Semana On

Segunda-Feira 10.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Entrevista

O autoritarismo de Bolsonaro e a falta de autoridade do Congresso e do STF para coibir abusos comandados pelo presidente

‘Em meio à crise pandêmica, a preocupação do presidente é garantir a reeleição’, diz o filósofo Roberto Romano

Postado em 27 de Abril de 2020 - Patricia Fachin - IHU

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O autoritarismo que caracterizou alguns governos no século XX é o mesmo que dá o tom do governo Bolsonaro. Na crise pandêmica, as características autoritárias do presidente se assemelham às ações do ministro da Propaganda na Alemanha nazista, Joseph Goebbels, que “uma vez nos palácios, escolhe a mídia subserviente para financiar, ataca os demais setores da imprensa dizendo-os mentirosos e indignos de fé”, diz o filósofo Roberto Romano à IHU On-Line. Assim como aconteceu durante o fascismo, compara, “massas brasileiras são movidas pela desobediência às leis, à ordem institucional, às informações científicas e aos relatos dos jornais que ainda resistem ao poder mentiroso”. Em meio à crise, diz, para o presidente, “pouco importa se milhares ou milhões morram pelo vírus. Urge a sua sobrevivência e confirmação na chefia do país na próxima eleição”, resume. E complementa: “Num delírio ainda pior, Bolsonaro afiança a unidade de sua existência com a Constituição. Ele é a Constituição. E como sempre na passagem para a tirania se acumula no governo muito ódio contra o saber científico”.

Nesta crise, vislumbra, “os trabalhadores, funcionários, pesquisadores, técnicos nas áreas médicas, de engenharia e outros sairão enfraquecidos, com salários e direitos cortados, desunidos”, enquanto o presidente terá a oportunidade de “reforçar seu jugo”. A “única” possibilidade de impedir esse cenário, adverte, encontra-se na organização das bases populares, mas a oposição, em todas as esferas, tem sido “tíbia”. “Falta autoridade ao Congresso e ao STF para coibir abusos comandados pelo presidente. Após o domingo em que o Chefe de Estado, em praça pública, ameaçou aquelas instituições com o fechamento, os presidentes da Câmara, do Senado, do STF deveriam redigir uma admoestação lida em todos os canais de TV, jornais etc., exigindo que ele se retratasse sob pena de impeachment. Mas o costume político nacional reside na conciliação, nas propostas silenciosas nos corredores ou gabinetes. É outro aspecto do absolutismo anacrônico que nos define. Antes de romper com um governante truculento e candidato a ditador, segue-se a linha dos ‘acordos’, quando não do rapapé em busca de cargos e verbas”, lamenta. Enquanto isso, ressalta, “lideranças de favelas se organizam para enfrentar a doença” e “mostram que naqueles espaços de moradia degradada existe mais espírito civil do que nos bairros que os hipócritas da imprensa chamam de ‘nobres’”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Roberto Romano avalia o comportamento do presidente na atual conjuntura e pontua que ele tem uma “fala sui generis”, similar a Jânio Quadros, mas carrega o “sotaque dos golpistas de 1964, incluindo aí a moral seletiva: alguns corruptos são abençoados, outros recebem maldição. E corruptos só podem ser os que integram a oposição ao seu governo e à sua pessoa. (…) O presidente e seus imitadores servem como farto material para pesquisas de tipo psicanalítico reichiano: seu corpo endurecido e sua alma idem não acolhem ninguém, salvo os que dizem amém”. Ele comenta ainda a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça. “A notícia da demissão de Sérgio Moro é apenas um episódio a mais na comédia de erros e truculência do sistema Bolsonaro”.

Depois da crise pandêmica, Romano aposta que o país do futuro ficará definitivamente no passado. O Brasil dos próximos anos será de “um país mais pobre para os pobres, com maior acúmulo de riquezas para os mais ricos. Um país ainda mais repressivo e injusto, um país cuja selvageria fará historiadores recordarem o quanto o Brasil tomba hoje na pior barbárie, ignorância, superstição”, conclui.

Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia na Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Cursou doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS, França. Escreveu, entre outros livros, Igreja contra Estado. Crítica ao populismo católico (São Paulo: Kairós, 1979), Conservadorismo romântico (São Paulo: Ed. UNESP, 1997), Moral e Ciência. A monstruosidade no século XVIII (São Paulo: SENAC, 2002), O desafio do Islã e outros desafios (São Paulo: Perspectiva, 2004) e Os nomes do ódio (São Paulo: Perspectiva, 2009).

