Semana On

Domingo 09.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Poder

Sergio Moro afirma que apresentará ao STF provas contra Bolsonaro

56% dizem que ex-ministro deve ser candidato a presidente em 2022

Postado em 01 de Maio de 2020 - Policarpo Junior, Laryssa Borges (Veja), Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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Quando Sergio Moro decretou as primeiras prisões da Operação Lava-­Jato, em 2014, ninguém imaginava que começaria ali uma revolução de consequências históricas para a política, a economia e o combate à corrupção no Brasil. Em quatro anos, as investigações revelaram a existência de uma monumental estrutura que tinha como membros ativos as maiores empreiteiras do país, altos dirigentes de empresas estatais e políticos de todos os quilates — de deputados a presidentes da República. Todos se nutrindo da mesma fonte de um esquema que, durante anos, desviou mais de 40 bilhões de reais dos cofres públicos, dinheiro convertido em financiamento de campanhas eleitorais e propina.

O caso fulminou biografias, quebrou empresas, arrasou partidos políticos e desmascarou muita gente que se dizia honesta. A histórica impunidade dos poderosos levou uma surpreendente rasteira — e abriu caminho para que um outsider chegasse à Presidência da República. Com a eleição de Jair Bolsonaro e a nomeação de Sergio Moro para o Ministério da Justiça, muitos apostaram que a corrupção sistêmica sofreria o golpe de misericórdia no país — uma tremenda ilusão, segundo o próprio Moro.

“O combate à corrupção não é prioridade do governo”, revela o agora ex-­ministro da Justiça, que foi descobrindo aos poucos que embarcara numa fria. Ele estava em casa na madrugada da sexta 24 quando soube que o diretor-geral da Polícia Federal fora demitido pelo presidente. Mas o episódio foi a gota d’água de uma relação tumultuada. Havia tempo o presidente não escondia a intenção de colocar no cargo alguém de sua estrita confiança.

Bolsonaro frequentemente reclamava da falta de informações, em especial sobre inquéritos que tinham como investigados amigos, correligionários e parentes dele. Moro classificou a decisão do presidente de pôr um parceiro no comando da PF de uma manobra para finalmente ter acesso a dados sigilosos, deu a isso o nome de interferência política e, na sequência, pediu demissão. Bolsonaro, por sua vez, disse que a nomeação do diretor da PF é de sua competência e que as acusações de Moro não eram verdadeiras. O Supremo Tribunal Federal mandou abrir um inquérito para apurar suspeitas de crime.

Em entrevista exclusiva à revista Veja, Moro revelou que não vai admitir ser chamado de mentiroso e que apresentará à Justiça, assim que for instado a fazê-lo, as provas que mostram que o presidente tentou, sim, interferir indevidamente na Polícia Federal. Um pouco abatido, o ex-ministro também se disse desconfortável no papel que o destino lhe reservou: “Nunca foi minha intenção ser algoz do presidente”. Desde que deixou o ministério, ele passou a ser hostilizado brutalmente pelas redes bolsonaristas. “Traidor” foi o adjetivo mais brando que recebeu. Mas o fato é que Bolsonaro nunca confiou em Moro. Sempre viu nele um potencial adversário, alguém que no futuro poderia ameaçar seu projeto de poder. Na entrevista, o ex-ministro, no entanto, garante que a política não está em seus planos — ao menos por enquanto. Na quarta-feira 29, durante a conversa com VEJA, Moro recebeu um alerta de mensagem no telefone. Ele colocou os óculos, leu e franziu a testa. “O que foi, ministro?” “O presidente da República anunciou que vai divulgar um ‘vídeo-bomba’ contra mim.” “E o que o senhor acha que é?”, perguntamos. Moro respirou fundo, ameaçou falar alguma coisa, mas se conteve. A guerra está só começando. Acompanhe nas próximas páginas os principais trechos desta conversa.

