Semana On

Quarta-Feira 27.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Coluna

Covid-19 e Bolsonaro: um caso de amor

A incompetência se esconde na ignorância, armada com patriotismo

Postado em 29 de Abril de 2020 - Rodrigo Amém

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E aí, meu filho? Tá cansado de ficar em casa, né? Quer reabrir o comércio, pintar o cabelo, passear no shopping, né? Nada mais cansativo do que ficar em casa, né? Quando é que isso vai acabar? Por que não isolam só os doentes? Aqui em Pirapora do Sul, não tem nenhum caso de Corona, gente! Deixa eu ir beber com meus amigos!

Deixa te contar um segredinho: sabe quem não quer que o isolamento acabe? Bolsonaro. 

Bolsonaro estava a caminho de mais um ano de pífio quando uma pandemia tirou o dele da reta. O desempenho de Guedes, deixado ao sabor da própria sapiência, fatalemente o reconduziria à iniciativa privada antes do fim do primeiro semestre.  Mas aí um morcego chinês salvou a lavoura dos picaretas brasileiros.

Foi assim: todo mundo sabia que Jair era notoriamente desqualificado para o cargo, concordam? Bem, ele concorda. Ele mesmo afirmou, publicamente, que só sabe matar, não curar.  Além de matador profissional, Bolsonaro também  se orgulha da carreira de paraquedista e de sua expertise em explosivos. Mas eu digresso. 

Diante de tanta inadequação, a grande promessa de campanha de Bolsonaro era a escolha de ministros técnicos. Claro, desde que endossem os palpites do presidente. É como o novo rico que contrata um arquiteto renomado para criar uma mansão mas exige que seja idêntica à loja da Havan. 

O fato é que, no escasso vocabulário do presidente, "resolver" é sinônimo de "destruir". Não é à toa que seu bordão é "tem que acabar com isso aí". Não é capaz de propor soluções que não passem pelo desmantelamento de algo. Uma ótima estratégia quando se é um deputado de baixo clero, sem nenhuma obrigação de solucionar problemas reais. Mas ser presidente é o oposto disso. Ou, pelo menos, deveria ser. 

A pandemia, para este governo, foi mais benção que maldição. Primeiro porque mascarou os parcos resultados da administração. Segundo porque forneceu uma nova leva de bodes expiatórios. De "a doença é uma conspiração chinesa" a "os governadores são os culpados da crise", Bolsonaro ganhou de presente novos antagonistas para atacar, ao invés de governar. A Covid colocou Jair de volta na sua zona de conforto: a beligerância. E ele não tem interesse em abrir mão deste discurso. 

Os países sãos (em todos os sentidos) achataram sua curva com isolamento, sobretudo, testando a população. O Brasil é o país que menos testa pacientes de corona vírus no planeta. Sem testes, é impossível traçar estratégias de relaxamento de isolamento social e abertura econômica. Estamos operando no escuro, condenados a repetir Blumenau a cada dois ou  três meses. Desse jeito, a pandemia só tende a produzir mais vítimas e repetidas quarentenas. 

Não é por acaso que não testamos para Covid-19. A subnotificação de casos é de interesse do governo. Sem informação precisa, a pandemia deixa de ser um problema a ser resolvido e passa a ser uma arma de discurso. Enquanto for politicamente útil, vai ser uma "gripezinha usada para me derrubar, tá ok?". Quando for necessário justificar uma pilha de cadáveres, "é o vírus chinês, é os governadores, não tá no meu colo, tá ok?". Enquanto as UTIs estiverem lotadas e a população estiver em isolamento, não teremos ninguém nas ruas pedindo a cabeça do Jair. Pelo contrário. Fica a impressão que as 200, 300 cabeças de gado no cercadinho do Alvorada são "a opinião pública". Sem foto de multidões nas ruas, o Congresso não se anima a aderir ao impeachment. 

Assim, Bolsonaro ganha tempo para normalizar a ideia de auto golpe, seu único plano de governo, desde sempre. Enquanto isso, o exército faz de conta que não está rachado e o centrão faz de conta que não espera pelo michê de sempre. Todos sentadinhos num barril de pólvora. 

É por isso que você pode esperar sentadinho o fim da crise, amiguinho. O que resolve crises são decisões tomadas por gente competente, municiadas de dados. Já a incompetência do nosso presidente se esconde na ignorância, armada de seu patriotismo chucro.


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