Semana On

Quinta-Feira 06.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Brasil

IBGE mostra abismo maior entre ricos e pobres. Desigualdade cresce e assistência cai

Brasileiros cortaram gastos e pretendem consumir menos no pós-pandemia, aponta pesquisa

Postado em 07 de Maio de 2020 - RBA, Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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Dados sobre o rendimento referentes a 2019, publicados no último dia 6 pelo IBGE, mostram aumento da diferença entre os ganham mais e menos no país, além do crescimento da desigualdade, medida pelo índice de Gini. Segundo o instituto, no ano passado o 1% da população com rendimento maior recebia, em média, R$ 28.659 mensais, enquanto a metade da população com o menor rendimento ganhava R$ 850. Diferença de 33,7 vezes.

Por sua vez, o índice de Gini do rendimento médio manteve-se no maior nível da série, em 0,509. Segundo o IBGE, houve tendência de redução do indicador de 2012 a 2015, quando chegou a 0,494 – quanto mais próximo de zero, menor a desigualdade. Mas o índice voltou a subir a partir de 2016.

Entre as regiões, Sul e Centro-Oeste apresentaram os menores índices: 0,451 e 0,485, respectivamente. O maior foi registrado no Nordeste (0,531). Ficou em 0,504 no Norte e no Sudeste.

A massa de rendimento mensal foi estimada em R$ 213,4 bilhões. Desse total, os 10% com menor rendimento ficaram com 0,8%. E os 10% com maior rendimento acumularam 42,9%.

O rendimento médio real, considerando todas as fontes de renda, ficou estável, estimado em R$ 2.244. Variou de R$ 1.510 (Nordeste) a R$ 2.645 (Sudeste).

A pesquisa mostra, mais uma vez, as diferenças entre os ganhos dos trabalhadores brancos (R$ 2.999), pardos (R$ 1.719) e pretos (R$ 1.673), conforme a classificação do instituto. E também no recorte por gênero: o rendimento dos homens (R$ 2.555) é 28,7% maior que o das mulheres (R$ 1.985).

Diante desse quadro, o percentual de domicílios atendidos pelo programa Bolsa Família caiu de 13,7%, em 2018, para 13,5%. Em 2012, eram 15,9%.

Perda total ou em parte da renda mensal já atingiu 40% dos brasileiros

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada na quinta-feira (7), mostra que a perda do poder de compra já atingiu quatro em cada dez brasileiros desde o início da pandemia. Do total de entrevistados, 23% perderam totalmente a renda e 17% tiveram redução no ganho mensal, atingindo o percentual de 40%.

Quase metade dos trabalhadores (48%) tem medo grande de perder o emprego. Somado ao percentual daqueles que têm medo médio (19%) ou pequeno (10%), o índice chega a 77% de pessoas que estão no mercado de trabalho e têm medo de perder o emprego. De modo geral, nove em cada dez entrevistados consideram grandes os impactos da pandemia de coronavírus na economia brasileira.

A pesquisa mostra também que o impacto na renda e o medo do desemprego levaram 77% dos consumidores a reduzir, durante o período de isolamento social, o consumo de pelo menos um de 15 produtos testados. Ou seja, de cada quatro brasileiros, três reduziram seus gastos. Apenas 23% dos entrevistados não reduziram em nada suas compras, na comparação com o hábito anterior ao período da pandemia.

Questionada sobre como pretende se comportar no futuro, a maioria dos brasileiros planeja manter no período pós-pandemia o nível de consumo adotado durante o isolamento, sendo que os percentuais variam de 50% a 72% dos entrevistados, dependendo do produto. Essa tendência, segundo a CNI, pode indicar que as pessoas não estão dispostas a retomar o mesmo patamar de compras que tinham antes.

Apenas 1% dos entrevistados respondeu que vai aumentar o consumo de todos os 15 itens testados pela pesquisa após o fim do isolamento social. Para 46%, a pretensão é aumentar o consumo de até cinco produtos; 8% vão aumentar o consumo de seis a dez produtos; e 2% de 11 a 14 produtos. Para 44% dos entrevistados, não haverá aumento no consumo de nenhum dos itens.

Isolamento social

Os dados revelam que a população brasileira continua favorável ao isolamento social (86%), apesar das possíveis perdas econômicas, e quase todo mundo (93%) mudou sua rotina durante o período de isolamento, em diferentes graus.

