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Terça-Feira 02.jun.2020

Ano VIII - Nº 395

Saúde

Em meio a discussões sobre lockdown, pesquisa aponta que mais de 70% defendem isolamento social de todos

Bolsonaro é 'ameaça' à luta contra o coronavírus no Brasil, diz revista médica The Lancet

Postado em 08 de Maio de 2020 - BBC News

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Em meio a recordes no número de mortes diárias de covid-19 no Brasil e adoção de medidas mais rígidas de quarentena em diversas regiões, uma pesquisa recém-divulgada aponta que 72,4% das pessoas são favoráveis ou muito favoráveis a que toda a população fique em isolamento social.

Sobre o uso de máscaras, que desde quinta-feira (7) passou a ser obrigatório em todo o Estado de São Paulo - desde o transporte público até dentro de estabelecimentos e locais públicos -, 78,7% dos entrevistados disseram concordar parcial ou totalmente com a frase: "me sinto mais seguro se todos estiverem usando máscaras".

A pesquisa, feita em 30 de abril por aplicativo de celular com 1,7 mil pessoas em todo o Brasil, é da startup Behup, que levanta dados para fazer análise de comportamentos. A amostragem, segundo a Behup, é representativa da população brasileira e tem margem de erro de três pontos percentuais.

O Brasil tem tido intensos debates sobre as medidas de isolamento social. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro defende a volta ao trabalho da população, alguns Estados e municípios adotam medidas mais restritivas na tentativa de conter o avanço do novo coronavírus.

Na quinta (7), Bolsonaro foi ao Supremo Tribunal Federal com um grupo de empresários e ministros para pressionar pelo fim das restrições à atividade econômica.

O Brasil registrou mais de 600 mortes diárias por covid-19 nos últimos dois dias. O boletim de quarta-feira do Ministério da Saúde apontou que já passa de 8,6 mil o total de mortes oficialmente confirmadas, e são mais de 127,4 mil casos da doença.

Em São Paulo, epicentro da pandemia no Brasil, a prefeitura anunciou um "megarrodízio" a partir de 11 de maio para diminuir a circulação de veículos e, consequentemente, reduzir o número de pessoas circulando nas ruas.

No Rio de Janeiro, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que o Estado pode ficar sem leitos de UTI (unidades de terapia intensiva) já a partir de 13 de maio. Por conta disso, a fundação defende medidas de lockdown - um isolamento mais rígido e passível de punição para quem o descumpri-lo.

A adoção tardia dessas medidas, segundo a Fiocruz, "resultaria em uma catástrofe humana de proporções inimagináveis para um país com a dimensão do Brasil".

No Maranhão, a capital São Luís está em lockdown desde terça-feira; a medida passou a valer também em Belém e em outras nove cidades do Pará a partir desta quinta. No Ceará, o lockdown começará em Fortaleza nesta sexta.

No Amazonas, o Ministério Público entrou com uma ação na Justiça pedindo o isolamento mais rígido, uma vez que o sistema de saúde local já está em colapso.

Regras valem para os outros?

De volta à pesquisa de opinião da Behup, 74,7% dos entrevistados se disseram preocupados ou muito preocupados em contrair o novo coronavírus. E 14,9% se dizem favoráveis e 57,5% se dizem muito favoráveis a que todas as pessoas permaneçam em isolamento social (totalizando os 72,4% citados no início desta reportagem).

Apenas 5,5% se disseram nada favoráveis a medidas de isolamento.

O que explica, então, as baixas taxas de adesão às quarentenas adotadas pelos governos locais? Em São Paulo, por exemplo, a medição do governo estadual a partir de dados de celulares aponta que, nos dias 5 e 6 de maio, o índice de adesão ao isolamento foi de 47% da população - a taxa considerada ideal é de 70%.

Além das dificuldades de parte da população em promover o distanciamento social em locais inadequados e a necessidade de trabalhar para sobreviver, o pesquisador Danilo Cersocimo, diretor de assuntos públicos da Behup, vê também um "comportamento bem brasileiro".

"Minha interpretação dessa contradição é de que, primeiro, existe uma noção de que o isolamento social é importante, e sua defesa é o politicamente correto", diz ele à BBC News Brasil.

"Mas também existe um comportamento típico brasileiro de que 'as regras são para os outros' ou de 'não me considero em (comportamento de) risco'. Mostra a nossa dificuldade em cumprir regras sociais e em ter um comportamento (para o bem) coletivo."

Pensar no médio prazo

Na avaliação de Cersocimo, outros números da pesquisa sinalizam ainda uma possível dificuldade em manter as medidas de proteção no médio e no longo prazo.

Enquanto 84,4% dos entrevistados concordam total ou parcialmente com a ideia de que "usar máscara em público é um sinal de respeito para com os outros", apenas a metade também concorda parcial ou totalmente com a ideia de que "o governo deve obrigar as pessoas a usar máscaras em público mesmo quando a pandemia tiver passado".

"Isso me leva a crer que, se com o passar dos meses, houver a percepção de que a pandemia está controlada - e essa percepção pode variar entre as pessoas -, pode ser que haja um relaxamento (na defesa das medidas de proteção)", opina.