O ex-ministro Sergio Moro lembrou que aceitou o cargo de titular da Justiça diante do compromisso assumido por Bolsonaro com o combate à corrupção. Aos poucos, porém, foi percebendo que esse discurso não encontrava sustentação na prática do governo — e ficou bastante incomodado quando viu o presidente se aproximar de políticos suspeitos:

“Sinais de que o combate à corrupção não é prioridade do governo foram surgindo no decorrer da gestão. Começou com a transferência do Coaf para o Ministério da Economia. O governo não se movimentou para impedir a mudança. Depois, veio o projeto anticrime. O Ministério da Justiça trabalhou muito para que essa lei fosse aprovada, mas ela sofreu algumas modificações no Congresso que impactavam a capacidade das instituições de enfrentar a corrupção. Recordo que praticamente implorei ao presidente que vetasse a figura do juiz de garantias, mas não fui atendido. É bom ressaltar que o Executivo nunca negociou cargos em troca de apoio, porém mais recentemente observei uma aproximação do governo com alguns políticos com histórico não tão positivo. E, por último, teve esse episódio da demissão do diretor da Polícia Federal sem o meu conhecimento. Foi a gota d’água”.

Bolsonaro vira um conto do vigário em que Moro caiu

Na forma, o desembarque de Sergio Moro foi a conversão de um ato administrativo —o pedido de demissão— em espetáculo. No conteúdo, Moro se expressou como um navio que abandona os ratos. Agora, chamado de mentiroso por Jair Bolsonaro e torpedeado pela milícia bolsonarista nas redes sociais, o ex-juiz da Lava Jato soa como se tivesse potencial para levar o governo a pique.

"As provas serão apresentadas no momento oportuno, quando a Justiça solicitar disse. Moro empilhou evidências do descompromisso de Bolsonaro com o esforço anticorrupção: o esvaziamento do Coaf, a lipoaspiração do projeto anticrime, a sanção do juiz de garantias, o namoro com prontuários do centrão e, por último, a demissão do chefe da Polícia Federal. "Foi a gota d'água", afirmou.

Analisando-se a lista de Moro, gota d'água vira eufemismo para gota ácida. Difícil compreender como um magistrado de mostruário, com 22 anos de janela e uma Lava Jato na biografia, tenha demorado um ano, quatro meses e inúmeras gotas tóxicas para perceber que Jair não era aquele Bolsonaro que se vendera na campanha como uma novidade com 28 anos de vida parlamentar.

A demora para a caída da ficha leva Moro a tratar Bolsonaro como uma espécie de conto do vigário em que ele caiu. O figurino de tolo não orna com a imagem do personagem que encarcerou a fina flor da oligarquia política e econômica do país. O ex-ministro disse que nunca teve a intenção "ser algoz do presidente ou prejudicar o governo."

Suprema ironia: pela primeira vez em sua história, Moro busca a condenação de alguém para inocentar a si próprio. É como se pleiteasse, com sua delação, o perdão por ter cometido o crime da ingenuidade. Algo que, para um juiz, mereceria a pena do vexame perpétuo.

Para 56%, Moro deve ser candidato ao Planalto em 2022

A saída bombástica de Sergio Moro do governo de Jair Bolsonaro liberou o caminho do ex-ministro na corrida presidencial de 2022. Sua demissão antecipou o debate eleitoral para os brasileiros, como mostra levantamento nacional do Instituto Paraná Pesquisas.

O instituto ouviu 2.650 brasileiros espalhados pelas 27 unidades da federação. Fez uma pergunta direta: “Sergio Moro deve ser candidato a presidente em 2022?”

Para 56,3% dos entrevistados, Moro deve, sim, disputar o Planalto. Já 36,6% dos entrevistados – provavelmente a mistura de petistas e bolsonaristas – disseram que ele não deveria entrar na política. 7,1% não opinaram.

O instituto também perguntou se Bolsonaro sofre prejuízos políticos com a saída de Moro do governo. Os mesmos 56% responderam que o presidente “perde muito” com a saída do ministro contra 22% que responderam que ele “perde pouco” e 18,6%, que Bolsonaro “não perde nada”. 3% não opinaram.


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