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Sexta-Feira 29.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Poder

Os bastidores do chapéu que Braga Netto deu em Guedes

Conjunto de iniciativas gestadas à revelia do ministro encheram os olhos de Bolsonaro e rebaixaram o economista a fiador do plano

Postado em 24 de Abril de 2020 - Victor Irajá - Veja

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Desde o ano passado, o ministro Tarcísio Gomes de Freitas está preocupado. Em conversas com o chefe da Economia, Paulo Guedes, ele tentava achar soluções para tocar os inúmeros projetos guardados em sua gaveta. Os dois se desentendiam em questões técnicas e práticas, e externavam preocupações com a segurança jurídica para revisão dos contratos das obras inertes. A orientação do ministro Guedes era, como sempre foi, procurar fontes de investimento privado. Do Planalto, vinha a ordem de não se avizinhar com as empreiteiras maculadas pela Lava-Jato. Os projetos pouco andaram e as obras continuaram paradas. Empenhado em diminuir o tamanho do Estado e aumentar a participação da iniciativa privada, o ministro da Economia viu seus planos ruírem com o alastrar do coronavírus (Covid-19) pelo país. Guedes perdeu o brio —  graças ao cenário, seu discurso perdeu força — e o protagonismo na formulação de políticas públicas para os momentos posteriores à crise. O motivo: Guedes continua batendo na tecla de que o setor privado impulsionará a retomada da atividade econômica, enquanto que a realidade se mostra mais arredia para os planos liberais do ministro.

Elevado de secretário da Economia a ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho externou suas preocupações ao secretariado quanto a saídas para a crise disseminada pela doença e apresentou ideias, em março, logo no desembarque da Covid-19 no país, para que o país reavivasse seus projetos o quanto antes. A solução era parecida com a matutada na Infraestrutura: inundar projetos com verba pública, numa espécie de Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) de farda que lembra o plano desenvolvimentista militar da ditadura. Consultados, secretários e técnicos da equipe de Guedes torceram o nariz para as soluções encontradas pelos ministros, em consonância: aumentar o investimento público em infraestrutura e tocar obras paradas, com a ajuda de empreiteiras pequenas e médias, pode ser desastroso.

Avesso ao Plano Pró-Brasil, Guedes foi escanteado pelos companheiros de Esplanada. Os chefes da Infraestrutura e do Desenvolvimento Regional encontraram no ministro da Casa Civil, o general Walter Braga Netto, o grande fiador do projeto com cheiro dos anos 1970. Na sexta-feira 17, ele formalizou o grupo de trabalho com as duas pastas e limitou o trabalho da Economia a “parte interessada” dos grandes projetos, que receberam o aval do presidente Jair Bolsonaro. O desenho final de uma proposta para botar em prática o ‘Plano Braga Netto’, um simulacro sem nexo do Plano Marshall, ainda está sendo gestado. O Ministério do Desenvolvimento Regional mapeou pelo menos 11 mil obras a serem concluídas ainda neste ano, enquanto o Ministério da Infraestrutura colocou outros 130 projetos no balaio. Tratam-se de obras que, segundo membros da pasta de Tarcísio, matariam dois coelhos com uma cajadada só: resolveriam gargalos logísticos e fomentariam, segundo estimativas da Casa Civil, a contratação — direta ou indireta — de 1 milhão de pessoas.

Os recursos para o nascimento do filho de três pais — Braga Netto, Gomes de Freitas e Marinho — ainda são incertos. Contrariada, a equipe de Guedes faz contas para entender a viabilidade do processo. A solução seria criar crédito extraordinário para não desrespeitar a proibição do crescimento dos gastos do governo, determinados pelo Teto de Gastos. De forma preliminar, a equipe de Gomes de Freitas calcula um adendo de 4 bilhões de reais pelos próximos três anos ao orçamento da pasta, para viabilizar construção ou duplicação de rodovias e ferrovias, para fomentar atividades como a mineração e a produção de insumos agrícolas. Com os projetos tocados pelo Desenvolvimento Regional, estimam-se gastos de 30 bilhões de reais em neste período.


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