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Quinta-Feira 02.jul.2020

Ano VIII - Nº 399

Coluna

Transformando luz e treva em arte

Muito do que assistimos hoje foi possível graças à inquietação de cineastas que, há muito tempo, transformaram aflições, fantasias e alucinações da mente em arte

Postado em 07 de Maio de 2020 - Clayton Sales

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Se você já assistiu a filmes que causaram sensações como assombro ou pavor, com certeza, de alguma forma, já tomou contato com o expressionismo alemão. O expressionismo em si foi uma corrente artística que atravessou a pintura, a literatura e a música, entre outras artes. Chegou ao cinema somente após a Primeira Guerra Mundial, numa Alemanha devastada. Como era um contexto muito miserável, cineastas resgataram recursos do expressionismo para criar produções que manifestassem o desprendimento da daquela realidade e suas visões fantasticamente pessoais. Contrastes e sombras de modo a produzir cenários sinistros, e uso de distorções que sugerem manifestações do inconsciente e sobrenaturalidade são algumas características do expressionismo alemão no cinema.

O auge desse movimento foi o final da década de 1910 e quase toda a década de 1920. Três filmes mudos são emblemáticos. "O Gabinete do Doutor Caligari" de Robert Wiene, lançado em 1919, conta a história de um médico que chega a uma pequena cidade com seu discípulo, um sonâmbulo que pratica coisas terríveis durante a noite. Outra obra é "Nosferatu", de F. W.

Murnau, lançada em 1922, adaptação não-autorizada do clássico literário "Drácula" de Bram Stoker, que narra a história de um vampiro que se apaixona por uma mulher e aterroriza sua cidade. Mais um trabalho importante do cinema expressionista alemão é "Metropolis" de Fritz Lang, lançado em 1927, que conta a história de uma sociedade comandada por ricos e poderosos que oprimem os trabalhadores confinando-os no subsolo da cidade.

O teste do tempo e da história é o melhor para medir o quanto um movimento ainda segue vivo e o expressionismo alemão o venceu com louvor. Afinal, ao longo das décadas, quantas produções da sétima arte não tem as digitais dessa corrente, principalmente gêneros como terror, suspense e ficção científica? Há nítidos elementos do expressionismo em diversas produções, como "O Homem Elefante" de 1980, um dos trabalhos mais notáveis de David Lynch, que coloca em discussão a capacidade do homem sentir empatia pelo diferente, principalmente quando ele aparenta monstruosidade. A genética do expressionismo alemão também pode ser detectada no musical "Pink Floyd – The Wall" de Alan Parker, lançado em 1982, com suas soturnas imagens de animação e fotografia que supervalorizam a atuação de Bob Geldof, no papel de um astro do rock de mente perturbada por traumas de infância. Cineastas como Tim Burton são influenciados pelo expressionismo alemão e quase todas as suas obras tem elementos, como "O Lar das Crianças Peculiares", produção que estreou nos cinemas em 2016.

Muito do que assistimos hoje nas telas dos cinemas ou nos streamings foi possível graças à inquietação de cineastas que, há muito tempo, transformaram aflições, fantasias e alucinações da mente em arte. 


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