Semana On

Quarta-Feira 27.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Saúde

A explosão de mortes e a realidade oficial paralela

Óbitos batem recorde, mesmo subnotificados. Ministro faz digressões sobre Matemática, participa da negociata com ‘Centrão’ e quer volta ao trabalho

Postado em 24 de Abril de 2020 - Maíra Mathias e Raquel Torres - Outra Saúde

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O Brasil registrou 407 mortes em 24 horas – o equivalente a uma morte a cada três minutos – e chegou a um total de 3.313 óbitos e 49.492 mil casos confirmados. Pelo que se sabe das curvas de contaǵio do coronavírus, não é difícil prever que os próximos dias devem ser piores.

O número de mortes aqui tem dobrado a cada cinco dias segundo uma nota técnica do MonitoraCovid-19, um sistema da Fiocruz. É mais rápido que na Itália e Espanha, onde isso acontece em oito dias. Pode-se argumentar que esses países aparentam já estar na descida de suas curvas, mas até a comparação com os Estados Unidos deixa o Brasil em maus lençóis: lá, têm sido seis dias para que dobre o número de mortos. E o coronavírus está chegando rápido aos municípios pequenos. Na mesma nota técnica, os pesquisadores observam que todas as cidades com menos de 500 mil habitantes já têm casos da doença.

Além de o vírus estar se espalhando, temos a tão falada fila de testes esperando resultados, inclusive de quem já morreu. Então, mesmo o recorde registrado ontem é um retrato do passado. Para se ter uma ideia, segundo o Ministério da Saúde a maior parte dos registros (155 mortes) divulgados ontem é do dia 13 de abril. Dez dias antes. A Pasta reconhece que, atualmente, está investigando nada menos que 1,2 mil de óbitos suspeitos.

Aliás, n’O Globo o colunista Rafael Garcia pergunta se não passou da hora de o Brasil reportar como mortes confirmadas essas que acontecem por SRAG (a síndrome respiratória aguda grave) mas ainda não têm resultados. Foi o que a China fez quando tinha escassez de testes. Para a narrativa bolsonarista, porém, obviamente não interessa de repente registrar mais de mil mortes em um dia.

Outro sistema da Fiocruz, o InfoGripe, está constatando um aumento no número de internações e mortes por SRAG num ritmo bem maior do que a de infecções confirmadas pelo coronavírus. O último relatório semanal do sistema mostra que a o crescimento não deixou de acontecer, mas deu uma desacelerada nas últimas duas semanas. É uma boa notícia, e a explicação provavelmente está nas medidas de isolamento social. Acontece que, como há um intervalo entre o contágio, os sintomas e as hospitalizações, um relaxamento nessas medidas hoje só vai aparecer no sistema daqui a duas ou três semanas.

Outra observação: o sistema funciona com base nos registros hospitalares, então obviamente só serve para estimar o aumento de casos enquanto os hospitais conseguirem absorver os pacientes. Se faltar leito, os registros chegam a um limite. E já há cinco capitais brasileiras em colapso ou perto disso, segundo um índice desenvolvido por pesquisadores de várias universidades brasileiras. Além de Manaus, Macapá, São Paulo e Fortaleza, Palmas também entra nessa lista, mesmo com só 28 casos e uma morte confirmada. A questão é que a cidade tem uma das menores estruturas de saúde do país, com poucos médicos e respiradores.

Realidade Paralela

Nelson Teich é um otimista. Para o novo ministro da saúde, há que se tomar cuidado com os modelos matemáticos que preveem cenários desastrosos, porque eles pioram o medo. Mas os números oficiais também não o abatem: as mais de 400 mortes registradas ontem, por exemplo, “podem não ser uma tendência“… Ele argumenta que os dados podem significar “um esforço de fechar os diagnósticos”, referindo-se aos testes atrasados. A informação de que 155 das mortes confirmadas ontem se referem ao dia 13 de abril é espantosa, de fato. Mas as restantes são de quando?

É claro que, se o Brasil conseguir correr atrás desses diagnósticos, vai haver um aumento grande nas mortes diárias até que o país consiga zerar a fila. Mas, enquanto isso, o vírus se espalha. Como então identificar a curva real de óbitos sem precisar esperar que todas as mortes antigas sejam confirmadas? Seria possível atualizar diariamente os números referentes aos dias reais dos óbitos? Fica a dúvida.

