Semana On

Quinta-Feira 06.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Poder

O barraco de Regina Duarte ao vivo na CNN resume o caos do governo Bolsonaro

Secretaria da Educação deu um chilique, ao descobrir que Jornalismo não é assessoria de imprensa

Postado em 08 de Maio de 2020 - Grasielle Castro (Huffpost), Josias de Souza (UOL), Raquel Carneiro (Veja) – Edição Semana On

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Após 60 dias à frente da Secretaria Nacional da Cultura, a atriz Regina Duarte afirmou, em entrevista ao vivo à CNN, que ainda não sabe lidar com as burocracias do cargo — e o despreparo sobressaiu quando ela foi surpreendida por um vídeo enviado à emissora pela atriz Maitê Proença.

Regina deu um chilique ao saber que os apresentadores queriam que ela comentasse as críticas feitas pela colega de profissão em relação aos trabalhos da secretaria. 

Veja a cena.

“Dei chilique aqui. Telespectadores, desculpe o chilique. Estão desenterrando a fala da Maitê para quê? Quem é você que está desenterrando fala de dois meses atrás”?

A apresentadora Daniela Lima explica que a mensagem não é antiga, era de quinta-feira (7). Ao ouvir o esclarecimento da âncora, a atriz interrompe e diz: “Não, não, quero ouvir”. “Vocês estão desenterrando mortos. Estão carregando um cemitério nas costas. Vocês devem estar cansados. Fiquem leves”, completa. 

Daniela Lima diz mais uma vez que a mensagem é recente, explica que o País está enterrando mortos, entre eles, alguns colegas da atriz. Nos últimos dias, a Cultura perdeu personalidades como Aldir Blanc e Moraes Moreira. 

Enquanto o repórter Daniel Adjuto tenta encerrar a entrevista, a atriz volta a insistir que a emissora está desenterrando mortos.  

A atriz Maitê Proença é uma crítica à gestão de Regina Duarte. Quando a nova secretária foi nomeada para o cargo, cerca de dois meses atrás, ela postou foto de Maitê, entre outras personalidades as quais disse tê-la apoiado para a missão. A atriz desautorizou o uso da imagem e reclamou no post. 

“Eu também não gostei de ter sido usada em uma montagem que dá a entender o apoio a um governo que não aprovo. Que fique claro. Não aprovo este governo mas apoiarei até a morte o direito de quem pensa diferente de mim”, disse à época.  

Análise                     

O despreparo que a própria atriz assumiu na entrevista é um resumo do caos que tem sido o governo do presidente Jair Bolsonaro. A atriz reclamou de ser cobrada por resultados sem que tenha tido tempo para aprender a lidar com políticas públicas. Comentário semelhante tem sido feito pelo novo ministro da Saúde, Nelson Teich — recém-chegado ao cargo, em pleno andamento da elaboração de diretrizes para conter a propagação da covid-19. Enquanto isso, continua o método de fritura do governo Bolsonaro pelo próprio clã Bolsonaro, que já culminou com 8 demissões só no primeiro escalão.

Ditadura

Na entrevista à CNN, Regina Duarte minimizou as mortes da ditadura. Disse que sempre que há humanidade, há mortes e que tortura sempre aconteceu. “Cara, desculpa: na humanidade não para de morrer [gente]. Se você fala vida, do lado tem morte. Por que as pessoas ficam ‘oh!’?”, diz a secretária.

O repórter, então, relembra a atriz da tortura que houve no período, e ela dispara: “Bom, mas sempre houve tortura. Meu Deus do Céu, Stalin, veja quantas mortes. Hitler... Não quero arrastar um cemitério de mortes nas minhas costas”. 

Antes, questionada sobre o fato de apoiar um presidente que tem como um de seus ídolos o torturador Brilhante Ustra, a atriz disse que não é hora de olhar para o passado. “Acredito que ele [Bolsonaro] era e continua sendo melhor opção para o País. Ele fez isso, fez aquilo, não quero ficar olhando para trás, se ficar olhando para retrovisor, estarei andando e cairei em um precipício. Tem olhar para frente, ser construtivo, amar o País.”

Questionada sobre o que a faria deixar o governo, a atriz diz que falta de confiança nas pessoas que estão ao redor dela. Nesta semana, a secretária viu a Casa Civil passar por cima dela e reconduzir Dante Mantovani à presidência da Funarte. O maestro havia sido demitido por Regina, quando ela assumiu a chefia da secretaria. Aos jornalistas, a secretária disse que “ficou muito surpresa”, que até então todas as nomeações eram comunicadas. “Algumas eu tinha sugerido, outras muitas foram sugeridas.”

Mantovani foi demitido no mesmo dia. De acordo com o G1, Regina ligou para a Casa Civil e reclamou. Neste mesmo dia, vazou um áudio em que a atriz reage à nomeação do maestro e diz achar que o governo estava tentando tirá-la do cargo. “Demorou para eu ser avisada”, disse à CNN. Ela, porém, ressaltou que segue no comando do órgão, que tem muitos projetos e pretende deixar um legado. 

“Sou uma pessoa que ama a cultura, ama o setor, apesar de saber que tem uma minoria que não gosta de mim, o setor de ama. A minoria é gritalhona; deixa ela pra lá.”

A atriz ressaltou que não está satisfeita com as cobranças externas. Disse que não tem experiência em política pública, que está aprendendo e que mal sabia o que é um DAS. A sigla se refere aos cargos de Direção e Assessoramento Superior, são as funções comissionadas que existem na esfera federal. 

