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Sábado 11.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Cultura e Entretenimento

Na quarentena, grupos investem no teatro digital

Nesse cenário de isolamento social, a produtora Marília Toledo e o roteirista Emilio Boechat criaram a websérie 'Home Office', que estreia nesta sexta-feira, 1.º, no YouTube e em outras plataformas digitais

Postado em 28 de Abril de 2020 - Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

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Foram poucos dias de emoção: tão logo estreou, em março, o musical Silvio Santos Vem Aí! fez apenas três apresentações e precisou interromper a temporada, com o fechamento dos teatros como prevenção contra o coronavírus. “Como não conseguimos precisar a volta, decidimos fazer algo para o elenco fazer sem desrespeitar o isolamento social”, comenta a produtora Marília Toledo que, ao lado do também roteirista Emilio Boechat, criou a websérie Home Office, que estreia nesta sexta-feira, 1.º,  no YouTube e em outras plataformas digitais.

Trata-se de uma minissérie de dez episódios semanais, com duração de 5 a 7 minutos cada um. Os atores são responsáveis pela gravação das próprias cenas, seguindo orientação dos diretores. A prática, aliás, já inspirou outras companhias teatrais, como a Dagnus Produções, que já prepara a websérie O Jogo, ou mesmo o grupo teatral americano Round House, que criou a minissérie Homebound, disponível às segundas-feiras – hoje será liberado o segundo episódio (leia texto nesta página).

“Foi a solução que encontramos para manter o grupo unido e animado”, conta Marília. “E o título é uma brincadeira com The Office, mas também é um retrato da forma de produção, ou seja, cada um trabalha em sua casa.” O ponto de partida da trama é uma história que Boechat escreveu há alguns anos, agora adaptada para a internet – e para o momento atual.

Assim, a história acompanha os profissionais de um programa vespertino, Em Casa, exibida pela fictícia TV Tupinambá. Por conta da quarentena, todos os profissionais aguardam em casa as orientações da emissora. É quando a criadora do programa, Rita (vivida por Juliana Bógus Saad), recebe a chamada de vídeo do novo CEO da empresa, Matias Maldonado (Roney Facchini), comunicando a compra da emissora pela Igreja Mundial do Poder N’Ele Investido (ou I.M.P.U.N.I).

Surpresa, ela é encarregada de passar a notícia para o restante da equipe – grupo, aliás, nada homogêneo. O trio de apresentadores, aliás, Evelyn (Giselle Lima), Edgard (Rafael Aragão) e Dora (Bianca Rinaldi), se odeia. O mesmo se pode dizer do restante do staff: os roteiristas Alfredo (Vélson D’Souza) e Everaldo (Adriano Tunes); o produtor do programa Bob (Ivan Parente); o repórter especial Quito Barcellos (Vinícius De Loyola) e a maquiadora Elza (Daniela Cury).

O susto aumenta quando o jovem youtuber Lucas Júnior (Gustavo Daneluz) é contratado.

A partir daí, o clima só piora, pois a maioria acredita que será demitida, pois a grade de programação deverá ser tomada por assuntos religiosos. “Sabemos que é um tema delicado, mas sempre nos interessou tratar a religião pela via cômica, mas mantendo respeito”, observa Marília, que assina série com Boechat e também vários atores, como Vélson, Tunes e Diego Montez que, na trama, interpreta o marqueteiro Dudu Santana. “Uma experiência completamente nova por se tratar de digital”, comenta Montez.

E, por se tratar de um formato novo, que se encaixa nos tempos de incerteza, o aprendizado nasceu a partir dos erros. “Quando recebemos as primeiras cenas gravadas, foi uma loucura pois cada um filmou de uma forma, com interpretação distinta, iluminação variada, ou seja, no conjunto, ficaria algo completamente anárquico”, conta Marília. “Percebemos que era preciso montar uma equipe de produção.”

Como a criatividade sempre se dá bem com algum tipo de estrutura e um pouco de aleatoriedade, o projeto avançou. “Montamos vários grupos no WhatsApp (área criativa, elenco, produção dos episódios), nos quais fazemos a primeira reunião”, explica Adriano Tunes. “Então, marcamos um encontro pelo Skype e mostramos como cada um vai gravar o vídeo em sua casa, o ângulo da câmara e principalmente a forma de interpretação, para se ter uma unidade.”

Os ensaios também acontecem por Skype antes de cada um filmar a própria cena em casa. Por isso, a experiência é única. “É maluco gravar sozinho, sem as réplicas”, conta Ivan Parente. “Achei que não daria certo porque temos de decorar todas as falas para saber como reagir diante da câmera enquanto o outro está falando sem que, de fato, você esteja escutando. Temos de calcular o período em que seu colega está dando a fala dele. Temos de parecer naturais e não caricatos. Quase surtei, mas deu certo.” 

Formado em escola de cinema e dono de uma produtora nos EUA, Vélson D’Souza também assumiu importantes funções técnicas. “Colaboro também na edição que Emilio faz de cada episódio. Também usamos o Skype para trocar ideias e uma webcam, que nos ajuda nos detalhes técnicos”, conta ele, ciente de viver uma experiência nova. “É um formato novo como foram os filmes A Bruxa de Blair e Rua Cloverfield, 10. Não é aquilo, mas é inovador.”

Custos divididos

Os custos da websérie Home Office são assumidos pelo elenco e produtores, que formaram uma cooperativa. “Negociamos patrocínio e, fechado algo, vamos destinar uma parte aos técnicos do nosso musical, Sílvio Santos Vem Aí!, que estão parados”, conta a produtora Marília Toledo.

Situação semelhante à da websérie americana Homebound, criada pelo grupo do Round House Theatre. Dez autores foram convidados para cada um escrever a trajetória de determinados personagens da trama, que trata do isolamento social em Washington.

Os autores são livres para usar suas próprias vozes e ambientar a história onde preferirem, cuidando da continuidade e do desenvolvimento de seu personagem. O progresso da pandemia certamente influenciará o andamento da história, enquanto seu tom será variável como o teor emocional nesses dias de bloqueio.

Como no Brasil, o elenco filma suas cenas em casa. Lá, porém, os atores vivem próximos – em Home Office, o ator Roquildes Júnior, que vive o pastor Ivanildo, filma de Salvador, onde agora está. E seu personagem “contracena” com a bispa Soraya (Hellen de Castro), sempre assessorada por um grupo de amigas (Ju Romano, Paula Flaibann, Verônica Goeldi e Gigi Debei).

O diretor artístico da Round House, Ryan Rilette, porém, é inflexível: as histórias de Homebound não podem ser consideradas teatro. “Não se consegue captar a qualidade de estar com um grupo de pessoas, respirando o mesmo ar, ouvindo uma história juntos”, justificou. 


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