Semana On

Sexta-Feira 05.jun.2020

Ano VIII - Nº 395

Brasil

Estudo mostra aumento expressivo de internações por síndromes respiratórias e indica subnotificação da Covid-19

Número de internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave em 2020 é o maior desde 2010, aponta Fiocruz. Especialistas afirmam que dados revelam subnotificação do novo coronavírus

Postado em 23 de Abril de 2020 - Clara Velasco, Carolina Dantas e Felipe Grandin (G1), O Estado de SP, Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

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Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra um aumento expressivo nas internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) neste ano no Brasil em comparação com a média dos últimos dez anos.

Esses dados, de acordo com a Fiocruz, infectologistas, epidemiologistas e outros especialistas ouvidos pelo G1, indicam uma subnotificação dos casos da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus Sars-CoV-2.

SRAG, ou Síndrome Respiratória Aguda Grave, é uma doença respiratória grave que exige internação e é causada por um vírus, seja ele o novo coronavírus, o influenza ou outro. Os casos são relatados pelos hospitais ao Ministério da Saúde, e a Fiocruz consolida e divulga esses dados pela plataforma Infogripe.

Na contagem da Fiocruz até 4 de abril deste ano, o Brasil teve 33,5 mil internações por SRAG, muito acima da média desde 2010, de 3,9 mil casos. Mesmo em 2016, quando houve um surto de H1N1, foram registrados 10,4 mil casos no mesmo período do ano.

"O número de casos está muito alto. Completamente fora do padrão", afirma Marcelo Gomes, coordenador do Infogripe, da Fiocruz.

Os motivos, segundo ele, são:

- Há mais hospitalizações em decorrência da Covid-19

- E a velocidade com que o vírus se espalha é maior que em anos anteriores (há uma "maior rapidez de disseminação")

Um terceiro fator, diz, é que o sistema da Fiocruz passou a receber um número maior de notificações de hospitais privados. Por isso, a comparação deste ano com os anteriores não é perfeita. Mas, segundo Gomes, mesmo descontando os dados de hospitais privados, a alta seria expressiva.

"Outro fator, cuja contribuição não é tão grande, é o fato de que nos últimos anos quem reportava fundamentalmente era praticamente só a rede pública. E, neste ano, a rede privada também passou a reportar. Mas a contribuição não é tão grande quanto os outros [fatores]."

Os cientistas da Fiocruz listam três motivos que apontam o Sars-Cov-2 como o responsável pelo expressivo crescimento dos casos:

- aumento das internações fora da época

- idosos como os mais afetados

- percentual de testes negativos para outras gripes mais alto

“Não tem nada que justifique o aumento do número de casos de idosos. A gente teve até vacinação antecipada dessas pessoas neste ano. Pode ter certeza que é Covid-19. É provavelmente quase tudo Covid-19. Não tem outra explicação pra isso”, afirma o epidemiologista, infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Antonio Bandeira.

Além disso, o último boletim do Ministério da Saúde mostra que há mais de 20 mil casos de SRAG ainda em investigação, aguardando o diagnóstico.

Fora de época

O rápido aumento das internações por problemas respiratórios aconteceu neste ano em uma época em que normalmente não há muitos casos. O normal é que os casos comecem a aumentar junto com o frio, no fim do outono e início do inverno. Não foi o que aconteceu em 2020.

"A chegada da Covid-19 ocorreu durante a estação do ano em que a atividade dos vírus respiratórios é, em geral, baixa", afirmam os pesquisadores da Fiocruz. "Apenas em 2010 e 2016 a sazonalidade da SRAG ocorreu mais precocemente (no final do verão e outono) na maioria dos estados brasileiros, com predominância do vírus da Influenza A."

A preocupação dos especialistas é que a situação se agrave no inverno, quando os outros vírus começam a causar internações por SRAG, o que pode causar uma sobrecarga ainda maior ao sistema de saúde.