Reações

Pegou mal, muito mal, a vexatória entrevista dada por Regina Duarte na quinta-feira, 8, ao canal CNN Brasil. O reinado da Rainha da Sucata à frente da Secretaria Nacional da Cultura já não ia bem. Eleita para ocupar o cargo após a demissão de seu antecessor, Roberto Alvim, que fez um vídeo com alusão ao nazismo, a atriz e fiel partidária de Jair Bolsonaro se mostrou omissa ao defender a própria classe em tempos de crise. E, agora, mostrou que o fundo do poço da sua micada gestão (?) à frente da secretaria não tem fundo. Ao defender a Ditadura Militar, minimizar a tortura e mortes, e reagir de forma desproporcional a um vídeo de Maitê Proença — que respondeu, depois, aos excessos da secretária — Regina conseguiu provocar reações de repúdio das mais variadas personalidades da cultura.

Anitta, que raramente se pronuncia sobre política, foi ao perfil da atriz e fez um “textão” elegante, pedindo por uma postura diferente da secretária. “Uma pessoa que aceita assumir a secretaria de cultura está aceitando trabalhar para o povo, isso significaria escutar TAMBÉM os lados que pensam diferente da senhora e colocar sua posição sobre a questão. Se recusar a ouvir uma opinião contrária logo depois de enaltecer os tempos de ditadura me causa muito medo. Até porque eu e muitos dos meus amigos seríamos os primeiros censurados caso esse regime voltasse ao Brasil. Governar apenas para os que te causam afeição não é governar para o povo. Não seria mais inteligente responder com calma e sabedoria o que tem sido feito pela classe cultural em virtude dos acontecimentos da Covid-19? E as famílias que perderam parentes com a doença? Como se sentiriam ouvindo um depoimento de quem faz pouco caso do momento? Onde está a empatia? Meu intuito aqui não é insultar e sim questionar.”

Já Bruno Gagliasso, contumaz crítico do governo Bolsonaro, reforçou o movimento de repúdio às falas da atriz. “Não dá pra desculpar o seu deboche com torturados pelo Estado, sua naturalização da barbárie. Não dá pra desculpar seu silêncio, sua falta de projetos, a forma como você trata os trabalhadores do audiovisual brasileiro. Não dá pra desculpar a preferência que a senhora tem por ditadores, genocidas, irresponsáveis, gente sem compromisso com a verdade e com a vida.”

Como Anitta, a atriz Alice Wegmann também usou o espaço de comentários do perfil da própria Regina para fazer sua declaração. “Não anule todo o seu talento, Regina. Tudo o que fez de bom pro nosso país tempos atrás vai ser esquecido por essas declarações que a senhora está dando. É uma pena. Sinto uma tristeza imensa. Espero que, se ainda restar algo de bom dentro da senhora, que ajude a classe que já pertenceu algum dia.”

Em uma publicação feita pela atriz Débora Bloch, mostrando trecho do vídeo da entrevista, celebridades fizeram comentários de repúdio às falas da secretária. Entre eles Alessandra Negrini, Bárbara Paz, Dira Paes e os estilistas Alexandre Herchcovitch e Ronaldo Fraga.

Confira outras reações:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Eu não entendo o que aconteceu, Regina!

Uma publicação compartilhada por ᴡᴀʟᴄʏʀ ᴄᴀʀʀᴀsᴄᴏ (@walcyrcarrasco) em

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

São tantos lutos, mas hoje não posso deixar de gritar pelo nosso “Ministério” ou “Pasta”.... Sem mais #infelicidade

Uma publicação compartilhada por Z E Z E M O T T A (@zezemotta) em

Chapeuzinho Vermelho abilolada

Ninguém se afoga por cair na água, mas por permanecer lá. Regina Duarte permanece nas águas turvas do governo Bolsonaro agarrando-se a jacarés como se fossem troncos. Não podendo decretar o fim da guerra ideológica na Secretaria da Cultura, a atriz ajustou o seu discurso à ideologia do presidente.

Na entrevista concedida à CNN, Regina Duarte justificou o seu silêncio diante da morte de baluartes da cultura —"Será que eu vou ter que virar um obituário?"—, cantarolou a marchinha preferida do ditador Médici —"Pra frente, Brasil"— contemporizou com a tortura e a morte nos porões da ditadura —"Sempre houve tortura, não quero arrastar um cemitério nas minhas costas"— e celebrou sua própria fritura —"Estou adorando estar aqui."

No seu discurso de posse, há dois meses, Regina Duarte disse ter aceitado ingressar no governo porque Bolsonaro lhe prometeu "carta branca" e uma Secretaria da Cultura de "porteira fechada". A exemplo de Sergio Moro, ela também acreditou em Papai Noel. Tornou-se uma espécie de Chapeuzinho Vermelho que a turma de Olavo de Carvalho e de Carlos Bolsonaro xinga de comunista nas redes sociais.

Regina Duarte ainda não conseguiu compor a equipe dos seus sonhos. Deveria buscar a assessoria de uma criança de cinco anos. No teatro infantil, com seus enredos básicos, sua comédia ingênua e seus exageros trágicos, as crianças se integram com facilidade à catarse. Elas participam do espetáculo. Interferem na história, vaiam os vilões e torcem pelos supostos herois.  Uma criança avisaria para a Chapeuzinho Vermelho, aos berros, que o Lobo Mau está prestes a atacar. Invadiria o palco para evitar o ataque. O que falta a Regina Duarte é a companhia de uma criança de cinco anos capaz de saltar da poltrona do teatro e gritar, a plenos pulmões: "Fuja, Chapeuzinho!"


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