moradores das comunidades também possam enfrentar o coronavírus ou a escolha é seletiva?”, indagava Kely Louzada, moradora do Morro da Mangueira, em seu perfil no Facebook (19/3). “Não esqueçam que, se esse vírus chegar às favelas e comunidades de nossa cidade, a contaminação será em massa, sem fazer distinção entre ricos e pobres”. A postagem listava uma série de perguntas sem respostas. Teve quase 3 mil visualizações, 587 comentários, mais de 2 mil compartilhamentos. O texto de Kely sintetizava o grito de uma população inteira diante de um barril de pólvoras prestes a estourar.

Pouco mais de 10 dias depois, a prefeitura do Rio confirmou o primeiro caso de covid-19 na favela onde Kely nasceu, mora até hoje e mantém a ONG Meninas Mulheres do Morro, com uma biblioteca de mais de 15 mil livros, que atende cerca de 200 crianças e adolescentes. “Tudo o que acontece no mundo, a gente discute aqui. O corona é uma preocupação mundial e eu comecei a questionar as autoridades sobre o que seria feito conosco se essa doença chegasse até nós”, diz à Radis. “Vamos morrer?”. Era isso o que, em outras palavras, Kely indagava naquele post.

Fazia menos de um mês da postagem, quando Radis conversou com Kely. O prefeito Marcelo Crivella, em entrevista à TV CNN, havia prometido olhar mais para as comunidades, e o presidente Jair Bolsonaro, depois de muita demora, acabara de sancionar com vetos o auxílio emergencial de 600 reais a trabalhadores informais — gestos que ela ainda considera insuficientes. Quanto à ativista, àquela altura, já tinha se somado a outras milhares de pessoas que vêm arregaçando as mangas contra o coronavírus. Com as crianças de sua ONG, produziu cartazes que foram espalhados na comunidade com dicas de prevenção; arrecadou cestas básicas que vêm sendo distribuídas — inclusive fora do morro, com a população de rua e travestis em diversos pontos da cidade; e naquele dia mesmo estava tentando ler tudo sobre o decreto que regulamenta a renda básica: na rua, as pessoas já lhe abordavam com dúvidas e ela planejava oferecer o computador da ONG para ajudar no preenchimento do cadastro. “Criamos uma espécie de liga de comunidades preocupadas com as vidas nas favelas. Não é mais apenas uma voz, mas muitas vozes cobrando respostas”.

Sem Rolé

O “Rolé dos Favelados” está suspenso por ora, anuncia, não sem tristeza, Cosme Felippsen, guia de turismo e morador do Morro da Providência. Idealizador do projeto que já levou cerca de 7 mil pessoas à mais antiga favela do Rio de Janeiro, ele teve que interromper o programa, logo que começaram as notícias sobre a chegada do novo coronavírus ao Brasil. Era preciso não sair às ruas, orientavam as autoridades sanitárias. #FiqueEmCasa, vibravam as hashtags nas redes sociais. O “Rolé” — um tour pela comunidade conduzido pelos próprios moradores, verdadeira aula a céu aberto sobre segurança pública, saneamento básico e cultura nas favelas — só poderá retornar quando passar o mau tempo. “Ferrou geral. Tenho um casal de filhos, não tenho dinheiro guardado”, imaginou. Na poupança, 0,24 centavos.

A aflição de Cosme, trabalhador autônomo nascido e criado na Providência, não é muito diferente do sentimento da grande maioria de brasileiros nas periferias do Brasil hoje. De acordo com uma pesquisa realizada pelo DataFavela/Instituto Locomotiva, a pandemia já alterou a vida de 97% das 13,6 milhões de pessoas que moram em favelas. Com 1.142 entrevistas realizadas em 262 comunidades entre os dias 20 e 22 março, o levantamento revelou que apenas 19% dos entrevistados possuem contrato formal de trabalho — a grande maioria (47%) trabalha por conta própria ou é formada por profissionais liberais, sem contar os 10% que estão desempregados e os 8% que trabalham sem carteira assinada. “No desespero, comecei a pedir ajuda as pessoas”, diz Cosme — um amigo de Portugal lhe enviou 100 reais, outros tantos lhe emprestaram algum.

