Semana On

Sábado 28.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

A Grande Performance de Regina Duarte

Secretária da Cultura vai da desgraça à aclamação em uma semana. E não foi sozinha.

Postado em 07 de Maio de 2020 - Rodrigo Amém

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O amigo leitor se lembra da sexta-feira passada (02/05)? Não faz tanto tempo assim, mas muita coisa mudou de lá para cá. Veja o caso da Secretária de Cultura, a atriz Regina Duarte, por exemplo. Depois de três meses de total inoperância, sistematicamente sabotada por setores ideológicos dentro do próprio governo, todo mundo jurava de pé juntos que sua queda era questão de tempo. Até mesmo o caricato Dante Mantovani, ex-presidente da Funarte demitido no primeiro dia de Regina como secretária, havia sido misteriosamente reconduzido ao cargo sem o conhecimento da namoradinha do Brasil.

Lá em Brasília, Bolsonaro lidava com as acusações do ex-ministro e garoto-propaganda Sérgio Moro enquanto se esforçava para disfarçar suas intenções em relação à PF do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, o número de mortes diárias da Covid-19 continuava sua escalada a novos recordes. Nesse interim, seus níveis de aprovação caíram 4 pontos e o Brasil se perguntava: só quatro pontos!?

Em São Paulo, a rede de notícias CNN Brasil continuava a luta contra a sua imagem de chapa-branca. Uma tarefa ingrata para uma empresa de comunicação que contrata Caio Copolla como debatedor/comentarista/especialista/generalista.

Do Rio de Janeiro, Maitê Proença amargava o ostracismo social imposto pela classe artística aos bolsonaristas-light, aqueles que elegeram o governo por causa do Paulo Guedes, ufanismo delirante e outas alegorias que mascaram desejos íntimos higienistas. 

Aí Bolsonaro chamou Regina pra conversar. 

Misteriosamente, Dante Mantovani teve sua re-nomeação re-cancelada. Quase que por mágica. 

Quase que por mágica também foi o casual encontro de Regina com o jovem jornalista da CNN Brasil Daniel Adjuto. Dizem que foi dentro de um avião. A secretária "foi com a cara dele" e marcou uma entrevista exclusiva ao vivo. 

Durante o tête-à-tête, Regina comportou-se de forma, digamos, peculiar. Defendeu ditadura, tortura e endossou o discurso do presidente: morte faz parte. Quem tá vivo que aproveite. Uma ótima filosofia para quem é skatista. Para quem é governo, talvez nem tanto.

Os apresentadores Reinaldo Gottino e Daniela Lima fizeram uma pressãozinha sobre a Secretária, mas nada grave. Do nada, surgiu um vídeo de Maitê Proença. Praticamente uma Maitê Ex Machina. Um depoimento com cara de monólogo de video-book de ator principiante. Maitê praticamente declama questionando o governo, a resposta à pandemia para a classe artística, enfim, opondo-se de forma contundente à Regina e ao governo. 

Rapaz, a Regina agiu como se estivesse indignada, insultada, injustiçada. Protestou, recusou-se a acompanhar o monólogo da Maitê. Exigiu que a entrevista fosse encerrada. O rebu todo bombou nas redes e, pra variar, derrubou o assunto da coluna que eu já tinha preparado para esta semana. Era sobre algo menos importante. Nem lembro mais. Acho que tinha relação com o número de mortos da Covid. Sabe como é. Tenho um cemitério nas costas.

A julgar pelas reações, a ópera bufa da Regina foi um sucesso de público e crítica. Quero dizer, público-alvo e crítica ideológica. A secretária saiu ovacionada. Antigos detratores como Olavo de Carvalho, aplaudiram de pé. Os generais, também. Em 40 mintuos, as duas vertentes do governo que brigavam para derrubá-la (olavistas e militares) agora lhe entregavam flores. Até segunda ordem, Regina deixa de ser uma esquerdista infiltrada para ser bolsonarista raiz. 

Para a CNN Brasil, o evento também foi um sucesso, mas ao contrário. #CNNLixo bombou nos trending topics da direita bovina. Jornalistas de outras empresas aplaudiram a independência editorial fresquinha que a emissora acabou de tirar da gaveta. E mesmo Maitê foi louvada pela coragem de desafiar publicamente a colega de pensão militar. Mas o maior beneficiado foi o presidente, mesmo. Ninguém mais lembra do super ministro que "caiu atirando". Só da secretária que louvou a ditadura cantando "Salve a seleção". Que espetáculo, senhores. Que espetáculo.


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