 

O senhor tem pontuado em suas análises ao longo dos anos que o autoritarismo, isto é, governos autoritários persistem nas democracias. Como o autoritarismo tem se acentuado ou se manifestado na crise pandêmica?

A mais percuciente explicação para o fenômeno da sociedade democrática que gera no ventre o seu assassino foi oferecida por Platão. Ele mostra como os excessos cometidos nos sucessivos modos de viver e governar trazem a decadência e a passagem para outras formas políticas. Na democracia ateniense a licença confundida com a liberdade conduz ao desrespeito da lei e dos concidadãos. Para falar como Hannah Arendt, na democracia em perigo some a autoridade. É exigida a livre palavra (παρρησία) e o direito de fazer o que se quiser. Cada um “constitui” sua vida da maneira que melhor lhe convém. Aqui Sócrates usa o termo primacial da política, a constituição. Se cada um constitui sua existência de acordo consigo mesmo e não segundo a polis, temos um aglomerado de indivíduos, não um coletivo. Brotam na democracia pessoas das “espécies as mais variadas”. A Constituição (Politeia) é “manto de muitas cores matizado com múltiplas tonalidades (...) embevecidos, muitos julgam essa forma de governo a mais bela”.

Na democracia são tantas as constituições quantos os indivíduos. É como se na política nos defrontássemos com uma feira ou bazar de constituições. Cada um compra e usa a que melhor lhe convém. Desaparece a necessidade de governar e ser governado, julgar e ser julgado, viver em paz sem perturbar os demais. No limite, tudo se permite. Mesmo condenados que deveriam cumprir pena andam livremente nas praças. A democracia é agradável, anárquica, variegada. Nela cada um age, fala e se define como quer. Mestres e governantes toleram que a insolência seja dita “boa educação”, a anarquia se designe “liberdade”, a gastança “generosidade”, a desfaçatez “coragem”. Assim pervertida a democracia encontra no seu próprio fundamento – a liberdade – a causa de sua dissolução. Este último termo na República traz o seguinte vocábulo grego: καταλύω, que significa “dissolver, pôr abaixo, destruir”. Lembra muito o termo usado por Hegel e Marx para descrever o trabalho do negativo: Auflösung.

Já nota Aristóteles que Platão pensa o princípio vital dos regimes como fonte de sua dissolução. Volto a Hannah Arendt. A tese de que ao perder autoridade o coletivo humano passa ao inferno tirânico tem ressonâncias platônicas. Numa democracia adoecida pelas inversões de valores e na qual atos e língua são pervertidos, some o princípio da autoridade. Citando a República: “num Estado assim, o professor teme e lisonjeia os alunos, e estes têm seus mestres em pouca conta; outro tanto se passa com os professores. No conjunto os jovens imitam os mais velhos e competem com eles em palavras e atos; ao passo que os idosos condescendem com os novos, enchem-se de vivacidade e espírito a imitar os jovens a fim de não parecerem aborrecidos e autoritários”. O professor teme. O termo usado por Platão é φοβέω, a palavra mais frequente na tirania. E o medo leva à lisonja, irmã gêmea de todo populismo. Há uma pandemia da imitação e todos ameaçam, concorrem, usam palavras viciadas e as dissolvem ao desviar o seu sentido próprio. Os idosos abrem mão do respeito e autoridade para não parecerem... autoritários. O termo usado para designar tais idosos é “despótico”, sinônimo de “tirânico”. No limite, chegamos na democracia vilipendiada ao domínio da massa que, por sua vez, é conduzida por demagogos sedentos de poder, lobos que saborearam e desejam tal líquido precioso com sede inesgotável.