Mas ele também compreendeu que havia maneiras de ajudar. No dia 20 de março, Cosme, que também é comunicador popular, usou suas redes sociais para postar um vídeo em que cobrava das autoridades a solução para a falta de abastecimento de água que já atingia uma parte do Morro da Providência, desde antes da pandemia. “Como ficar nessa situação de contágio sem lavar as mãos ou limpar a casa?”, questionava, na gravação que viralizou e mereceu uma resposta do poder público. Ao lado de outros parceiros, começou uma vaquinha online que, somente numa primeira etapa, garantiu cesta básica para 250 famílias da Providência. Quando Radis entrevistou Cosme por telefone, no começo de abril, seu grupo já contabilizava outras 400 cestas. Naquela ocasião, ele estava à procura de uma agência bancária para depositar alguma ajuda para o irmão, que mora com a esposa e cinco crianças, em Cabuçu, na Baixada Fluminense. Ainda segundo a pesquisa do Data Favela, 86% dos moradores de favelas vão passar fome durante a pandemia, caso não haja ações específicas voltadas para essa população.

Enquanto isso e apesar das dificuldades, diz Cosme, valem todos os esforços para tentar cumprir o isolamento social proposto como uma das ações para evitar a expansão do coronavírus. “Não dá pra esquecer que, na favela, há famílias que precisam dividir uma casa de dois quartos com 10 pessoas”, comenta. Nessas circunstâncias, como seguir as dicas básicas recomendadas pelas organizações de saúde e autoridades sanitárias?, indaga Gizele Martins, jornalista e moradora da Maré, na Zona Oeste do Rio. Ou como garantir medidas de higiene, como lavar as mãos a cada duas horas, se muitas favelas não têm água? E se falta dinheiro para alimentação, como comprar álcool em gel ou álcool 70%, quando se sabe que, em tempos de pandemia, uma embalagem do produto chega a ser vendido por 15 reais?

“Aqui na Maré, nos primeiros dias, vivenciamos o pânico de não saber lidar com a situação, inúmeras dúvidas surgiram sobre os sintomas e como cuidar de si, da família, da casa”, conta Gizele. “Ou como evitar aglomeração, se já vivemos em casas com grandes aglomerações, muitas delas sem qualquer tipo de ventilação?”. Não que essas dúvidas tenham sido sanadas. Para Gizele, um momento de pandemia como este evidencia o empobrecimento da favela e a total falta de direitos da periferia. “É necessário que toda a sociedade questione isso e se junte às populações vulneráveis na cobrança pelos direitos básicos, como por exemplo o direito à água, à saúde, à casa, à alimentação, ao trabalho, à vida”, diz.

Em uma manhã do início de abril, um carro de som trafegava pelas ruas da Maré. “Se liga, morador. O coronavírus já chegou nas favelas”. Entre os alertas que saíam das caixas da Fiorino vermelho, era possível ouvir dicas clássicas (“Lembre-se de lavar as mãos com água e sabão, manter a casa aberta e limpar superfícies com desinfetante”). Mas também orientações mais solidárias (“Se o seu vizinho está sem água, compartilhe”). A linguagem direta e sem rodeios também vem sendo usada pela Frente de Mobilização da Maré em faixas, cartazes, imagens e artes de rua espalhados pelas redondezas. O “Manual de como não vacilar em tempos de coronavírus”, colado em pontos estratégicos, tem feito a diferença.

