Semana On

Domingo 31.mai.2020

Ano VIII - Nº 395

Poder

Violência bolsonarista

As cenas de selvageria protagonizadas por delinquentes travestidos de patriotas, ao agredir jornalistas e enfermeiras, envergonham a Nação

Postado em 08 de Maio de 2020 - Estadão (Editorial), Larissa Calixto (Congresso em Foco), Cristiane Sampaio (Brasil de Fato), Grasielle Castro (Huffpost) - Edição Semana On

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Os camisas pardas do bolsonarismo vestem verde e amarelo. As cenas de selvageria protagonizadas por esses delinquentes travestidos de patriotas durante manifestação com o presidente Jair Bolsonaro em Brasília, ao agredir o repórter fotográfico do Estado Dida Sampaio e outros profissionais de imprensa, envergonham a Nação.

O Brasil civilizado demanda que as autoridades façam uma investigação independente, rigorosa e célere dos fatos, sem se deixarem constranger pela truculência e pelo despudor característicos dos bolsonaristas. O presidente Bolsonaro deveria ser o primeiro a exigir ampla apuração. Mas Bolsonaro quer fazer o País acreditar que ele nem sabe se houve alguma agressão, fartamente registrada: “Eu não vi nada. Recriminamos qualquer agressão que porventura tenha havido. Se houve agressão, é alguém que está infiltrado, algum maluco, deve ser punido”.

Mais uma vez, o presidente trata os brasileiros como tolos. Tenta minimizar os múltiplos crimes e transgressões cometidos em comício que ele próprio estimulou – a começar pela aglomeração em plena pandemia de covid-19, passando pelas palavras de ordem golpistas e culminando com a covarde agressão a jornalistas.

A esta altura, não é mais possível dissociar a violência bolsonarista daqueles que a inspiram. Mas só há um responsável direto pela espiral de afronta à democracia por parte dos desordeiros com camisas da seleção brasileira – este é o Jair Bolsonaro, de quem se esperam desculpas não em privado, transmitidas por assessores, mas sim públicas, tal como foram as agressões, e essas desculpas devem ser dadas aos jornalistas atacados, a este jornal e ao País. Mas já não há mais esperança de que o presidente venha a desencorajar os boçais que agem em seu nome. Ao contrário: a julgar pelo que disse no domingo, Bolsonaro está disposto a dobrar a aposta contra a democracia, envolvendo agora as Forças Armadas – que, segundo ele, “estão ao nosso lado”.

Depois de sucessivas derrotas no Supremo Tribunal Federal (STF), Bolsonaro declarou que “chegamos no limite”, que “não tem mais conversa” e que “faremos cumprir a Constituição, ela será cumprida a qualquer preço” – referindo-se não à Constituição promulgada em 1988, mas a uma imaginária, que lhe dá poder absoluto.

O presidente, cujo apoio militar se resume a oficiais que ele levou para o governo e que são seus amigos dos tempos de quartel – relação que produz um tipo de lealdade que é pessoal, e não em torno de princípios –, claramente tenta enredar as Forças Armadas em sua ofensiva para desmoralizar o sistema constitucional de freios e contrapesos. “Esse é um fato que traz algum grau de preocupação, porque as Forças Armadas são instituições de Estado, subordinadas à Constituição, e portanto não estão vinculadas a governo nenhum”, reagiu o ministro do STF Luís Roberto Barroso, revelando uma inquietação que deveria ser de todos. Cabe aos chefes militares deixarem claro que nada têm a ver com a aventura bolsonarista e que, ao contrário, a repudiam.

Também se espera das forças vivas da Nação que manifestem não apenas sua repulsa, mas principalmente seu destemor diante de Bolsonaro e do bolsonarismo. “Cabe às instituições democráticas impor a ordem legal a esse grupo que confunde fazer política com tocar o terror”, disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. É preciso demonstrar que a Bandeira Nacional não pertence a essa minoria de desqualificados, que tentam sequestrar os símbolos pátrios para se apresentarem como os únicos brasileiros do País – os demais seriam “comunistas”, como foi chamado o ministro do STF Alexandre de Moraes, autor de decisões contrárias a Bolsonaro, numa intimidatória manifestação bolsonarista.

A escalada golpista coincide com o avanço de investigações sobre o clã Bolsonaro. E também coincide com a redução significativa do apoio popular ao presidente: a mais recente pesquisa da XP/Ipespe mostrou que em uma semana cresceu sete pontos porcentuais, para 49%, a fatia de brasileiros que consideram o governo Bolsonaro “ruim” ou “péssimo”. O recado a Bolsonaro vai ficando assim claríssimo: cada vez menos brasileiros toleram um presidente que, eleito para governar para todos, escolheu agir como condutor de pandilha.

Reações

As agressões e as ameaças físicas e verbais feitas por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro contra profissionais de imprensa geraram diversas manifestações de repúdio e de defesa da liberdade de expressão.