Permitam-me citar um trecho de artigo que publiquei na Revista Comciência (Unicamp): “A ruína dos governos ocorre porque eles não sabem dizer quem deve mandar e quem deve ser mandado na ignorância sobre o que mais importa em assuntos humanos. Qual ignorância é visada? A que se baseia na vontade corrompida que inverte os valores. A vontade perversa ama o ruim e o injusto mesmo sabendo que eles são inferiores ao belo e ao bom. A discordância entre pena e prazer e a opinião razoável é a suprema ignorância porque ela é própria do vulgo (πλῆθος). A parte da alma sujeita à pena e ao prazer corresponde exatamente no Estado à massa ignara que não deseja obedecer aos magistrados e às leis (Morrow, Glenn. Plato and the rule of law. In: Vlastos, Gregory. Plato, a collection of critical essays, ethics, politics, and philosophy of art and religion. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1978, p. 148). O mesmo ocorre nos indivíduos: se os princípios são ineficazes, vence o dissonante. Nenhuma magistratura pode ser atribuída a alguém que padeça de semelhante ignorância. Deve-se, ao contrário, chamar de sábio o caráter oposto e lhe atribuir os cargos. A sinfonia (συμφωνία) mais bela e elevada consiste no mais alto saber (σοφία) partilhado pelo homem razoável. Quem carece de tal ciência não pode ser um salvador (σωτήρ) do Estado. (...) No comando natural da lei, as pessoas obedecem voluntariamente, sem recurso à violência. (...) A causa da ruína e perda de potência (δύναμις) do povo grego foi ignorar as palavras de Hesíodo: ‘a metade vale mais do que o todo’. É prejudicial pôr a mão sobre o todo quando basta fazer isto com a metade. A justa medida vale mais do que o desmedido, pois é melhor do que o pior.

Os governantes arruinados foram atingidos pelo mal que consiste em ambicionar ter mais do que permite a lei. Eles louvam a lei em palavras, mas não a respeitam de fato. Este choque entre fala e ato é a mais grave ignorância, vista no entanto, sobretudo pela massa, como sabedoria. Em razão de tal dissonância se corrompem as belas normas da constituição. A justa medida é essencial na política (...). Sem ela tudo se inverte, a abundância de carnes leva à doença, a ilimitação conduz à injustiça. A alma dos jovens não suporta o peso do poder, logo ela é infectada da mais grave doença, a desrazão. Contra tais excessos cabe ao legislador, graças à justa medida, tomar precauções.”

Peço o perdão dos leitores pelo trecho longo e retomada da República e das Leis. Sem forçar os conceitos platônicos sobre a ruína dos governos e, particularmente, dos democráticos, pergunto: como chegaram ao domínio do Estado moderno os partidos totalitários do século XX? Em primeiro lugar, por eleições democráticas. Em segundo, quando lutavam para subir aos palácios, tais aglomerações defendiam o seu “direito” de atacar... a democracia. Em terceiro, eles assumiram o ideário segundo o qual eles e o povo cantam em uníssono. A sementeira que lhes deu origem encontra-se na sociedade cuja superestrutura é o Estado democrático. Um coletivo sem autoridade (volto a Arendt) acata os piores costumes políticos, as mais deslavadas mentiras, a irresponsabilidade dos líderes. Temos uma sociedade onde, por imitação, quem deveria exercer autoridade tem medo. Em Massa e Poder, Elias Canetti trata com rara lucidez tal medo de mandar dos líderes democráticos, que cedem o passo aos que mandam sem hesitação ética e moral, ignorando toda lei.

E foi assim que a facção de Jair Bolsonaro chegou ao cume do Estado brasileiro. Como [Paul Joseph] Goebbels, ele usou o quanto pôde a mídia para espalhar sua mensagem demagógica. Como Goebbels, uma vez nos palácios, ele escolhe a mídia subserviente para financiar, ataca os demais setores da imprensa dizendo-os mentirosos e indignos de fé. Como no fascismo, massas brasileiras são movidas pela desobediência às leis, à ordem institucional, às informações científicas e aos relatos dos jornais que ainda resistem ao poder mentiroso. Trump ou Bolsonaro usam a sofística combatida por Platão. O instrumento eficaz para instaurar a tirania ditatorial encontra-se no seu uso perverso da liberdade de expressão: massas bolsonaristas saem às ruas para pregar o fim da liberdade e são aplaudidas pelo presidente da República, que deveria preservar o trato vivo e livre. Massas fanáticas desobedecem medidas de proteção popular, atacam médicos com ameaças de morte e o próprio presidente diz que elas têm direito à liberdade de expressão. Multidões truculentas espalham o medo e os que deveriam defender a democracia apenas publicam “notas de repúdio” sem medidas de autoridade.