“Estamos colocando em prática um plano de comunicação para atingir o maior número de pessoas. Não é todo mundo que sabe ler ou tem acesso à internet, por isso, pensamos em outras ferramentas”, acrescenta a comunicadora, que nesse período viu sua rotina mudar por completo. Acostumada a transitar por toda a cidade, entre o emprego no centro e as muitas oficinas sobre direitos humanos que ministra em favelas e universidades, está sem sair de casa. Por ser de grupo de risco — Gizele tem asma —, vem tentando obedecer rigorosamente as recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que não impede o trabalho de mobilização comunitária. Quando conversou com Radis, Gizele preparava o lançamento de uma campanha de doação para cuidar dos mais vulneráveis, entre os 140 mil moradores distribuídos pelas 16 comunidades do conjunto de favelas da Maré.

Gabinete, funk e carta

“A desigualdade empurrada para baixo do tapete da história agora se mostra de forma gritante. Corremos contra o tempo para garantir a sobrevivência humana nesse cenário catastrófico”. A observação é de Raull Santiago, ativista e comunicador social, morador do Alemão, complexo de favelas localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro. Na opinião de Raull, a pandemia exacerba ainda mais o abandono e o descaso sempre destinados à periferia. “São tempos difíceis e, para nós, o básico já beira o impossível”, ele diz sobre a dificuldade de a favela inserir na sua rotina até mesmo as dicas mais elementares das organizações de saúde. “Olhar para a favela e ajudar a periferia é urgente. E a melhor forma de conseguir manter a mínima dignidade dessas pessoas, salvando vidas, é com ajuda direta, doações de tudo que for necessário para higienização, alimentação e informações sobre a gravidade do que está acontecendo no mundo”.

No Complexo do Alemão, sem esperar por ações governamentais, a população se organizou em torno da ideia de um Gabinete de Crise, encabeçado pelos coletivos A Voz das Comunidades, Mulheres em Ação e Papo Reto, do qual Raull é co-fundador. A exemplo do que acontece na Maré e em muitas outras periferias Brasil adentro, colocam faixas com dicas estratégicas nas entradas da favela, colam cartazes nos pontos de mototaxistas, mercados, farmácias e também circulam mensagens de alerta via carro de som. Como recurso extra, usam a batida do funk: “Tá ligado no coronavírus? Deixa eu te passar a visão / Essa doença triste que afetou nosso mundão/ Vamos ter consciência e fazer toda a prevenção para nossa comunidade / Lave as mãos frequentemente, com água e sabão / Evite sair de casa para não ter aglomeração”.

“Tentamos fazer um trabalho de conscientização e ajuda direta, enquanto pressionamos a sociedade a colaborar nesse front com doações”, diz Raull. Mas ele também defende que ficar em casa não pode ser sinônimo de falta de renda. O Gabinete de Crise monitora e pressiona governantes por ações emergenciais diretas, como aprovação de projetos de renda básica. “Entendemos que dar suporte à nossa realidade é dever das políticas públicas”. Raull, Gizelle e pelo menos outros 65 comunicadores reuniram-se em uma coalizão nacional de enfrentamento ao coronavírus por meio da frente Corona nas Periferias. Ainda em março (19/3), escreveram uma carta pública onde questionam as providências estabelecidas pelos poderes públicos que, mais uma vez, deixam “favelas, periferias, guetos, quilombos, sertões e toda população à margem” e “à mercê da sua própria sorte”, pontua o documento.

Sob a hashtag #CoronaNasPeriferias, coletivos de todo o país se articularam para, de um lado, reunir esforços para informar seus territórios sobre ações relacionadas à covid-19 e, de outro  cobrar respostas. “A periferia é a empregada doméstica, o porteiro, o motorista de app, o entregador, o trabalhador informal que precisa estar no busão e no metrô vendendo seus produtos para levar renda pra dentro de casa ou o comerciante local que não pode suspender suas atividades”, antecipam-se, na carta. “O quanto nossos patrões estão dispostos a seguir os passos que a humanidade pede e permitir que cada um destes profissionais pratique o isolamento e mesmo assim pagar seus salários?” [Leia a íntegra aqui: https://favelaempauta.com/coalizao-coronanasperiferias/].

