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Quarta-Feira 23.set.2020

Ano IX - Nº 411

Artigo da semana

Após espancar a República, Bolsonaro quer convencer que ele é a vítima

Desde que assumiu a Presidência, presidente tenta dobrar as instituições brasileiras em nome de vantagens para si e seus familiares

Postado em 06 de Maio de 2020 - Leonardo Sakamoto

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É um caso clássico do agressor que quer convencer que é a vítima.

Desde que assumiu a Presidência da República, Jair Bolsonaro tenta dobrar as instituições brasileiras em nome de vantagens para si e seus familiares - do Coaf à Receita Federal, da Procuradoria-Geral da República à Polícia Federal. Ataca o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal - incitando seguidores que, depois, ameaçam ministros e parlamentares de morte e exigem poderes ditatoriais para o Palácio do Planalto. Coloca em marcha uma agenda que cassa direitos e promove a violência, seja através de decretos que liberam armas, seja mandando calar fiscais ambientais que cumprem as leis.

Defende, em um cálculo eleitoral torto, as condições para que o coronavírus se espalhe rapidamente junto à população, jogando o rastro de mortos resultante desse comportamento nas costas de governadores e prefeitos. E, depois de tudo isso, insinua que são as instituições - que, de forma insuficiente, vêm impondo freios aos ímpetos autoritários presidenciais - é que estão agindo de forma golpista.

Em resposta a um de seus fãs que, na manhã do último dia 2, na porta do Palácio do Alvorada, criticou o STF exatamente por cumprir sua missão, disse o presidente: "Ninguém vai fazer nada ao arrepio da Constituição, fiquem tranquilos. Ninguém vai querer dar um golpe em cima de mim, não, podem ficar tranquilos". Não corou, nem piscou na insinuação.

Bolsonaro, que vem governando "ao arrepio da Constituição", tenta projetar naqueles que limitam os danos que ele causa seu próprio comportamento.

Bolsonaristas, reais e robôs, vêm bombando, desde esta sexta, hashtags como "Golpe de Estado" e "Golpe do STF" no Twitter. De acordo com análises de grupo de pesquisa que avaliam o debate público nas redes sociais, o Gabinete do Ódio, que serve ao presidente da República no ataque a seus adversários, está participando ativamente desse esforço.

Democracias não morrem apenas com golpes militares violentos, como o sofrido pelo país em 31 de março de 1964. Elas podem ser assassinadas lentamente, através de uma violência em prestações, que corrói as instituições que garantem o funcionamento da República.

Há coisas, inclusive, que vão acontecendo sem que a maioria das pessoas percebam. Um dos pontos da Medida Provisória 927, editada por Bolsonaro, sob a justificativa de proteger empregos durante a pandemia, dificultava que trabalhadores que contraíssem coronavírus apontassem que aquilo foi acidente de trabalho. O STF derrubou a proposta. Ou seja, empregadores que atenderem ao presidente e obrigarem seus funcionários a voltarem ao trabalho mesmo em quarentena não terão moleza caso alguém fique doente.

Bolsonaro vem comprando parte dos partidos do centrão, com o velho tomaladacá de cargos, a fim de garantir que o Congresso seja amigável feito um poodle. Com o Supremo, é mais difícil. Ele vai poder apontar o substituto do ministro Celso de Mello, um dos mais resistentes às loucuras presidenciais, que se aposenta em novembro, e o substituto de Marco Aurélio Mello, no ano que vem. Mas, a menos que se reeleja, é só.

Vendo o presidente dar de ombros para a razão, a população vai copiando. E passa a descumprir leis, regras e normas porque percebe que não valem muita coisa mesmo. No caso mais urgente, ao seguir as orientações de Bolsonaro, ignorando quarentenas, saindo de casa mesmo quando não há necessidade, contaminam e se deixam contaminar.

E, iniciado, o processo de derretimento das instituições e do respeito da população a elas não pode ser freado do dia para a noite. Até porque um governo autoritário precisa criar inimigos e enfrentá-los para sobreviver.

A eleição em 2018 trouxe uma figura antidemocrática através do voto de uma parte de uma população cansada do clima de "vale tudo" e de "ninguém é de ninguém". O mais irônico é que Bolsonaro não está cometendo um estelionato eleitoral. Ele prometeu destruir o país para reconstruí-lo em outras bases - à sua imagem e semelhança. E fazer com que o país voltasse 50 anos em quatro. E de quatro.

O último Datafolha apontou 33% de ótimo e bom de avaliação do presidente. Como ele segue estável, apesar de tudo e de todos, continua se sentindo livre para golpear a República. E, depois, com a cara mais lavada, reclamar que é ele quem está sofrendo um golpe. E vamos caminhando assim, acreditando que está tudo funcionando normalmente.

Feito o sapo, que cozido lentamente, morreu achando que estava em um spa.

Leonardo Sakamoto - Jornalista e cientista social


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