Semana On

Segunda-Feira 18.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Entrevista

Rivaldo Venâncio da Cunha - Médico infectologista e diretor da Fiocruz MS

Transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti, chikungunya chega ao Brasil e é mais grave que dengue.

Postado em 16 de Outubro de 2014 - Victor Barone

Rivaldo Venâncio da Cunha - Médico infectologista e diretor da Fiocruz MS Rivaldo Venâncio da Cunha - Médico infectologista e diretor da Fiocruz MS Foto: Elis Regina
Rivaldo Venâncio da Cunha - Médico infectologista e diretor da Fiocruz MS Rivaldo Venâncio da Cunha - Médico infectologista e diretor da Fiocruz MS Rivaldo Venâncio da Cunha - Médico infectologista e diretor da Fiocruz MS

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A chikungunya vai chegar a Mato Grosso do Sul, a dúvida é quando os casos começarão a ser notificados, essa é a avaliação do médico infectologista e diretor da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) no Estado, Rivaldo Venâncio da Cunha. Uma das principais características da doença causada pelo mosquito Aedes Aegypti – e que já contaminou cerca de duas mil pessoas no país - são as dores intensas nas articulações, que incapacitam o doente, e a possibilidade dela se tornar crônica e se estender por até dois anos.

 

Por Victor Barone

Depois de contaminar mais de 750 mil pessoas no Caribe e na América Central, a chikungunya chegou ao Brasil. Não havia como evitar a doença?

Isso já era esperado. Em 2010, no Peru, participei da reunião do comitê técnico assessor para o vírus chikungunya da Organização Pan-americana da Saúde para avaliar a possibilidade da introdução da doença nas Américas. Lá elaboramos um manual, que foi publicado em 2011, com o objetivo de preparar os governos da região para a possibilidade da chegada do vírus, com informações para capacitar os profissionais de saúde para o manejo clinico desta doença que é infinitamente mais complicada que a dengue.

Há chances de grandes surtos da doença no país?

O agente transmissor são os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, os mesmos causadores da dengue. O Brasil tem cerca de quatro mil municípios onde existem estes mosquitos. Ninguém no Brasil tem imunidade, anticorpos contra este vírus, pois nunca um brasileiro havia sido contaminado e não há vacina. Então, você esta completamente suscetível à doença.

Teoricamente pode-se dizer que todas as regiões brasileiras onde há surtos de dengue estão passiveis de ter casos de chikungunya?

Claro. Qualquer região do Brasil ou das Américas onde haja incidência dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus são passíveis de registrar casos de chikungunya.

Qual a situação no Brasil hoje?

Creio que o número de pessoas contaminadas pelo vírus da chikungunya no país já tenha chegado a cerca de 2 mil. Há casos localizados no Paraná, São Paulo, Goiás, Distrito Federal, Amazonas, Amapá, Maranhão, Pará, Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Esta semana surgiu um caso em Minas Gerais. A maioria dos casos, no entanto, está no Amapá e na região de Feira de Santana, na Bahia.

Ninguém no Brasil tem imunidade, anticorpos contra este vírus, pois nunca um brasileiro havia sido contaminado e não há vacina. Então, você esta completamente suscetível à doença.

Quais são os sintomas da doença?

O nome chikungunya significa “aquele que se curva”. Se curva diante da dor que sente nas articulações, principalmente nas pequenas articulações. Entre quatro e oito dias após a picada do mosquito infectado, o paciente apresenta febre repentina, acompanhada de intensas inflamações e dores nas articulações. Dores tão fortes que incapacitam o doente de fazer tarefas cotidianas como dirigir, digitar, cozinhar. Outros sintomas, como dor de cabeça, dor muscular, náusea e manchas avermelhadas na pele, fazem com que o quadro seja parecido com o da dengue. A principal diferença são estas intensas dores articulares e na possibilidade da doença cronificar. Há um alto índice de contágio em gestantes, da mãe para a criança. Se a mãe for infectada nas últimas semanas de gestação, a probabilidade de a criança nascer com problemas é de 50%, e os casos são muito graves.

O senhor falou na possibilidade da doença se tornar crônica.

Sim. Imagine uma pessoa ficar com dengue por seis meses a dois anos. É o que pode acontecer com a chikungunya. A doença tem três formas. A aguda, que fica de 7 a 10 dias; a subaguda, onde a pessoa dá uma melhorada e depois retoma as mesmas dores, permanecendo doente por cerca de três meses; e a forma crônica, que pode ficar nestas idas e vindas por até dois anos.

Tem tratamento?

Não há um tratamento capaz de curar a infecção, nem vacinas voltadas para preveni-la. O tratamento é paliativo, com uso de antipiréticos e analgésicos para aliviar os sintomas. Num primeiro momento se dá paracetamol, se não resolver entra-se com dipirona. Numa terceira fase você pode dar anti-inflamatório, que é um grande problema, pois os anti-inflamatórios que temos na maior parte das unidades de saúde do país são mais brutos, machucam mais a mucosa gástrica, aingem os rins, especialmente em pessoas idosas. Se o anti-inflamatório não resolver pode-se fazer associação com um derivado opiácio, como a morfina ou a codeína. No limite, principalmente nas formas crônicas da doença, pode-se aplicar injeções com anti-inflamatórios e corticoides.

