Semana On

Sábado 08.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Brasil

Sem serem testadas para covid-19, equipes que atendem indígenas temem tragédia

Aumento da contaminação entre indígenas por garimpo ilegal preocupa ativistas

Postado em 30 de Abril de 2020 - João Soares (DW), Erick Gimenes (Brasil de Fato) – Edição Semana On

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As equipes médicas vinculadas à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) que atuam nas aldeias não estão sendo testadas clinicamente para o novo coronavírus. Alguns Distritos de Saúde Indígena (DSEIs) receberam testes rápidos – que não oferecem a precisão necessária para detectar todos os casos assintomáticos. Profissionais que atuam na linha de frente da saúde indígena relataram terem medo de transmitir o vírus aos indígenas e provocar uma tragédia.

O quadro é especialmente preocupante entre os povos de recente contato, que ainda viviam isolados da sociedade até pouco tempo atrás. Por não terem sido expostos a "doenças de branco", como a gripe, seus corpos não possuem memória imunológica e têm grande dificuldade para responder a uma infecção viral com efeitos tão graves como os decorrentes da covid-19, a doença respiratória causada pelo novo coronavírus.

Ante essa vulnerabilidade, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou, neste mês, que a Sesai se estruture para realizar testes clínicos, do tipo PCR, antes da entrada dos profissionais de saúde em áreas indígenas. Em resposta ao MPF, a secretaria disse não ter capacidade de processar kits de exames laboratoriais algo que só é feito pelos laboratórios de referência do Sistema Único de Saúde (SUS).

O procurador federal Gustavo Kenner (MPF-PA), que assina a recomendação, admite dificuldades logísticas para a realização dos testes clínicos. No Pará, estado onde atua, somente a capital, Belém, dispõe de laboratório para processamento. Apesar das limitações, Kenner defende a implementação de estruturas que possibilitem, ao menos, a coleta dos exames nos locais atendidos pelos DSEIs.

"Isso precisa ser garantido, inclusive para evitar que os indígenas precisem se deslocar das aldeias até as cidades quando precisarem ser testados, o que aumenta o risco de exposição", afirma o procurador. "O teste rápido é um grande problema hoje. A testagem negativa ainda tem muita falha. Sendo assim, uma pessoa infectada pode ser liberada para entrar na aldeia por um resultado falso."

Procurada pela reportagem para comentar a recomendação do MPF, a Sesai limitou-se a afirmar que enviou 10.380 unidades de testes rápidos para covid-19 aos 34 DSEIs. A Secretaria informou que a prioridade é testar os profissionais que vão entrar em áreas indígenas e que isso tem sido feito à medida que as equipes são destacadas para atuar nas aldeias.

Faltam testes rápidos em diversos DSEIs da região Norte. Mesmo assim, as equipes continuavam a entrar nas aldeias. Há locais que receberam os testes, mas pararam de usar, por constatarem o risco de falso diagnóstico. Profissionais denunciam, ainda, a ausência de planos de contingência para a pandemia.

Casos entre indígenas

De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pela Sesai, às 15h do último dia 28, havia 92 casos confirmados de infecção pela covid-19 entre indígenas. A Secretaria contabiliza, ainda, 26 casos suspeitos e outros 54 de cura clínica.

O estado do Amazonas concentra quase a totalidade dos casos. Manaus, que vive colapso no sistema de saúde, era o principal foco de contaminação entre indígenas até o fim da semana passada, quando houve um aumento vertiginoso dos casos na região do Alto Solimões, onde há 42 casos confirmados, quase metade do total apurado pela Sesai entre indígenas de todo o país.

Um almoço de confraternização na casa de um indígena da etnia kokama levou à contaminação de outros 31 moradores da Aldeia São José, no município de Santo Antonio do Içá, o que impulsionou a escalada de casos no Alto Solimões. A contaminação de uma agente de saúde na comunidade, no final de março, representou o primeiro caso de coronavírus entre indígenas no Brasil.

Acredita-se que ela tenha sido infectada por um médico do DSEI que atende à região, diagnosticado com a doença após retornar de férias. A rotatividade dos profissionais de saúde indígena nas aldeias é o principal fator de preocupação, devido à dificuldade de assegurar que não tenham contato com a doença no período de folga.