“Pela vida de nossas mães”

Do Recife, a comunicadora Yane Mendes, uma das criadoras da Rede Tumulto, também assina a coalizão. Moradora da favela do Totó, ela acredita que o abismo social pode até estar ficando mais evidente com a pandemia do coronavírus, mas, para Yane, muitas das questões levantadas agora já são uma realidade há bastante tempo nas periferias. “Para quem já vivencia tanto a violência, é muito difícil acreditar que existe agora mais uma maneira de morrer”, lamenta. “Se essa doença tivesse marcado a periferia antes de chegar na classe média, não teria nem 10 minutos de espaço numa televisão aberta” .

Quando os jornais noticiaram a morte de uma empregada doméstica por coronavírus no Rio (19/3) — depois que a patroa testou positivo para a doença —, Yane, cuja mãe é diarista juntou-se aos filhos e filhas de empregadas domésticas no coletivo “Pela vida de nossas mães”. Por meio de uma carta-manifesto, o grupo passou a reivindicar o direito à quarentena remunerada. “Há anos nossas mães, avós, tias, primas dedicam suas vidas a outras famílias, somos todas (os) afetadas (os) por essa ‘relação trabalhista’ de retrocesso e modos escravistas”, diz a carta, pontuando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que confirmam que 6,3 milhões de trabalhadores prestam serviços domésticos hoje no Brasil — o que pode incluir jardineiros, caseiros, empregadas domésticas e diaristas [Leia aqui: https://bit.ly/2V6w4WU].

A carta traz o depoimento de Yane: “Mainha é diarista. Todo dia, uma casa diferente. Nesta segunda feira, quando explodiu o lance do coronavírus, meu irmão me manda um zap dizendo que a nossa mãe não queria entrar em casa, pois a patroa teria dito a ela que estava com febre e que era para minha mãe ficar atenta. Esse episódio fez mainha tomar um banho de álcool em gel, não por desinformação. Era por desespero de alguém que ela ama dentro de casa pegar o coronavírus”. Em sua página no Facebook, o coletivo vem reunindo relatos como esse. Lá também é possível encontrar outras ações do grupo, como a convocação para preenchimento de um formulário, cujo objetivo é mapear trabalhadoras domésticas e diaristas que estão em situação de vulnerabilidade e conectá-las com possíveis colaboradores.

Ainda segundo a pesquisa do Data Favela, sete em cada 10 famílias já viram sua renda familiar cair nas últimas semanas e 72% das mães da periferia disseram que, com a pandemia de covid-19, vai faltar comida em casa. Além de distribuir cestas básicas e kits de limpeza, em abril (3/4), a Central Única das Favelas (Cufa) lançou o programa “Mães da Favela”, uma campanha que já conta com adesão nos 26 estados e Distrito Federal e vem transferindo renda para mães em situação de vulnerabilidade, que moram com idosos ou que tenham filhos deficientes. Até meados de abril, a campanha já havia arrecadado cerca de 4,5 milhões [Veja aqui: https://www.maesdafavela.com.br/]. Batizado de “Vale Mãe”, o auxílio no valor de 120 reais será repassado às beneficiadas durante dois meses.

Cesta básica, sabão e EPI

Da Baixada Fluminense, região que engloba 13 municípios no estado do Rio e concentra problemas históricos de violação de direitos, violência, desemprego e precarização do trabalho, chega mais uma iniciativa. Por meio da articulação #CoronaNaBaixada, cerca de 100 coletivos, organizações e lideranças sociais elaboraram um manifesto endereçado às prefeituras e Governo do Estado cobrando medidas de prevenção. O grupo redigiu sete propostas que vão desde renda básica emergencial para trabalhadores formais e informais que tiveram seus contratos suspensos até a higienização periódica das ruas da periferia [Leia aqui: https://bit.ly/2yp8dIZ].

Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada, Aparecida Maria divide a sua preocupação com Radis. “Tenho acompanhado as notícias e tô com medo de que isso seja só o começo”, diz ela. “Aqui na minha comunidade, no bairro de Ouro Preto, a maioria das pessoas não tem carteira assinada”. São ambulantes, pintores de parede, faxineiras, diaristas. “Pessoas que realmente trabalham de dia para comer à noite”, conta. “Quando começar a ferver o caldeirão, vai ser o caos total. As pessoas vão precisar sair para conseguir alimentação. E você sabe o que a fome faz, né?”

Ao lado de oito amigas, há cerca de uma década, Aparecida mantém funcionando o coletivo “As Comadres”, que no início prestava assistência às meninas da comunidade e agora faz de tudo um pouco. Na crise do corona, têm feito campanhas de solidariedade de forma mais caseira, com o apoio do Fórum Popular de Promoção da Saúde, para distribuir cestas básicas com quem mais precisa. Depois de arrecadadas as doações, ela mesma compra os mantimentos e embala um a um com toda a higienização necessária para depois distribuir no portão de casa, sem contato direto. Tem funcionado. Em suas cestas, o sabão feito com soda cáustica e óleo de cozinha produzido pelas próprias moradoras da comunidade é item indispensável. “Aqui, sempre funcionou assim. Quando uma está apertada em alguma coisa, pede socorro e aí vai ligando para a outra até conseguir ajuda, resolver aquela demanda, suprir o que falta. Agora não poderia ser diferente”.

Desde 2019, Aparecida integra também o Fórum Popular de Promoção da Saúde, que reúne representantes da sociedade civil organizada de comunidades urbanas, comunidades tradicionais e associações de pacientes. “Nossa preocupação maior agora é com profissionais de saúde”, diz, enquanto se empenha para fazer com que Equipamentos de Proteção Individual (EPI) confeccionados por pesquisadores e distribuídos gratuitamente cheguem à sua região. “Nossos profissionais de saúde estão trabalhando de maneira incansável, mas não têm como se proteger”, conclui.

Troca de saberes durante a pandemia

Em março (26/3), a Fiocruz organizou uma coletiva de imprensa exclusiva para comunicadores populares. Realizada no contexto de uma pandemia, não houve participação presencial, mas durante uma hora e vinte minutos, os coletivos enviaram perguntas e comentários pelo chat e travaram um rico diálogo com o coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz, Rivaldo Venâncio, e o infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), André Siqueira. Mediada pela coordenadora geral do canal Saúde, Márcia Correia e Castro, a coletiva contou ainda com a participação de Nísia Trindade, presidente da instituição.

A ideia era tirar dúvidas sobre a doença, mas também aprender com os comunicadores sobre as estratégias de enfrentamento à covid-19. “Não se trata de falar para os comunicadores populares, mas de construir em conjunto formas de proteção”, apontou Nísia. Quinze dias depois da coletiva, a Fiocruz lançou uma chamada pública para Apoio a Ações Emergenciais junto a Populações Vulneráveis, que vai financiar projetos em todo o território nacional que contribuam para prevenir o contágio ou garantir condições mínimas de sobrevivência a famílias impactadas economicamente pelas medidas de isolamento social.

Para seguir exercitando a troca de saberes, a campanha “Se Liga no Corona!”, construída pela Fiocruz em conjunto com a Redes da Maré e as organizações de Manguinhos, vai difundir informações confiáveis adaptadas ao contexto das periferias, usando formatos variados a exemplo de radionovelas, spots para carros de som, peças e vídeos para mídias sociais e cartazes. Além disso, a equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco reuniu, em uma página da plataforma wiki, um compilado de informações sobre o coronavírus nas favelas. Nesse endereço [veja aqui: https://bit.ly/3cAyJxE], você pode conferir outras notícias, relatos e materiais diversos produzidos pelos coletivos e descobrir formas de participar das doações e colaborar com as iniciativas de enfrentamento da pandemia — algumas delas citadas nesta reportagem.


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