Ser bolsonarista hoje, no Brasil, é retomar os impropérios dos cidadãos “democratas” de Atenas que desprezavam quem seguia as leis. “Os que obedecem aos governantes (...) eles caluniam como escravos voluntários e pessoas que nada valem, mas elogiam e honram em público e privado os governantes que parecem governados e governados que parecem governantes” (República, 562 d-e). Temos aí a fórmula de toda tirania que destrói a ordem democrática. Não por acaso os totalitários do século XX e hoje Trump e Bolsonaro retomam o enunciado: “quem manda é o povo”. Numa cópia ruim de Carl Schmitt, diz-se que o presidente representa o povo de modo imediato, miraculoso. Num delírio ainda pior, Bolsonaro afiança a unidade de sua existência com a Constituição. Ele é a Constituição. E como sempre na passagem para a tirania se acumula no governo muito ódio contra o saber científico. Ocorre, sob Trump e Bolsonaro, a perseguição de pesquisadores científicos, encômios a charlatães religiosos ou leigos que praticam a misologia (neologismo criado por Platão). Nunca se odiou tanto a ciência e os cientistas como no Brasil de Bolsonaro. É o engodo vivido na teatrocracia (θεατροκρατία) exposto nas Leis. Quem acumula muitos seguidores nas redes sociais e cativa compartilhamentos e “likes”, deve governar. A voz de Deus é ouvida no Facebook. Quanto à servidão voluntária, trata-se de um tema “out of fashion” no Brasil de hoje. A professora Maria Sylvia Carvalho Franco tem trabalhado o tema desde longa data, enfatizando justamente o lado político do profundo diagnóstico platônico sobre a decadência democrática.

Pós-pandemia, que futuro vislumbra para os governos autoritários?

Governos autoritários não têm futuro. Sua vigência é sempre no presente imposto pela força, astúcia, demagogia, conivência de setores como o militar, o da justiça e outros. Tais governos aproveitam a crise para impor restrições à vida livre dos povos. Eles também facilitam a prática dos que concentram nas mãos a riqueza social em detrimento da sociedade. Sempre que houve ditadura no mundo, durante o século XX, por exemplo, as classes abastadas foram favorecidas pelos governos, arrancando da população direitos e prerrogativas. Da crise, os trabalhadores, funcionários, pesquisadores, técnicos nas áreas médicas, de engenharia e outros sairão enfraquecidos, com salários e direitos cortados, desunidos. Assim, os governos ditatoriais terão oportunidades para reforçar seu jugo. A única possibilidade de impedir tais coisas encontra-se na organização das bases populares contra a política repressiva e irresponsável dos administradores e a incerta união dos setores que ainda desejam manter a forma democrática já que o conteúdo efetivo nunca existiu no solo brasileiro, da colônia aos nossos dias. Pelo que se nota da oposição, ela mostra fragilidade maior do que a ocorrida durante a ditadura de 1964. A divisão impera, não há planos comuns para mudar o status quo, não há estratégia nem táticas comuns. O vazio de imaginação e ideias ocupa o presente das supostas oposições.

Em suas análises sobre a conjuntura atual, o senhor disse que o presidente Bolsonaro não está preocupado com o enfrentamento da pandemia, mas, sim, em se manter no poder de modo autoritário. Pode nos dar exemplos de como o autoritarismo do presidente se manifesta neste momento?

Ele se definiu desde antes da eleição como condutor de massas ressentidas contra o mundo econômico, político e social estabelecido. Não se trata de uma atitude de grupos que contestam a desigualdade dos bens e dos benefícios para a “elite”. Tais massas compostas por elementos da classe média empobrecida e por agrupamentos efetivamente pobres não se deixam determinar por formas revolucionárias do imaginário. Falando em termos clássicos, as multidões seduzidas pelos fascismos e formas populistas não entram no campo da “Revolution”, mas brotam da revolta (Empörung). O ressentimento marca tais camadas. Daí as suas paixões sempre à flor da pele, a face crispada, os berros desarticulados, o culto ao “vingador”, a recusa do diálogo, da ciência e das artes.