A escala dos médicos é de 15 dias nas aldeias e outros 15 de descanso. Os profissionais retornam para suas casas no período de folga, sendo que muitos vivem em municípios distantes dos locais de atuação, o que aumenta a exposição ao vírus. No início da pandemia, a Sesai determinou uma ampliação do período em área para 30 dias, a fim de reduzir os movimentos de entrada e saída das aldeias. Porém, devido à falta de estrutura em muitas delas, os profissionais conseguiram na Justiça o retorno à escala original.

O médico sanitarista Douglas Rodrigues, que atua no Parque Indígena do Xingu há mais de três décadas, ressalta as dificuldades do subsistema de atenção à saúde indígena para garantir a proteção dos profissionais no período fora da aldeia. "A quarentena dos profissionais de saúde indígena é ainda mais importante que a testagem. Mas como prender uma pessoa por sete ou 14 dias, considerando que há deficiência de equipe? E mais: vai fazer quarentena onde?", questiona.

Por ficarem imersos na aldeia durante o período de atendimento, os profissionais que atuam nas aldeias têm maior ansiedade para fazer atividades externas quando retornam às suas casas, explica um médico que trabalha junto a comunidades indígenas do Pará e preferiu não ser identificado.

"Os DSEIs recomendaram 14 dias em casa antes de entrar na comunidade. Depois de passar duas semanas na aldeia, é difícil imaginar que a pessoa não vá sair um dia para ir ao supermercado ou visitar um parente. Tem ainda o convívio com a própria família em casa, outro risco de transmissão", comenta.

Considerando as limitações de testagem e garantia de quarentena dos profissionais, a médica Marina Corradi, que acompanha o trabalho de 16 supervisores do programa Mais Médicos no Pará e Amapá, questiona a necessidade de manter o atendimento regular nas aldeias durante a pandemia.

"A entrada do homem branco em comunidade indígena levará, em algum momento, ao coronavírus. É possível manter contato por rádio ou internet com o cacique ou alguma referência da aldeia para nos acionar caso surgisse um caso suspeito. Nessa situação, seria possível fazer um atendimento pontual", opina.

Garimpo ilegal preocupa ativistas

O vaivém de invasores em terras indígenas tem exposto aldeias ao novo coronavírus e provocado uma onda de contaminações e mortes, conforme dados no Acampamento Terra Livre (ATL).

O evento que discute os grandes desafios do momento para indígenas e indigenistas debateu a vulnerabilidade e os impactos da chegada da nova doença às comunidades. Veja abaixo o debate completo.

Enquanto as populações indígenas tentam manter o isolamento contra a covid-19, garimpeiros, mineradores e religiosos aproveitam o afrouxamento nas fiscalizações para reforçar o trabalho de destruição, afirmou Sonia Guajajara, coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), organizadora do evento.

“Enquanto a gente está de quarentena, lutando pelos povos indígenas ficarem nos territórios, nós vemos o aumento das invasões. Em um mês, foi um aumento de 29,3% do desmatamento. Isso são dados do Inpe”, relatou.

Sonia reforçou que, caso não sejam tomadas medidas para conter as invasões, a tendência é que haja um novo genocídio entre a população indígena.

“É um período que exige de nós estar com esse olho na pandemia, para evitar ainda maior contaminação – a entrada nos territórios indígenas representa um novo genocídio de nossos povos – e temos que ficar com o outro olho nas outras situações que nunca tiveram respostas, que o Estado brasileiro nunca se comprometeu a atender, que são as invasões, os ataques, os assassinatos”, diz.

O pesquisador Antonio Oviedo, do Instituto Socioambiental, analisou outras epidemias em terras da etnia Yanomami. O pesquisador Antonio Oviedo, do Instituto Socioambiental, analisou outras epidemias em terras da etnia Yanomami. A projeção foi de que cada invasor que entra no território pode provocar outros 1,6 mil casos de uma doença como a covid-19. A análise leva em consideração a atuação de 20 mil garimpeiros em terra yanomami.

