Semana On

Terça-Feira 04.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Coluna

O amor nos tempos do Corona – Parte III

Todo o cuidado é pouco durante a pandemia

Postado em 29 de Abril de 2020 - André Lucidi

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O marido estava a 38 dias de quarentena, quando foi à cozinha, abriu a geladeira e reparou que a cerveja havia acabado. Embora ele tivesse feito compras para muitas semanas, justo a cerveja. Poderia ser as coisas diet da companheira, o chuchu, a comida do cachorro.

Bom, com cerveja faltando, e domingo sem encontrar os amigos e futebol, ele pressentiu que iria surtar. Mais uma live de samba pela televisão e as mãos dele ficariam tortas de tanto batucar o ritmo do tamborim na mesa da sala. Pegou a chave do carro e já estava de saída quando foi interpelado na porta de casa pela companheira.

_ Vai aonde saidinho assim...?

_ No mercado, comprar cervejas. Volto já.

A mulher o segurou pelo braço e o fez sentar na mesa da sala.

_Meu bem, você tem que pensar... e se te acontecer algo? Toma, assina isso. Aí diz que, caso você contraia o vírus, e venha a te acontecer algo, eu posso movimentar tuas contas e assumir os bens, em caso de internação.

_ Mas eu vou comprar cerveja!  Ali do outro lado da rua!

_ Meu bem, estamos em tempos de pandemia. Eu tenho que me proteger de todas as formas. Tem muita mulher ficando viúva, porque os maridos deram um pulinho ali do lado. Se um carro te pega atravessando a rua, por exemplo... Se um cachorro de rua te morde. Eu não quero ficar sozinha e passando sufoco.

_Eu não acredito que você vai insistir nisso.

_Vou sim. Não adianta desdenhar e fazer cara de criança abandonada no parquinho. Ou assina, ou eu escondo as chaves. Eu tranquei tudo.

_ Me entrega essa chave...

_ Negativo. Assina ou já era a tua cervejinha.

_ Quero saber quem te deu essa sugestão ....

_Foi minha santa mãezinha, sempre preocupada comigo, diferente de você, que quer me deixar desamparada nesse momento difícil da economia. Tem mais. Aí diz que caso você contraia e venha a passar para mim, eu posso dispor dos bens e transmitir diretamente para ela.

_ Estão conspirando contra mim! Juntas !!

_ Assina e não discute!

O marido andou para um lado e para o outro, relutou, resmungou, mas assinou.

_ Pronto. Deixa eu ir agora.

A mulher, não perdeu a oportunidade. Já que o marido ia sair, o encheu de incumbências. 

_ Aproveita e vai ao hospital, que o primo Gerson foi internado ontem com suspeita de coronavirus. No caminho, passa no mercado e faz umas comprinhas, que a casa ficou desabastecida. Passa também na farmácia, que acabaram os meus absorventes.

_ Absorventes...

_ Sim, estou naqueles dias do mês.

 _ Claro meu bem, não se preocupe.

O marido foi saindo sorridente... mas antes de fechar a porta gritou para mulher

_ Está tudo assinado, volto em 40 anos!  

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