A vulgaridade no vestuário do presidente (entre outros episódios, a sua aparição com camisa comprada em banca de rua, da seleção brasileira), a sua fala chula, estabelece o espelho entre ele e seus seguidores. Como no nazismo, em grau menor, no entanto, os que seguem Bolsonaro apoiam milícias (no caso alemão as SA) físicas ou virtuais. A boca cheia de palavrões exorciza os perigos da sua fantasia. É o caso inclusive do Chanceler que inventou o comunavírus para vergonha brasileira em termos internacionais. Como as hordas que marcharam em 1964 em “defesa da família sob a inspiração divina”, os adeptos de Bolsonaro supõem lutar contra a “corrupção e o comunismo”. Eles defendem a propriedade privada, mas boa parte de seus partidários nem emprego garantido possui. A insensibilidade e a falta de misericórdia grassa entre os revoltados, afinal eles apenas fazem justiça... Intolerantes para com seus concidadãos que ainda possuem direitos, à primeira objeção contra seu “mito” (nunca o termo foi mais apropriado ao falar de um político), gritam que o objetor deveria abandonar o país rumo às terras “comunistas”.

O presidente e seus imitadores servem como farto material para pesquisas de tipo psicanalítico reichiano: seu corpo endurecido e sua alma idem não acolhem ninguém, salvo os que dizem amém. Existem delirantes que fantasiam ser Napoleão. E delirantes que imaginavam ter parte de seu corpo constituída de vidro. A irmã do filósofo Hegel “acreditava ter-se transformado num pacote que iria receber selo ao ser posto no Correio; a cada vez que ela percebia um estranho, tremia com todos os seus membros; terminou jogando-se na água” (Docteur Grasset, Idées médicales, Paris, Plon, 1910, p. 282). No Brasil existe o delirante que imagina ser um documento. “Eu sou a Constituição”. E seus adeptos acreditam no delírio. Bolsonaro encarna o que Elias Canetti definiu: o poderoso como sobrevivente. Pouco importa a ele se milhares ou milhões morram pelo vírus. Urge a sua sobrevivência e confirmação na chefia do país na próxima eleição.

Como os discursos e pronunciamentos do presidente se assemelham e se diferenciam de outros discursos autoritários que marcaram a história do Brasil?

Trata-se de uma fala sui generis. Ela tem alguma similaridade com Jânio Quadros (sobretudo a postura corporal, as roupas sujas e quase maltrapilhas, as ameaças ao Congresso etc.). Bolsonaro tem o sotaque dos golpistas de 1964, incluindo aí a moral seletiva: alguns corruptos são abençoados, outros recebem maldição. E corruptos só podem ser os que integram a oposição ao seu governo e à sua pessoa. É também sui generis porque se trata de uma fala miserável em termos culturais. Temos com certeza o presidente mais inculto, primitivo e deseducado de toda a galeria dos governantes brasileiros, da Colônia aos nossos dias. E sobretudo é uma expressão do ressentimento e do ódio com vocabulário restrito, sintaxe caótica e semântica desvairada. Pior do que o presidente, apenas seus filhos e... Olavo de Carvalho, por ele condecorado como maître a la non pensée [mestre no não pensar]...

Além da crise pandêmica, o Brasil se encaminha para uma crise da democracia? Sim ou não? Por quê?

Seria preciso que houvesse plena democracia no Brasil, algo a ser muito debatido. Nosso regime político é uma estranha síncrese de vários modelos governamentais. Há nele ingredientes absolutistas, a preeminência do presidente sobre as demais autoridades do Estado, oligárquicos, autoritários, pois um regime não vive apenas de sua Constituição escrita, mas dos usos e costumes a ele agregados ao longo do tempo. No século XX tivemos duas ditaduras ferozes que moldaram o modo de ser institucional. Não temos sequer um regime misto, pois a administração política deixa de se definir como parlamentarismo ou presidencialismo. A democracia entre nós é tão somente desejo de massas oprimidas, projeto de intelectuais, programa de partidos oposicionistas ao atual governo.

Tivemos poucas experiências democráticas, quase todas abandonadas pelos que as deveriam defender. O Orçamento Participativo ia naquele rumo, mas afastado nos governos de esquerda. Em troca, a esquerda se aliou aos oligarcas que desgraçaram a vida pública, como é o caso da família Sarney no Maranhão, da família Magalhães na Bahia, de Paulo Maluf em São Paulo. A foto de Maluf em companhia de Fernando Haddad e Luiz Inácio da Silva nos jardins da família Maluf mostra as ambiguidades de nossos setores democráticos. A pandemia apenas evidenciou tais ambiguidades e o quanto o atual governante nada tem de percepção democrática do mundo. As várias tentativas de trazer massas fanáticas para atacar instituições como o Supremo Tribunal Federal - STF e o Congresso, exigindo um golpe militar e, mesmo, um novo AI-5, mostram o falecimento do ideal democrático no país.

