Semana On

Quarta-Feira 27.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Saúde

Isolamento social amplo perde apoio entre brasileiros, mostra Datafolha

Ocupação dos leitos de UTI supera 70% em ao menos seis Estados

Postado em 30 de Abril de 2020 - Carta Capital, Marina Rossi (El País), Rafael Garcia e Renato Grandelle (O Globo), Eduardo Maretti (RBA), Estadão – Edição Semana On

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O isolamento social para conter o coronavírus perdeu apoio de uma parcela significativa da sociedade. Segundo divulgou o Datafolha no último dia 29, a proporção de brasileiros que defendem que as pessoas fora do grupo de risco deveriam sair para trabalhar passou de 37%, no início de abril, para 41% em 17 de abril e agora para 46%. Já os que apoiam o isolamento amplo, inclusive de quem está fora dos grupos de risco, passaram de 60% no início de abril para 56% no dia 17 e, agora, para 52%.

Segundo o instituto, com a margem de erro de três pontos percentuais, houve um empate técnico entre as pessoas que apoiam o isolamento total e aquelas que defendem um afastamento parcial, apenas do grupo de risco. Essa é a medida defendida pelo presidente Jair Bolsonaro. Desde o início da pandemia, o presidente vem travando uma disputa com a ciência. Ele chegou a entrar em conflito com seu ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que foi demitido do cargo por defender o isolamento. Por isso, o apoio à volta ao trabalho de quem não está em grupo de risco é consideravelmente maior entre os que avaliam o governo Bolsonaro como ótimo/bom (67%) do que entre quem o considera ruim/péssimo (26%).

A tendência de registro de novos casos e mortes da Covid-19 parece estar seguindo à risca no Brasil a estimativa de cientistas de que as oscilações no nível de adesão à quarentena demoram duas semanas a serem sentidas. Quando a mobilidade de pessoas atingiu o mínimo da tendência no país, em 24 de março, a epidemia esboçou desaceleração 15 dias depois. Naquele dia, a procura por transporte público caiu 69% em relação a janeiro, segundo dados do Google com base em celulares rastreados.

Mas o isolamento social daqueles que podem ficar em casa, feito para reduzir o contato entre as pessoas (inclusive as não infectadas) e desacelerar a disseminação da doença, começou a se reduzir em força depois disso, e perdeu um quinto da adesão até 17 de abril.

Na quinta-feira, 30 de abril, 13 dias depois desse relaxamento, o número de casos engatou tendência de alta pelo quarto dia seguido, com 7.218 novos casos notificados num único dia, o recorde até agora, além de 435 mortes. O país tem agora 85.380 casos confirmados e 5.901 óbitos.

O atraso de duas semanas entre ação e reação é fruto do ciclo de transmissão do vírus, que leva em conta o tempo de a pessoa se contaminar, transmitir o vírus a outra, e a nova pessoa infectada apresentar sintomas.

Nos dados do Google para o Brasil, em 10 de abril, sexta-feira santa, os brasileiros ficaram mais em casa e bateram o recorde de adesão ao isolamento. Duas semanas depois, em 26 de abril, o número diário de registros da doença também caiu, como em coreografia.

“Pelo que estamos vendo, até agora todo empenho para achatar a curva praticamente foi inútil”, afirmou, em declaração que contraria o consenso científico.

Evidências

O economista Hakan Yilmazkuday, da Universidade Internacional da Flórida, realizou um estudo olhando para dados de mobilidade do Google em 127 países, e viu uma forte correlação.

“Os resultados sugerem que um aumento de 1% na permanência semanal em residências leva a cerca de 50% menos casos semanais de Covid-19 e cerca de 4% menos mortes pela doença”, escreveu em estudo preliminar no portal SSRN. “Um decréscimo de 1% em visitas a terminais viários leva a cerca de 22% menos casos de Covid-19 e 2% menos mortes.”

Para quase todos os parâmetros, os brasileiros parecem ter respeitado mais suas quarentenas até a última semana de março. Mas, desde então, à exceção da sexta santa, a população parece estar aos poucos comprometendo o distanciamento social. O relaxamento coincide com o período em que Bolsonaro acirrou a queda de braço com governadores pedindo retomada da economia.

O ministro da Saúde, Nelson Teich, disse que a diretriz do governo de flexibilizar o distanciamento social no país está pronta. Ele afirmou temer, no entanto, que ela seja alvo de “polarização” e transformada em “ferramenta da discórdia”. Mas reconheceu que há risco de a pandemia se agravar:

“Em relação a um possível número de mortes, hoje a gente está perto de 500 mortes, 400. O número de mil, se estivermos num movimento, num crescimento significativo da pandemia, é um número que é possível acontecer”, afirmou.

O estatístico Benilton Carvalho, da Unicamp, que estuda a dinâmica da Covid-19 no Brasil, enxerga tendência de reversão no comportamento do brasileiro. Apesar de uma boa adesão ao isolamento social até o começo de abril em parâmetros como mobilidade e frequência a lojas e parques, desde o final de março a visita a familiares está aumentando. Por isso, nas últimas semanas, índices de contágio podem ter sido impulsionados dentro de casa.