Entidades como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) acusaram o presidente de incitar esse tipo de comportamento contra a imprensa. Mesmo presente e tendo conhecimento da agressão durante o ato, Bolsonaro nada fez para conter a violência. "É o próprio presidente e seus ministros que incentivam as agressões contra a imprensa e seus profissionais”, disse a ABI por meio de nota.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também repudiou as agressões, assim como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e ministros do Supremo Tribunal Federal. Até o início desta manhã, os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e do Supremo, Dias Toffoli, não haviam se manifestado. O episódio ocorreu no Dia Internacional da Liberdade de Imprensa.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, oficiou o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MP/DFT), para pedir uma investigação sobre a agressão do último dia 3. O documento assinado por Aras é endereçado à procuradora-geral de Justiça do MP/DFT, Fabiana Costa Oliveira Barreto, chefe da instituição. “Tais eventos, no entender deste procurador-geral da República, são dotados de elevada gravidade, considerada a dimensão constitucional da liberdade de imprensa, elemento integrante do núcleo fundamental do Estado Democrático de Direito”, afirma Aras no ofício.

Juliana Nunes, da coordenação-geral do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), lembra que o episódio de domingo vem na esteira de outras diferentes ocorrências de agressão a profissionais de imprensa que têm sido registradas no país.  

“Vários sinais foram dados. É uma escalada de violência contra os jornalistas, contra a imprensa brasileira, então, infelizmente, foi uma agressão física, uma agressão mais grave, que a gente, de certa forma, já imaginava que poderia acontecer. Outros episódios de agressão verbal e também empurrões, por exemplo, aconteceram nos últimos dias”, afirma a dirigente.

Paralelamente, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República também foi acionado por conta de denúncias envolvendo diferentes ataques a profissionais de imprensa no Palácio da Alvorada, residência oficial de Bolsonaro e ponto de encontro de apoiadores do presidente.  

“É fundamental que o Ministério Público Federal esteja se mostrando atento a tudo isso e esperamos que as investigações dos diferentes órgãos de fato apontem os agressores, e não apenas individualmente. É importante que apontem também em quais grupos eles estão inseridos, pra que seja feita uma ação efetiva de combate a essas agressões, tanto no ambiente virtual quanto nas ruas”, afirma Juliana Nunes.

Bolsonaro

Durante o protesto de domingo (3), ao ser avisado por um assessor que uma equipe da TV Globo estava sendo expulsa do local, o presidente Jair Bolsonaro minimizou o fato. "Também condenamos a violência. Contudo, não vi tal ato, pois estava nos limites do Palácio do Planalto e apenas assisti a alegria de um povo que, espontaneamente, defendia um governo eleito, a democracia e a liberdade", disse o mandatário.

Depois, durante conversa com seguidores na porta do Palácio da Alvorada, o presidente se referiu ao ato como “uma manifestação espontânea da democracia" e disse que os ataques seriam de "algum maluco" que, segundo ele, "deve ser punido".

Desde sua atuação como parlamentar na Câmara dos Deputados, onde teve mandato durante quase 30 anos, Bolsonaro é associado a manifestações de ataques a jornalistas e à liberdade de imprensa. Segundo levantamento da Fenaj divulgado no último dia 3, somente nos quatro primeiros meses deste ano o presidente proferiu 179 agressões do tipo. Foram 28 ocorrências de agressões diretas a jornalistas, duas direcionadas à federação e 149 tentativas de descredibilização da imprensa.

Enfermeiros

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) demitiu Renan da Silva Senna, apontado como agressor de enfermeiras que participavam de ato a favor do isolamento social, em Brasília, no último dia 1º. De acordo com a pasta, ex-colaborador não possui qualquer acesso à rede de dados nem às informações internas do órgão desde a sua saída.

Em nota, o ministério informou que Renan havia sido contratado em 5 de fevereiro como prestador de serviços terceirizado após processo seletivo realizado pela empresa G4F. “Não há, portanto, qualquer vínculo direto com Administração Pública Federal.”

Ainda no texto, a pasta afirma que repudia qualquer ato de violência e agressão, “principalmente contra profissionais de saúde em um momento que eles devem ser ainda mais respeitados e valorizados”.

“Assim, é importante ressaltar que este Ministério tem realizado uma série de ações de enfrentamento a todos os tipos de violência desenvolvidas no âmbito de suas pastas temáticas, assim como ações de enfrentamento às consequências sociais da pandemia do novo coronavírus - sempre de acordo com as orientações do Ministério da Saúde.”

No último dia 5, a Procuradoria-Geral da República pediu ao Ministério Público no Distrito Federal que investigue as agressões. Para a PGR, os atos podem implicar em crimes contra a administração pública e contra a Lei de Segurança Nacional.

Agressão          

Imagens feitas no dia do ato, mostram que Renan xinga e empurra as enfermeiras. Vestido de verde e amarelo, com a frase “meu partido é o Brasil” estampada na camiseta, ele chama uma delas de “medíocre”. 

As enfermeiras levavam cruzes em sinalização às mortes causadas pela covid-19. Renan é engenheiro eletricista e trabalhava na Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. 

 


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