O senhor disse recentemente que no interior do Estado brasileiro existem posições antagônicas no enfrentamento da pandemia de covid-19. Quais são as áreas ou instituições que estão lidando adequadamente com essa questão e quais têm dificultado o enfrentamento à pandemia?

Ficou claro, com a demissão de [Luiz Henrique] Mandetta, qual setor lidaria adequadamente com a doença. Mesmo vários segmentos militares e econômicos seguiram tal via. É bom lembrar que as universidades públicas são instituições de Estado e elas tudo têm feito para trazer a ciência e técnica ao combate à doença.

O que a atual relação do Executivo com o Congresso e o STF indica? Como o senhor vê as acusações do presidente ao Congresso e as respostas do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a essas declarações?

A posição dos líderes parlamentares e judiciais aos ataques do presidente e de seus sectários tem sido, para ser benevolente, tíbia. É o caso de retomar o que disse acima sobre Hannah Arendt e a autoridade. Falta autoridade ao Congresso e ao STF para coibir abusos comandados pelo presidente. Após o domingo em que o Chefe de Estado, em praça pública, ameaçou aquelas instituições com o fechamento, os presidentes da Câmara, do Senado, do STF deveriam redigir uma admoestação lida em todos os canais de TV, jornais etc., exigindo que ele se retratasse sob pena de impeachment. Mas o costume político nacional reside na conciliação, nas propostas silenciosas nos corredores ou gabinetes. É outro aspecto do absolutismo anacrônico que nos define. Antes de romper com um governante truculento e candidato a ditador, segue-se a linha dos “acordos”, quando não do rapapé em busca de cargos e verbas.

O presidente reitera a todo momento que está preocupado com a situação daqueles que precisam trabalhar e não podem ficar em casa. As medidas anunciadas pelo governo, como a permissão pela renegociação de salários e jornadas, o coronavoucher e o orçamento de guerra, convergem com o discurso do presidente ou são suficientes para auxiliar os que mais precisam?

Os atos do presidente e de seu ministério seguem rumo ao uso da crise para arrancar direitos e prerrogativas das classes trabalhadoras. Eles aproveitam a fraqueza ocasional dos empregados para lhes retirar até mesmo fontes de alimentação. Quanto ao orçamento de guerra, além de ser mera propaganda, no que tem de substancial, beneficia os tradicionais sanguessugas do Estado: bancos e empresários da Fiesp e outras associações patronais.

A pandemia escancara problemas estruturais de toda ordem que atravessam o país na área da saúde, de saneamento, de falta de investimento em pesquisa, das desigualdades, da desindustrialização etc. O que mais tem lhe chamado atenção nesse sentido?

Todos aqueles fatores se conjugam e se complementam. Meu quase espanto é ver que, apesar de toda a violência dos empresários e do governo, ainda resta coragem para a luta dos “negativamente privilegiados” (termo de Max Weber). Fico emocionado com lideranças de favelas que se organizam para enfrentar a doença. Elas mostram que naqueles espaços de moradia degradada existe mais espírito civil do que nos bairros que os hipócritas da imprensa chamam de “nobres”. Certas figuras se agigantam, mostram toda sua riqueza espiritual. Lembro neste caso o padre [Júlio] Lancellotti, de São Paulo, e tantos outros que entregam sua vida em prol dos desvalidos.

Que país poderá emergir da crise pandêmica?

Um país mais pobre para os pobres, com maior acúmulo de riquezas para os mais ricos. Um país ainda mais repressivo e injusto, um país cuja selvageria fará historiadores recordarem o quanto o Brasil tomba hoje na pior barbárie, ignorância, superstição.

Como a Igreja, sob a liderança do Papa Francisco, tem lidado com a pandemia?