Bolsonaro, ameaça

Um duro editorial publicado na quinta-feira (7) por uma das revistas científicas de medicina mais importantes do mundo, a The Lancet, destaca a gravidade da pandemia de coronavírus no Brasil por sua alta taxa de transmissão — mas, ao lado dos alarmantes números no país, o texto aponta que "talvez a maior ameaça à resposta à covid-19 no Brasil seja seu presidente Jair Bolsonaro".

Com título Covid-19 in Brazil: so what? ("Covid-19 no Brasil: e daí?"), fazendo referência a uma fala recente de Bolsonaro sobre a piora do coronavírus no Brasil, o editorial afirma que as declarações e atitudes do presidente brasileiro e as turbulências políticas que levaram à saída recente de dois ministros do governo, Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro, são "uma distração mortal no meio de uma emergência de saúde pública".

O editorial destaca ainda a vulnerabilidade "especialmente das 13 milhões de pessoas morando em favelas, aqueles que estão desempregados e a população indígena do Brasil" diante do coronavírus. A publicação veio primeiro na versão online, mas o editorial faz parte na edição semanal que será publicada no sábado.

Enorme subnotificação

O texto começa afirmando que o coronavírus chegou mais tarde na América Latina, mas que após seu primeiro caso em fevereiro, o Brasil passou a ter o maior número de ocorrências e mortes pela covid-19 na região.

O editorial aponta como preocupante uma possível e "enorme" subnotificação de casos e o fato de o Brasil ter aparecido como o país com a mais elevada taxa de transmissão (2.81) em um estudo recente da universidade inglesa Imperial College envolvendo 48 países.

"Ainda assim, talvez a maior ameaça à resposta à covid-19 no Brasil seja o seu presidente Jair Bolsonaro. Quando na semana passada jornalistas o questionaram sobre o rápido aumento de casos, ele respondeu: 'E daí? Lamento, quer que eu faça o quê?'", diz o editorial, relembrando declaração do presidente no final de abril.

"Ele (Bolsonaro) não só continua semeando confusão, desprezando e desencorajando abertamente as medidas sensatas de distanciamento físico e confinamento introduzidas por governadores e prefeitos, mas também perdeu dois importantes e influentes ministros nas três últimas semanas", completa o editorial, referindo-se à saída dos ex-titulares dos ministérios da Saúde e Justiça.

"Uma perturbação como essa no coração da administração (federal) é uma distração mortal no meio de uma emergência de saúde pública e também um sinal drástico de que a liderança do Brasil perdeu seu compasso moral, se é que já teve algum".

Mas o editorial afirma que, ainda que hipoteticamente esta "lacuna de ações do governo federal" não existisse, o país ainda teria dificuldades pelas fragilidades sociais de sua população - como moradores de favela, com acesso precário à água e com moradias muito adensadas, embora destaque-se que "muitas favelas se organizaram para implementar medidas das melhor maneira possível".

"O Brasil tem um setor de trabalho informal bastante grande, em que a maior parte das fontes de rendimento deixaram de ser opção perante as medidas implementadas (de contenção ao coronavírus). A população indígena já estava sob ameaça séria mesmo antes da chegada da covid-19 porque o governo tem ignorado ou até incentivado a exploração ilegal de minas e de madeira na floresta amazônica."

"Agora, há o risco destes mineiros e madeireiros introduzirem esta nova doença em populações remotas."

'Bolsonaro precisa mudar drasticamente o seu rumo'

O editorial destaca ainda que, embora os principais focos da doença sejam as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, "há sinais de que a infecção está se deslocando para o interior dos Estados, onde estão cidades menores, sem recursos adequados como leitos de terapia intensiva e ventiladores mecânicos."

Por outro lado, o texto do Lancet exalta a mobilização de representantes da sociedade civil, como uma carta aberta liderada pelo fotógrafo Sebastião Salgado e publicada em 3 de maio clamando por proteção aos indígenas; e a atuação da Academia Brasileira de Ciências e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva contra cortes no financiamento da ciência e da assistência social durante o governo Bolsonaro.

"Estas ações trazem esperança. Contudo, a liderança no nível mais elevado do governo é crucial para rapidamente evitar o pior nesta pandemia, como tem sido evidenciado em outros países", finaliza o editorial.

"O Brasil como país deve se unir para dar uma resposta clara ao 'e daí?' do presidente. Bolsonaro precisa mudar drasticamente o seu rumo ou terá de ser o próximo a sair."

Não é a primeira vez que a Lancet publica editoriais sobre o Brasil, e tampouco sobre Bolsonaro.

A revista, fundada em 1823 na Inglaterra, publicou em agosto de 2019 posicionamento intitulado Bolsonaro ameaça a sobrevivência da população indígena no Brasil criticando a ameaça às garantias dos povos indígenas de domínio de suas terras e de acesso à saúde.

Em meio à eleição presidencial de 2018, um editorial da Lancet apresentou em outubro brevemente as propostas dos então candidatos Jair Bolsonaro e Fernando Haddad para a saúde, concluindo que "as propostas de ambos para a saúde são baseadas em abordagens ideológicas com pouca contribuição de dados clínicos ou sobre saúde pública".

Na edição do relatório Journal Citation Reports 2018, da consultoria Clarivate Analytics, o Lancet apareceu como o segundo periódico com maior fator de impacto (métrica composta por vários indicadores da influência de uma publicação científica) dentre 160 revistas avaliadas na categoria medicina, atrás apenas do New England Journal of Medicine.


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