Semana On

Quarta-Feira 27.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Brasil

Com Bolsonaro, liberdade de imprensa se deteriora no Brasil, afirma Repórteres sem Fronteiras

General pede menos ‘notícias ruins’, como se o papel do jornalismo fosse entreter e não informar

Postado em 23 de Abril de 2020 - DW, Victor Ohana (Carta Capital), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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"A chegada ao poder do presidente Jair Bolsonaro tensionou a relação do governo federal com a imprensa e contribuiu para o país caísse duas posições no Ranking 2020", afirma a ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF), se referindo à sua classificação anual da liberdade de imprensa no mundo, cuja mais recente edição foi divulgada no último dia 21.

O Brasil ocupa agora o 107° lugar, entre 180 países listados, à frente do Mali e atrás de Angola (106°), Montenegro (105°) e Moçambique (104°). A primeira posição na lista é da Noruega, seguida por Finlândia, Dinamarca e Suécia, enquanto a Coreia do Norte está na última colocação, à frente do Turcomenistão.

O Brasil mantém a tendência de queda no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa da RSF. No ano passado, o país já havia caído três posições em relação à edição anterior. A entidade alerta que essa queda deve continuar, "na medida em que o chefe do Executivo segue incentivando ataques a jornalistas e meios de comunicação".

A RSF afirma a eleição de Bolsonaro "marcou a abertura de um período especialmente sombrio para a democracia e a liberdade de imprensa" e que frisou que o presidente "promove sistematicamente um clima de ódio e de desconfiança em relação à imprensa" e que, em meio à pandemia, "o governo federal redobrou os ataques, questionando quase que diariamente a cobertura da crise sanitária".

A entidade também frisa que "o 'gabinete do ódio' que cerca o presidente brasileiro publica ataques em larga escala a jornalistas que fazem revelações sobre políticas do governo" e sublinha que "desde o início da epidemia de coronavírus, Jair Bolsonaro redobrou seus ataques à imprensa, que ele considera responsável por uma 'histeria' destinada a gerar pânico no país".

Outro ponto destacado pela ONG é a concentração da mídia brasileira, "sobretudo nas mãos de grandes famílias, com frequência, próximas da classe política". Além disso, segundo a RSF, "o sigilo das fontes é com frequência questionado e muitos jornalistas investigativos são alvo de processos judiciais abusivos" no Brasil.

Leia o Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa

País das Maravilhas

O ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, criticou a imprensa pelo que chamou de “cobertura maciça dos fatos negativos” sobre a pandemia do novo coronavírus. Em coletiva no último dia 22, o militar pediu que os veículos de comunicação abordem a crise de maneira positiva.

Segundo Ramos, a imprensa não deve esconder os problemas da proliferação da doença, mas erra ao se concentrar apenas na divulgação de “caixão e corpo” no noticiário.

“Com todo o respeito, no jornal da manhã é caixão, é corpo. No jornal do almoço, é caixão novamente, é corpo. No jornal da noite, é caixão e é corpo e o número de mortes. Como é que os senhores acham que uma senhora de idade, uma pessoa humilde ou uma pessoa que sofre de outra enfermidade, ela se sente com essa maciça divulgação dos fatos negativos? Não está ajudando”, reclamou o general.

Como solução, Ramos pediu que os jornais divulguem o número diário de recuperados da covid-19. O Ministério da Saúde só começou a informar este dado em 8 de abril. Segundo o último balanço, 25.318 pessoas se curaram da infecção, número que representa 55,3% do total de registros de contaminados. O Brasil tem 2.906 mortes e mais de 45 mil contágios, de acordo com a pasta.

O ministro também pediu que a imprensa reporte “o trabalho maravilhoso” dos profissionais de saúde, na linha de frente do combate ao coronavírus. “Façam matérias de um médico, de pessoas que estão dando suas vidas pelas pessoas que estão com a doença. Eu não tenho visto isso muito na imprensa”, acusou.

O general Luiz Eduardo Ramos vive entre os dois mundos de Alice: o País das Maravilhas e o País do Espelho. Ele só não suporta viver no Brasil do coronavírus, que ultrapassou a marca de 3 mil cadáveres.

O general está abespinhado com a imprensa. Acha que o noticiário traz "uma cobertura maciça dos fatos negativos." Está incomodado com o excesso de cadáveres e esquifes.

É preciso divulgar notícias positivas, encareceu o general. Coisa digna de Lewis Carroll e do País das Maravilhas criado por ele para sua personagem Alice. Nos telejornais do ministro Ramos, haveria um vácuo no qual a realidade deixaria de existir. Não restaria senão a fantasia.

No universo criativo de Carroll, Alice, depois de visitar o País das Maravilhas, decidiu atravessar o espelho de sua casa. Entrou no País do Espelho, onde enxergou tudo ao contrário do que realmente é. É nesse país que vive o general Ramos.

Atrás do espelho do Planalto, há um presidente que vê a pandemia como "gripezinha", trata isolamento social como uma inutilidade e finge não enxergar o monturo de corpos —"Eu não sou coveiro!", desconversa.

No Brasil maravilhoso idealizado pelo general Ramos, o noticiário refletiria a realidade invertida do país do espelho, onde brilha Bolsonaro. Quem ousasse mostrar o mundo real passaria por impatriótico. Beleza. Agora só falta descobrir uma maneira de esconder os caixões e os corpos.

"Censura na China é ameaça mundial"

A RSF também acusou a China de ter se tornado uma ameaça ao mundo. Segundo a entidade, a supressão à liberdade de imprensa no país foi um dos fatores que aceleraram a disseminação mundial do novo coronavírus. A supressão de informações fez com que o resto do mundo fosse alertado mais lentamente para o problema, levando a doença a se espalhar ainda mais.

"O surto de coronavírus revelou a lição mais importante dessa crise, a de que a censura na China não diz respeito apenas ao povo chinês. Ela também é uma ameaça para qualquer pessoa na Terra", disse o chefe da RSF no Leste Asiático, Cedric Alviani, ao correspondente da DW William Yang.

"Certamente existe uma relação estreita entre o regime e a censura, e o fato de eles terem tentado esconder todas as informações sobre a epidemia durante o primeiro mês é a melhor prova disso", concluiu.

Alviani observa que, por exemplo, no dia 11 de março, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que a covid-19 está causando uma pandemia, a China censurou uma longa lista de palavras-chave relacionadas ao vírus em suas plataformas de mídia social, como a WeChat, e aplicativos de agregação de notícias, impedindo que as pessoas possam falar livremente sobre o assunto na internet.

A RSF também alerta que a pandemia de coronavírus está "ampliando" as ameaças à liberdade de imprensa em todo o mundo. A entidade sediada em Paris disse que alguns regimes autoritários se aproveitaram do surto para impor medidas extraordinárias.

Publicado anualmente desde 2002, o Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa tem sua metodologia baseada no desempenho em termos de pluralismo, independência da mídia, ambiente e autocensura, arcabouço jurídico, transparência e qualidade das infraestruturas de apoio à produção de informações. Os índices são calculados a partir de um questionário preenchido por especialistas do mundo inteiro.


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