Semana On

Quarta-Feira 27.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Poder

Acordo com centrão consolida estelionato eleitoral

Condenados do Mensalão e investigados pela Lava Jato: quem são os novos aliados de Bolsonaro

Postado em 08 de Maio de 2020 - Josias de Souza (UOL), João Filho (The Intercept_Brasil) – Edição Semana On

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Nos primeiros meses de governo, Jair Bolsonaro teve a oportunidade de negociar com o Congresso de fronte erguida. Imunizado pelo frescor dos 57,7 milhões de votos obtidos em urnas recém-abertas, o presidente poderia ter fixado as suas bases para um novo padrão de relacionamento com o Legislativo. Bolsonaro preferiu apostar na fricção de um presidencialismo de trincheira.

Agora, com a popularidade reduzida a pouco mais de 30% e acossado por um inquérito no Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro encosta o seu mandato na banda bandalha do Congresso, rendendo-se à lógica do centrão.

Na retomada do toma lá, dá cá, o PP tomou de assalto o Dnocs, Departamento de Obras contra a Seca, que passará a ser chefiado por Fernando Leão, um preposto da legenda.

Foram ao balcão para negociar com Bolsonaro o presidente do PP, senador Ciro Nogueira, e o líder na Câmara, Arthur Lira. Ambos são clientes de caderneta da Lava Jato.

Um partido de encrencados com a lei recebe de Bolsonaro um cofre com R$ 1 bilhão para gastar em pleno ano eleitoral.

Há um déficit estético nessa operação. Falta à negociação uma noção qualquer de interesse público.

Depois de fazer juras de amor à ética na campanha eleitoral, Bolsonaro briga com Sergio Moro, apresentado por ele como símbolo do esforço anticorrupção, e harmoniza sua Presidência com o arcaísmo congressual.

Faz isso não para melhorar a gestão pública, mas para obter votos suficientes para barrar na Câmara um eventual pedido de impeachment ou uma denúncia criminal da Procuradoria da República.

O Dnocs é apenas o aperitivo. Nos próximos dias, o centrão será brindado com outros cofres.

A operação é de alto risco. Primeiro porque o centrão não vende apoio, ele apenas aluga. Temer pagou e conseguiu enterrar duas denúncias na Câmara. Mas Dilma também pagou e sofreu o impeachment.

Além de não assegurar estabilidade política, o acordo dá ao mandato de Bolsonaro uma aparência de estelionato eleitoral. Já estava entendido que a alegada nova política de Bolsonaro não inclui o combate à corrupção. Fica esclarecido agora que o presidente não se importa também em favorecer a produção de mais corrupção.

Quem é quem?

O bolsonarismo nasceu e cresceu na ideia impregnada no imaginário popular de que a prática política se tornou sinônimo de corrupção. O lavajatismo e a grande mídia tiveram papel importante no processo de demonização da política nos últimos anos. Qualquer cargo dado pelo governo em troca de apoio em votações na Câmara, uma prática comum e importante para qualquer democracia do mundo, ganha ares de escândalo no noticiário nacional e automaticamente passa a ser uma prática suspeita sob os olhos de investigadores. Toda troca desse tipo é tratada, a priori, como suspeita. Essa divisão do poder é fundamental para a saúde do jogo democrático, mas aqui ganhou alcunha pejorativa de “toma-lá-dá-cá”. O Executivo dar cargos em troca de apoio em votações no Legislativo é também uma forma de impedir a concentração de poder, sendo, portanto, parte essencial da democracia.

É claro que no Brasil corrupção é mato, e muitas dessas negociações políticas envolvem interesses privados, mas não se pode jogar fora o bebê junto com a água do banho. A proposta do bolsonarismo para resolver o problema da corrupção era justamente jogar o bebê fora com a água do banho. Bolsonaro conseguiu emplacar uma das maiores fake news da história do país: a de que um deputado com 30 anos de fisiologismo político nas costas era o único antagonista da chamada “velha política”. Um sanguessuga baixo clero que abusou das rachadinhas e do funcionalismo fantasma, que apoiou praticamente todos os governos — inclusive os de Lula — de repente virou o homem do povo que quer lutar contra o sistema.

Para surfar nessa onda da demonização da prática política, Bolsonaro prometeu durante as eleições que não negociaria com o Congresso e cumpriu. Em nome de uma falsa pureza ética, o bolsonarismo se recusava a partilhar o poder. Quando se dizia que o bolsonarismo era um projeto de destruição da democracia não era uma força de expressão. Passado quase um ano e meio de mandato, não há pessoa séria que não diga que Bolsonaro atropelou uma já cambaleante democracia. O bolsonarismo é, sob qualquer ponto de vista, uma tragédia para o estado brasileiro.