No cenário pós-pandemia, três em cada dez brasileiros falam em voltar a uma rotina igual à que tinham antes. Em relação ao retorno para o trabalho depois de terminado o isolamento social, 43% dos trabalhadores formais e informais afirmaram que se sentem seguros, enquanto 39% se dizem mais ou menos seguros e 18%, inseguros.

“As atenções dos governos, das empresas e da sociedade devem estar voltadas, prioritariamente, para preservar vidas. Entretanto, é crucial que nos preocupemos também com a sobrevivência das empresas e com a manutenção dos empregos. É preciso estabelecer uma estratégia consistente para que, no momento oportuno, seja possível promover uma retomada segura e gradativa das atividades empresariais”, disse o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade.

A maior parte dos entrevistados (96%) considera importante que as empresas adotem medidas de segurança, como a distribuição de máscaras e a adoção de uma distância mínima entre os colaboradores. Para 82% dos trabalhadores, essas medidas serão eficientes para proteger os empregados.

Dívidas

Um dado apontado pela pesquisa e considerado preocupante pela CNI é o endividamento, que atinge mais da metade da população (53%). O percentual é a soma dos 38% que já estavam endividados antes da pandemia e os 15% que contraíram dívidas nos últimos 40 dias, período que coincide com o começo do isolamento social.

Entre aqueles que têm dívida, 40% afirmam que já estão com algum pagamento em atraso em alguma dessas dívidas. A maioria dos endividados em atraso (57%) passou a atrasar suas parcelas nos últimos 40 dias, ou seja, período que coincide com o isolamento social.

O levantamento, realizado pelo Instituto FSB Pesquisa, contou com 2.005 entrevistados, a partir de 16 anos, de todas as unidades da Federação, entre os dias 2 e 4 de maio e tem margem de erro de dois pontos percentuais.

Bolsonaro passa a perna em Guedes

Durou menos de dez dias o vale-gás que Jair Bolsonaro concedeu ao seu Posto Ipiranga. "O homem que decide economia no Brasil é um só, e chama-se Paulo Guedes", dissera o presidente em 27 de abril. Era lorota.

Bolsonaro passou a perna em Guedes. A rasteira foi consumada na votação do projeto que socorre estados e municípios com R$ 60 bilhões da União para compensar perdas de arrecadação tributária que a crise do coronavírus impõe.

Guedes negociara com os senadores uma contrapartida. Em troca da ajuda, estados e municípios teriam de congelar os reajustes dos servidores até o final de 2021. Os senadores excluíram do congelamento os profissionais da saúde, que molham o jaleco no combate ao vírus.

Na Câmara, espremidos por corporações, os deputados ampliaram o rol das exceções. Além de médicos e enfermeiros, livraram-se do congelamento salarial de policiais militares a policiais legislativos; de policiais rodoviários a membros das Forças Armadas; de policiais federais a bombeiros; de assistentes sociais a...

Em contato com o deputado Major Vitor Hugo, líder do governo na Câmara, Bolsonaro avalizou a pernada em Guedes. Antes da rasteira, a pasta da Economia estimava que o envio das folhas federais, estaduais e municiais para o freezer resultaria numa economia de R$ 130 bilhões. Depois do tombo, R$ 43 bilhões.

A posição de Bolsonaro infectou os parlamentares com o vírus da generosidade. Vitor Hugo, o líder do Planalto, deu à jogada uma transparência de cristal: "Deste plenário, eu liguei para o presidente da República e me certifiquei de que essa era a melhor solução."

O deputado prosseguiu: "O presidente, dez horas da noite de ontem, falou: 'Vitor Hugo, faça dessa maneira e vamos acompanhar para privilegiar esses profissionais que estão efetivamente na ponta da linha. E assim aconteceu (...)."

O deputado arrematou: "...Foi uma determinação do presidente da República, cumprida pelo líder do governo na Câmara, uma vez que eu sou líder do governo e não líder de qualquer ministério."

Devolvido ao Senado, o projeto foi referendado por unanimidade. Como a porteira já estava aberta, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, empurrou os professores para dentro da lista de exceções ao congelamento.

Bolsonaro é um presidente que desconfia da própria alma. Guedes vai acabar percebendo que não convém confiar em quem não confia em ninguém. Para apressar o processo, o ministro talvez devesse levar Bob Dylan à vitrola: "Se você precisa de alguém para confiar, confie em você mesmo."


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