Transmissão doméstica

“Muitas vezes olhamos para o núcleo familiar e pensamos que estamos protegidos ali, e ignoramos que alguém pode estar manifestando sintomas relacionados à Covid”, afirma Carvalho. “As visitas domiciliares, na verdade, são o primeiro estágio. Aos poucos, a população pode desistir do recolhimento e reconquistar o espaço público”.

Algumas projeções traçadas por especialistas indicam que o pico da pandemia do coronavírus no Brasil pode ocorrer na segunda quinzena de maio. Segundo Carvalho, muitas pessoas que morrerão neste período começaram a ser infectadas já na semana passada.

Flávio Guimarães da Fonseca, virologista da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), defende a análise que correlaciona medidas de isolamento e desaceleração da epidemia:

“Foi comprovado no mundo inteiro que o distanciamento social é absolutamente necessário. Qualquer sociedade que adotar uma flexibilização precisará pagar um preço que pode ser alto demais”, afirmou.

Fonseca reconhece que as pessoas estão “saturadas” de ficar em casa e que há relatos sobre o aumento de casos sobre doenças associadas à depressão.

“Quando alguém pergunta se pode visitar a mãe, digo que tecnicamente não é recomendável, e que não devemos sair do isolamento. Mas não é esta a resposta que as pessoas querem ouvir”, afirma o pesquisador. “Cabe às autoridades balizar a voz dos cientistas e mostrar a importância da adesão ao isolamento social, mas a população tem recebido sinais muito confusos do governo. O coronavírus não pode ser politizado”.

Ocupação dos leitos de UTI supera 70% em ao menos seis Estados

A ocupação dos leitos de UTI para pacientes do coronavírus já é superior a 70% em ao menos seis Estados. A situação é registrada em Espírito Santo, Pará, Ceará, Amazonas, Pernambuco e Rio – nesses dois últimos, a taxa passa de 90%, considerada de saturação por especialistas. Com o avanço da doença, governos correm para levantar hospitais de campanha e ampliar o número de vagas. Médicos e gestores dizem que a pandemia ainda não teve seu pico no Brasil, o que deve elevar a pressão sobre os hospitais. 

Em 40 dias, Pernambuco abriu 348 leitos de UTI para pacientes com a doença, e, segundo a gestão estadual, dez novas vagas têm sido ofertadas por dia, em média. Mesmo assim, na quarta-feira, a taxa de ocupação dos leitos abertos para covid-19 no Estado já era de 96%. 

Secretário da Saúde de Pernambuco, André Longo atribuiu a saturação à falta de isolamento social. “Reconhecemos que a situação dos nossos serviços de saúde é muito difícil, porque as pessoas estão adoecendo ao mesmo tempo. Era um alerta que fazíamos desde o início. A falta de maior isolamento social, na casa dos 70%, tem feito pernambucanos adoecerem, procurarem os serviços de saúde ao mesmo tempo e isso tem levado à sobrecarga.” 

Longo afirma ainda já haver fila por vaga em UTI. De acordo com ele, os “profissionais de saúde estão tendo de tomar opções sobre quem levar primeiro para terapia intensiva”.

Também sobrecarregado, o Rio abriu 287 leitos de UTI específicos para pacientes suspeitos ou confirmados. E quase todos (94,8%) já estão ocupados, segundo a Secretaria da Saúde.  Considerando não só os leitos específicos para coronavírus, mas sim toda a rede de saúde estadual do Rio, a taxa de ocupação dos leitos de UTI já está em 85%, e vem crescendo rapidamente. Há pouco mais de duas semanas, diz a pasta, a taxa era de 63% e há uma fila de 369 pacientes. O Rio prevê abrir, no início de maio, um hospital de campanha com 400 leitos no Maracanã – 80 de UTI. Outros 1,4 mil devem ser abertos gradualmente. 

Primeiro a ver seu sistema de saúde colapsar e cenário de centenas de enterros em valas coletivas, a Secretaria de Saúde do Amazonas informa não ter dados de leitos de UTI de toda a rede estadual – sintomático em um País que enfrenta larga subnotificação de casos. Em Manaus, 89% dos leitos para covid-19 estão em uso. O governador Wilson Lima (PSC) disse que iria endurecer as regras de isolamento social na tentativa de frear o surto.

Com 87% de ocupação, o Ceará prevê a criação gradativa de 403 novas vagas, conforme a compra de equipamentos e disponibilidade de profissionais. Na região de Fortaleza, o cenário é ainda mais grave: 97%.

Em São Paulo, epicentro da doença no País, o índice de ocupação dos leitos destinados exclusivamente a pacientes da covid-19 é de 68,7% – na região metropolitana, o quadro é pior, com 89% de preenchimento e pacientes serão levados para o interior. Nas últimas semanas, o Estado abriu 1.881 leitos de UTI exclusivos para covid-19 no SUS. Também montou três hospitais de campanha no Pacaembu, no Anhembi e no Complexo do Ibirapuera, que será inaugurado nesta sexta-feira. Juntos, eles somam 2.268 leitos, sendo quase todos de baixa e média complexidade.