Qual a origem da doença?

O vírus chikungunya foi identificado pela primeira vez entre 1952 e 1953, durante uma epidemia na Tanzânia (África). Mas, casos parecidos com essa infecção – com febres e dores nas articulações – já haviam sido relatados desde 1770.

Imagine uma pessoa ficar com dengue por seis meses a dois anos. É o que pode acontecer com a chikungunya.

O que está sendo feito para conter a ameaça?

Nós da Friocruz – MS, junto a profissionais de outros estados, estamos responsáveis pelo desenvolvimento de um manual sobre a doença, e realizaremos um curso online, que estará disponível para todos os profissionais de saúde e que vai incluir os conhecimentos para o combate a doença.

Que orientações pode-se dar a população para que ela tente evitar a doença?

As mesmas orientações já decoradas por muitos brasileiros para evitar a proliferação do mosquito da dengue. Não deixar água acumulada, cuidar das caixas de água e olhar os vasos das plantas são algumas das ações.

Outra doença que preocupa o mundo é o ebola. Há risco de uma epidemia de ebola no Brasil?

É muito difícil a ocorrência de uma epidemia de ebola no Brasil, por três motivos. Primeiro porque o vírus se reproduz de forma primária em algumas espécies de morcegos frugívoros que não existem nas Américas. Estes morcegos comem frutas e, a partir de sua saliva, contaminam outros animais que se alimentam dos restos destes das frutas. Posteriormente, seres humanos se alimentam destes animais ou frutas e se contaminam. Este é o segundo aspecto, pois, visto que, diferentemente do que ocorre em certas regiões da África, no Brasil as pessoas não tem o costume de se alimentar de primatas ou de carcaças de animais, hábito que colabora para a disseminação da doença. Finalmente, também não temos no país um contato mais próximo com nossos mortos. Os surtos de ebola se originam quando as pessoas tem contato ou manuseiam a carne crua de animais infectados ou fluidos corpóreos (sangue, vômito, urina, fezes, suor, sêmen, saliva, lágrima) de seres humanos contaminados. Em alguns países africanos, as cerimônias fúnebres ocorrem com um contato muito próximo com o morto, aumentando o risco de contaminação. Portanto, é um problema para preocupar o Brasil? É. É um problema para tirar o sono dos brasileiros e das autoridades sanitárias? Não.

Nossos serviços de saúde estão preparados para uma eventualidade?

No Brasil, os serviços de saúde, de modo geral, públicos ou privados, seguem as normas de biossegurança. Os profissionais estão equipados com luva, agulha e seringa descartáveis, diferente do que ocorre na África, onde em certas localidades hospitais recebiam um par de luvas, uma seringa e uma agulha para o dia todo. Mais de 150 injeções ou coletas de sangue feitas com a mesma agulha. Isso não ocorre no Brasil, o que também colabora para afastar a possibilidade de uma epidemia de ebola por aqui.

O ebola é um problema para preocupar o Brasil? É. É um problema para tirar o sono dos brasileiros e das autoridades sanitárias? Não.

Não há motivo para preocupação, então?

O cenário que esperamos é de casos isolados, seja de emigrantes que vieram de países nos quais estão ocorrendo surtos da doença para cá, seja de brasileiros que por alguma razão foram a estes países e tiveram contato com doentes. Casos isolados. No limite do azar, podem ocorrer fatos como os que aconteceram nos Estados Unidos. Alguém que chegou e adoeceu aqui e passou a doença para uma terceira pessoa. Mas, mão há motivo para preocupação no país.

É correto isolar pessoas que venham de países onde haja surto da doença e apresentem algum sintoma?

O isolamento tem que ser feito com cuidado. O ebola não é uma doença cujo contágio seja respiratório, como acontece com o H1N1. É correto o isolamento? É. É correto tentar identificar o caso suspeito para descartá-lo ou comprová-lo? É. Mas, não se pode transformar isso em uma operação de guerra, como se fosse o principal problema de saúde pública do Brasil. Não é.

Segundo Anthony Banbury, chefe da missão da ONU para o ebola, o vírus pode sofrer uma mutação e se espalhar pelo ar se a epidemia não for controlada com rapidez. Procede?

Do ponto de vista teórico, do mesmo jeito que um vírus pode se adaptar de uma espécie de mosquito para outro, ele pode se adaptar para outras formas de contágio. Mas, estas adaptações amplas levam de 50 a 100 anos para acontecer.

Quanto tempo, em média, a ciência leva para desenvolver uma vacina contra uma doença como o ebola?

Em torno de 20 anos. Há pesquisas para vacinas sendo testadas já há 10 anos.


Voltar


Comente sobre essa publicação...