“A gente percebe que é uma diferença, em 30 dias, considerando a população de garimpeiros, se pode esperar mais de 1,6 mil casos a partir de um único caso. Ao passo que, com as medidas de restrição, reduzindo em 50% a movimentação da população, você tem apenas dois casos após 30 dias, a partir de um único caso”, explicou.

A professora Marta Azevedo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apresentou estudo em que analisa a vulnerabilidade das terras indígenas levando em conta fatores demográficos e de infraestrutura, como acesso a água, banheiro e proximidade de hospitais com UTI.

Conforme o mapeamento, 13 terras indígenas têm vulnerabilidade considerada crítica e 85 consideradas de vulnerabilidade intensa.

Marta ressaltou que, além do risco sanitário, a covid-19 também põe em risco a riqueza cultural dos povos indígenas, já que os idosos, considerados sábios, são os mais vulneráveis.

“Para as sociedades indígenas, é uma coisa que impacta em termos de reprodução cultural dessa sociedade. Porque os povos indígenas já têm uma porcentagem de idosos menor, por conta de todas as epidemias que sofreram, por conta de todas as guerras. Esses idosos são os sábios, são os mestres. Como se diz no Japão, são os tesouros vivos dos povos indígenas”, comenta.

O pesquisador Andrey Cardoso, ligado à Fundação Oswaldo Cruz, alertou para o fato de que as terras indígenas com maior risco à covid-19 estão próximas a grandes centros urbanos, como Manaus. Ele ainda elencou outra preocupação: “Com a interiorização da epidemia, que a gente está observando, haverá um aumento expressivo de indígenas em situação de alto risco da epidemia imediato”.

Retificação

O pesquisador Antonio Oviedo decidiu retificar por meio da assessoria de imprensa do Instituto Socioambiental, sua fala feita no seminário. Segundo ele, os estudos apresentados ainda não foram validados e foram usados "apenas como exemplo". Por isso, a informação está incorreta e não consta nos estudos concluídos pelo ISA.

Veja a nota na íntegra:

"A informação atribuída ao pesquisador Antonio Oviedo, do Instituto Socioambiental, "A constatação foi de que cada invasor que entra no território pode provocar outros 1,6 mil casos de uma doença como a covid-19" veiculada em https://www.brasildefato.com.br/2020/04/29/cada-invasor-em-terra-indigena-pode-gerar-1-6-mil-casos-da-covid-19-diz-pesquisador, está incorreta e não consta nos estudos concluídos pelo ISA.

O estudo realizado pelo ISA, e apresentado no seminário "vulnerabilidades, impactos e enfrentamento à covid-19 no contexto dos povos indígenas" apresentou resultados sobre a vulnerabilidade das Terras indígenas no Brasil, onde a Terra Indígena Yanomami apresenta um dos níveis mais altos de vulnerabilidade (noota de 0,7 onde quanto mais próximo a 1 é o grau máximo de vulnerabilidade). O estudo considera indicadores de vulnerabilidade social produzidos pela Fiocruz, dados sobre os casos da covid-19 e a estrutura de saúde nos municípios brasileiros. Para a Terra Indígena Yanomami, o estudo conclui que a região onde o território se localiza apresenta o menor número de leitos e maior distância às áreas de atendimento hospitalar. Essas são as informações validadas pelo estudo para a Terra Indígena Yanomami.

Durante o debate entre os palestrantes, foi abordado o tema do desmatamento e garimpo ilegal, e como essas variáveis podem pressionar por uma maior vulnerabilidade dos povos indígenas. Foi mencionado o interesse dos palestrantes para um esforço colaborativo para estudos futuros que devem avaliar a possibilidade de incorporação dessas variáveis de pressão. Porém, esses estudos não existem até o momento. Foi apresentado um gráfico demonstrativo, porém sem resultados validados, apenas como exemplo, sobre como esses estudos podem ser realizados. Durante a apresentação fica claro que são hipóteses a serem testadas em estudos que "queremos fazer no futuro e tentar avaliar coisas como o impacto da disseminação da doença". A nota técnica do estudo apresentado durante o seminário (em anexo) e disponível na plataforma de monitoramento do ISA (https://covid19.socioambiental.org/) não contempla dados quantitativos sobre infecção de garimpeiros ou da população indígena Yanomami e não podem ser tratadas como verdade conforme expressado na matéria em questão."


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