Dentro dos Estados, a escalada na procura por leitos também cria desafios logísticos. “Pacientes que precisam de UTI estão sendo encaminhados para municípios de referência e já tem fila de espera”, diz Wilames Freire, presidente do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde. “Eles ficam em leitos clínicos semi-UTI, UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) ou hospitais intermediários até sair a vaga.”

Professor de Gestão em Saúde da Fundação Getulio Vargas (FGV), Walter Cintra Ferreira classifica como “preocupante” o cenário. “Uma UTI com 90% de ocupação significa que está lotada. Quem tem 90% tem fila porque, quando sai um paciente, o leito tem de ser desinfectado e há um tempo para que seja ocupado. É preciso ter seriedade do governo, principalmente o federal. Não é uma situação que se resolve apenas aumentando leitos nem esperando medicamentos milagrosos.”

Um leito de UTI, afirma ele, depende de equipes especializadas e compra de equipamentos, de modo que o foco deveria ser em evitar a propagação da doença e criar alternativas de rápido atendimento dos infectados. “As doenças não são combatidas no hospital, que é o último reduto. Quando chega ao hospital, já está com a batalha meio perdida. Temos de mobilizar a sociedade como um todo para conseguir medidas de contenção da transmissão e ter uma central única de leitos de UTI, públicos ou privados, e uma fila única”, afirma Cintra. A gestão Jair Bolsonaro não tem controle sobre o número de UTIs ocupadas no País. 

Em situações normais, a ocupação de 95% a 100% das UTIs faz parte da rotina de hospitais, diz Gonzalo Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Mas isso deveria mudar na crise. “Trabalhar com ocupação plena dos leitos é normal, porque há rotação; é feito com programação. Na epidemia, nunca se sabe como será o momento seguinte. Estamos na fase ascendente da curva e não chegamos ao pico. Se não cair, será difícil não colapsar o sistema.”

Isolamento social de 75% seria um sonho

O cientista Miguel Nicolelis, coordenador do Comitê Científico do Nordeste, afirmou que o foco de atenção sobre a pandemia de coronavírus no mundo vai ser o Brasil. Ele previu que a situação sanitária pode se tornar catastrófica no país, por falta de coordenação, de apoio do governo federal aos estados e se as recomendações para um rigoroso distanciamento social não forem seguidas o quanto antes.

“Somos o rabeira do G20 em testagem. Vamos ter mais testes, mas não vamos dar conta.” Diante do descaso do governo Bolsonaro, da falta de coordenação, de testes, da baixa taxa de distanciamento social, o neurocientista acredita que o combate à pandemia cabe à sociedade e de cada pessoa em particular. “Quando o distanciamento chega a 75% seria um sonho, você consegue derrotar a coisa e evitar a catástrofe”, disse.

“Na história, momentos como esse são decisivos para as nações”, disse. Nicolelis citou discurso histórico do primeiro-ministro Winston Churchill, durante a 2ª Guerra Mundial, para motivar a Grã-Bretanha na luta contra o nazismo. “Só tenho para oferecer sangue, sofrimento, lágrimas e suor”, declarou então o líder britânico. O Brasil, muito ao contrário, não tem liderança e passa por um caos político em plena pandemia.

“Não temos um Winston Churchill, mas temos a nós mesmos. Se cada um de nós desempenhar o papel que nos cabe para salvar o Brasil (ficando em casa) vamos criar um Churchill coletivo que não comunga com essa necropolítica que despreza a vida”, afirmou. Para ele, não haverá recuperação para os países que desprezarem a pandemia e se as projeções “nefastas” se confirmarem.

“Tem que cair que cair a ficha. É uma guerra só comparável a 1918”, destacou, em referência à gripe espanhola, que matou cerca de 40 milhões de pessoas entre o final da década de 1910 e o início da seguinte.

Inverno preocupa

Niocolelis afirmou estar preocupado com a chegada do inverno e o crescimento de outras endemias, como dengue, convergindo com a pandemia de covid-19. Mesmo ainda não tendo chegado ao pico, segundo ele, a Grande São Paulo tem 85% dos leitos do SUS ocupados e a situação de Manaus é dramática.

Estudos mundiais indicam que a subnotificação de casos hoje é da ordem de 10 vezes o que se divulga, e este seria o caso dos Estados Unidos e do Brasil. Outro número citado por Nicolelis é o de que, nos próximos seis meses, os infectados nos EUA podem chegar a 100 milhões, um terço da população do país.

As perspectivas não são animadoras para o Brasil, considerando a identidade entre os presidentes Bolsonaro e “o presidente de lá (Donald Trump), tão iluminado como o nosso”, ironizou o cientista. “Os países que não resolverem bem vão emergir completamente sucateados, dependentes.”

Ele disse ainda que a taxa de contaminação com que se trabalha hoje é de que uma pessoa está contaminando duas, mas no Brasil esse índice seria 3.


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