Um dos resultados dessa negação do jogo político é um governo que não consegue governar. Não fosse pela boa vontade dos presidentes da Câmara e do Senado, que vivem sob permanente ataque dos bolsonaristas, o Executivo não teria aprovado nenhuma de suas pautas. A reforma da previdência, por exemplo, jamais passaria se Rodrigo Maia não tivesse entrado em cena para fazer a política que o bolsonarismo se recusou a fazer. Agora, em meio a uma crise sanitária que provocará sérios danos à economia e com o governo precisando trabalhar, Bolsonaro está de volta para o aconchego da boa e velha política como se nada tivesse acontecido. Mas não voltou com nobreza, não. Voltou se associando aos maiores dinossauros já paridos pela politicagem brasileira, vários deles com as patas sujas de lama.

Depois de incentivar o povo a ir para rua para protestar contra os interesses escusos do Congresso, Bolsonaro chamou líderes do centrão para ouvir quais são seus interesses. Desde a semana retrasada, o presidente tem se reunido com representantes dos condenados no mensalão Valdemar da Costa Neto, do PL, e Roberto Jefferson, do PTB, além de Gilberto Kassab, do PSD, e Ciro Nogueira, do PTB, ambos investigados pela Lava Jato. Além dos presidentes de outros quatro partidos PSDB, PRB, PSD, PP, Baleia Rossi, presidente do MDB, e ACM Neto, presidente do DEM, sentaram à mesa para tomar um cafezinho com o presidente. Sim, Bolsonaro chamou os jogadores mais pesados da “velha política” em nome da governabilidade. Ele não gosta de fazer aliança, mas quando faz escolhe os parceiros mais junkies da politicagem. É um homem intenso, digamos assim.

À turma de Valdemar da Costa Neto foram oferecidas a presidência do Banco do Nordeste, a secretaria de Vigilância em Saúde no Ministério da Saúde e dezenas de outros cargos de segundo e terceiro escalão para ele fazer suas indicações.

À turma de Ciro Nogueira, que já foi denunciado pela PGR pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, foi oferecido o comando do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, o Dnocs, e o do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, FNDE.

À turma de Roberto Jefferson, presidente do PTB, chegou a ser oferecida a recriação do Ministério do Trabalho. O petebista foi convocado para contribuir com duas coisas: impulsionar a narrativa de que o presidente é boicotado por um Congresso interesseiro e ajudar a combater a política de isolamento social. Jefferson apareceu semana passada fazendo denúncias numa live que foi promovida pelo presidente da República em suas redes sociais. A entrevista foi conduzida pelo jornalista Oswaldo Eustáquio, conhecido por fabricar notícias falsas e que por um acaso é marido de uma assessora da ministra Damares.

Além de dizer que a Câmara, o Senado e o STF tramam um golpe contra Bolsonaro, Jefferson denunciou um mega-esquema para desviar recursos destinados à compra de equipamentos hospitalares — um escândalo que ele batizou de Covidão. Esse seria o interesse por trás do alarmismo dos governadores e deputados diante da pandemia. O fato é que o tal mega-esquema de corrupção nem existe. É apenas uma possibilidade que Jefferson escandaliza como se já tivesse ocorrido, apenas para inflar a narrativa governista.

A denúncia fake de Jefferson foi a senha para que políticos bolsonaristas e as milícias digitais se empenhassem em dar asas ao Covidão, que muito provavelmente foi idealizada pelo “gabinete do ódio”. Dias após à denúncia do petebista, o blog do Fausto Macedo no Estadão abriu espaço para Jorge Barbosa Pontes falar sobre o Covidão. Ele é um delegado da PF que foi nomeado pelo governo Bolsonaro para o cargo de diretor na Secretaria Nacional de Segurança Pública. Mais uma vez o bolsonarismo joga com o fantasma da corrupção para ludibriar a população — uma tática manjada desde o golpe de 64.

Bolsonaro está repassando para o Centrão cargos de segundo e terceiro escalão de secretarias estratégicas, que serão distribuídos pelas lideranças partidárias. O Centrão aceitou a oferta e logo saiu em defesa do presidente no Congresso, rejeitando uma possível abertura de processo de impeachment contra ele. Depois de paralisar o país por se recusar a jogar o jogo da política institucional, o presidente resolve jogá-la da forma mais pesada para salvar seu mandato. Já mandou avisar aos ministros que será demitido aquele que se recusar a acomodar os novos aliados. Para salvar o seu pescoço, Bolsonaro recorre aos métodos que até duas semanas atrás ele mesmo considerava ter sido responsável por levar o país ao fundo do poço.

Mesmo tendo recorrido à velha politicagem para que o mandato possa chegar ao final, a narrativa anti-sistema de Bolsonaro permanecerá de pé. É ela quem mantém a tropa bolsonarista unida. As crises e a queda de Sergio Moro fizeram Bolsonaro perder apoio popular, mas a sua base eleitoral continua fiel: 21% dos brasileiros consideram a tragédia bolsonarista boa ou ótima. São pessoas que seguem acreditando que o presidente se tornou uma vítima do sistema político por tentar moralizá-lo. Essa base é que mantém Bolsonaro dentro do jogo político e é apenas para ela que ele continuará prestando contas. Se as narrativas fabricadas estão conseguindo manter a chama do bolsonarismo, não há porque mudar de estratégia. No palanque, Bolsonaro continuará atacando a velha política. Na prática, estará jogando o jogo dela do pior jeito possível.


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