Curiosamente, a subnotificação só é um problema para o ministro quando o recorde de mortes vira manchete. Aí, precisa ser levada em conta. Já quando empurra os casos brasileiros para baixo, não precisa ser mencionada: “O Brasil hoje é um dos países que melhor performa em relação à covid. Se você analisar mortos por milhão de pessoas, o número do Brasil é de 8,17. A Alemanha tem 15. A Itália 135. Espanha 255. Reino unido 90 e EUA 29″, disse ele na quarta, em sua primeira coletiva como ministro. Ele não só desconsiderou a falta de diagnósticos como ainda apresentou dados distintos dos usados pela própria Pasta, e ninguém sabe de onde ele tirou esses números.

Para outro ministro, Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, os meios de comunicação estão errados em mostrar… o que acontece: “No jornal da manhã é caixão, corpo; na hora do almoço, é caixão novamente. No jornal da noite é caixão, corpo e número de mortos. Eu pergunto a todos: como é que você acha que uma senhora de idade, uma pessoa humilde ou que sofre de outra enfermidade se sente com essa maciça divulgação desses fatos negativos. Não tá ajudando. Ninguém aqui está dizendo que tem que esconder. Os senhores [jornalistas] têm que também… eu conclamo e peço encarecidamente, tem tanta coisa positiva acontecendo“.

Tudo para dar certo

Eduardo Pazuello, “braço direito” de Teich, que ele mesmo não conhecia até esta semana, foi oficialmente anunciado como secretário-executivo do Ministério da Saúde. Um dia antes, servidores da Pasta foram até o hotel onde ele estava hospedado para “ensinarem o beabá do Ministério“, nas palavras da colunista d’O Globo Bela Megale. “Em uma lousa branca, os funcionários detalharam todo o organograma, informando quais entidades estão sob seu comando e quem são os responsáveis pelas mesmas. Pazuello será responsável pela área administrativa e concentrará atividades como monitoramento, logística, necessidades de transportar medicamentos e coordenação de ações com ministérios”.

O plano desastroso

Nelson Teich não sabe qual é a tendência do coronavírus no Brasil, mas, como não poderia deixar de ser, sua primeira ação como novo ministro é em relação à reabertura econômica. “É impossível um país viver um ano, um ano e meio parado. Um programa de saída, isso é que a gente vai desenhar e dar suporte para estados e municípios”, disse ele, também na quarta. Na semana que vem, chegam as “diretrizes” que vão orientar as unidades da federação em relação a isso. A Frente Nacional de Prefeitos cobra um protocolo por parte do governo federal. Mas, mais do que isso, eles pedem condições para que as cidades tenham dados suficientes para embasar as ações.

Questionado sobre o péssimo momento para se pensar em abertura, Teich relativizou: “Quando digo que a gente vai ter que mapear no dia a dia, e que vai ter critérios, estratégias de saída, isso não quer dizer, primeiro, que a gente vá voltar, sair amanhã e que alguém defenda o isolamento ou não. A gente defende o que é melhor para a sociedade. Se o melhor para a sociedade for o isolamento, é o que vai ser. Se eu puder flexibilizar, dando uma autonomia e uma vida melhor para as pessoas, e isso não vai influenciar na doença, é o que vou fazer”.

É preciso aguardar a chegada das tais diretrizes para ver o que elas estabelecem em relação às condições necessárias para o início da abertura. Mas, no cenário que temos hoje, não existe a menor segurança para relaxar nada, como explica, no Estadão, o epidemiologista Pedro Hallal. Reitor da Universidade Federal de Pelotas, ele é também coordenador da grande pesquisa por amostragem que pretende apontar a prevalência real – e a evolução semana a semana – das infecções pelo novo coronavírus no Brasil. Ele compara a situação brasileira com os seis requisitos estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde para que as medidas de isolamento sejam relaxadas. A conclusão é que ainda não temos praticamente nada. Segundo a OMS, a transmissão deve estar controlada; é preciso ter capacidade de testar e isolar os pacientes e seus familiares; locais de trabalho e escolas devem estar adaptados para evitar o contágio; o surto deve estar controlado em locais específicos, como hospitais; é preciso ter equipamentos suficientes. Nada disso faz parte da nossa realidade, em parte alguma.

Por falar no estudo de Pelotas: os cem mil testes aplicados na população vão ser feitos por pesquisadores do Ibope. E eles devem ser orientados pelo ministro Nelson Teich.


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