Sempre que vejo a imagem daquele homem vestido de branco cuja voz recorda misericórdia e bondade, fico emocionado. Ele é uma ponte do divino ao humano. Deus nos deu uma pessoa única para indicar caminhos. Desde seus primeiros passos no Vaticano, ele dá o testemunho vivo de responsabilidade e compaixão. Deus o proteja para bem do gênero humano. A Igreja age agora como mãe e mestra, cura almas e corpos. Nela, agora, poucos pastores agem contra o rebanho, ao contrário de tantas confissões religiosas nas quais os que deveriam ser guardiões se evidenciam como lobos vorazes. Quantas mortes foram causadas em cerimônias que se afirmavam religiosas!

No caso brasileiro o presidente desprovido de toda prudência e sensibilidade recebeu e recebe pressão de tais pastores, no sentido de gerar ainda mais quedas. Tamanho pecado terá sua cobrança no tempo e no Eterno. Igreja Católica e várias confissões protestantes assumem hoje o papel profético: “Deixe meu povo ir” para longe das prisões/templos onde impera a morte. Se estivéssemos na República platônica, os verdadeiros dirigentes católicos e protestantes estariam ao lado de quem saiu da caverna. Os pretensos pastores que insistem em promover desobediência em favor do morticínio devem ouvir a voz do único pastor: “se a luz que está em ti são trevas, quão tremendas são essas trevas!”.

Qual sua avaliação do pronunciamento do ministro Moro, que culminou com seu pedido de demissão, com a justificativa de interferência do presidente da República na Polícia Federal - PF?

A notícia da demissão de Sérgio Moro é apenas um episódio a mais na comédia de erros e truculência do sistema Bolsonaro. Moro assumiu durante bom tempo a máscara de justiceiro imparcial na luta contra a corrupção. A partir de alguns episódios, como o grampo criminoso que ele aplicou no telefone da presidente Rousseff, quando foi admoestado, mas não punido por Teori Zavascki, ele exibiu sem nenhum pejo suas preferências ideológicas de direita na oitiva de testemunhas, no tratamento hostil e arrogante contra os advogados de defesa, no conluio com o Ministério Público. Ainda devem ser melhor investigados seus elos com o Departamento de Estado dos EUA, aliás algo a ser feito com todos os integrantes da Lava Jato. Ao aceitar o posto de ministro no governo Bolsonaro, caiu a máscara. Sob ela revelou-se o militante reacionário que desejou aprovar o assassinato de civis por policiais e outras enormidades de orientação fascista.

Na própria fala em que justificou sua demissão, ele confessou que permaneceu o mesmo perseguidor dos adversários políticos e ideológicos. Ao dizer que ele, em união com [Maurício] Valeixo, impediu a soltura de Luiz Inácio da Silva da cadeia, ele atacou o juiz que concedeu a medida, tentando desmoralizar o seu ex-colega de magistratura. Semelhante trecho de sua fala pós-demissionária mostra que seu lugar no governo de extrema direita era natural, confortável. Logo depois o STF decidiu libertar o presidente Luiz Inácio, o que mostra que os motivos de Moro e Valeixo não se enquadravam no rigor jurídico, mas na caça aos opositores, sem nenhuma consideração pelos seus direitos.

Pareceu uma ironia de péssimo gosto quando, ainda na fala que justificou sua demissão, ele invocou o princípio da impessoalidade para se contrapor a Bolsonaro. Impessoal é algo que Moro nunca foi, mostrando que ele desconhece o item 37 da CF, para o qual nunca atentou. Ele possui vasta camada de seguidores fanáticos do moralismo de fachada, uma cultura de ressentimento que vem pelo menos do golpismo assumido pela UDN no episódio do “mar de lama” que levou Vargas ao suicídio. Daí ao golpe de 64 foi apenas questão de tempo. Moro representa aquele setor moralista e hipócrita das classes médias brasileiras, cuja marca é o desejo de governos ditatoriais e a mais bruta recusa dos direitos humanos. No governo, enquanto indígenas foram mortos, não houve uma só reação do ministro da Justiça contra os massacres. Agora ele está diante de seus sectários, livre para assumir a máscara do moralismo gasta por Jânio Quadros, pelos golpistas de 64, por Collor de Mello. Com muita probabilidade ele tentará uma candidatura ao Planalto, já que a indicação para o STF depende do agora seu inimigo Bolsonaro. Vejamos se ele possui tino político para mover seus apoiadores fascistas rumo à presidência. No que me diz respeito, em nome dos que lutam pelos direitos humanos, lhe desejo o mais retumbante fracasso.


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