"O aumento da hospitalização por SRAG tão precocemente em 2020 chama a atenção, uma vez que existe a tendência de aumento de casos entre o outono e o inverno, sobretudo nos estados de maior latitude (mais ao sul)".

Idosos x crianças

O estudo da Fiocruz foi motivado pelo rápido aumento dos casos sem identificação da doença. Ao analisar os números, os pesquisadores viram que havia uma mudança no perfil dos pacientes. As gripes comuns, registradas nos anos anteriores, afetavam principalmente crianças, com menos de 2 anos.

Já os casos novos são predominantemente de idosos e pessoas com comorbidades, como diabetes, uma característica da Covid-19.

Das internações por SRAG em 2020, 36% foram de idosos, com mais de 60 anos. Já os pacientes com menos de 2 anos responderam por apenas 10% dos casos.

Testes negativos e aguardando resultado

Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores da Fiocruz foi o grande número de testes negativos para outras gripes, como Influenza A, o tipo mais comum. O índice chegou a 91%. Segundo os especialistas, isso indica que o motivo da SRAG é outra doença, nova.

"Chama a atenção a alta negativação dos testes laboratoriais de SRAG na vigilância, tanto historicamente, como em 2020", afirmam os pesquisadores. "A negativação dos testes alcançou 91%, um nível antes não encontrado."

Além disso, não há testes disponíveis de Covid-19 para todos os pacientes. E mesmo entre os que foram testados, muitos ainda aguardam o resultado.

Professor mostra ano 'fora da curva'

O professor de estatística da UFRN Marcus Nunes analisou os dados do Infogripe, da Fiocruz, e fez dois gráficos, mostrando como o número de casos em 2020 está em um patamar muito acima do restante, inclusive 2016, quando houve o surto de H1N1.

Todos os meses, ele escolhe um tema para fazer uma análise estatística e mostrar para seus alunos na faculdade, que também é publicada em seu blog.

O professor diz que viu que não havia testes suficientes no Brasil e resolveu buscar os dados de problemas respiratórios para conferir se havia subnotificação da Covid-19. Depois de analisar os dados do Infogripe, concluiu que essa probabilidade é muito alta. "O gráfico mostra claramente que 2020 é um outlier (fora da curva)", diz.

Nunes publicou também um site com as curvas para cada estado, mostrando a diferença de número de casos entre cada ano. Em estados como RJ, MG e CE, a discrepância é ainda maior.

Especialistas apontam subnotificação

Antonio Bandeira, epidemiologista, infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, diz que o alto número de internações deixa clara a subnotificação, assim como o perfil das vítimas. “[O fato de ter mais idosos] é por causa do Covid-19. Não tenho nem dúvida.”

"A SRAG é um quadro com maior gravidade respiratória associada a manifestações virais. Ela não vai diferenciar que tipo de vírus é de acordo com os sintomas, não. Ela pode ser causada por qualquer um desses vírus, Influenza, Covid, H1N1. Em tempos normais, sem pandemia, ela geralmente reflete casos de Influenza, porque dentro desses vírus é o mais comum ano a ano. Mas a Covid-19 reproduz um quadro respiratório. Então esse número deve refletir as duas coisas juntas.”

“Não tem como saber sem testes o que é cada um. No início do ano, na Bahia, tinha muito mais Influenza dando nos testes. Agora não. Tem muito mais Covid do que Influenza. Só que como a demanda de Covid ficou muito grande, a gente tem que esperar para mostrar os resultados de tudo isso” , afirma.

Paulo Inácio Prado, que trabalha com biologia quantitativa e é integrante Observatório Covid-19, grupo voluntário de pesquisadores, diz que o estudo da Fiocruz tem uma importância muito grande. “Eles foram os primeiros a perceber que estavam detectando provavelmente os casos de Covid", diz. “Esses dados confirmam a hipótese da equipe da Fiocruz de que a gente estava tendo um aumento muito importante dos casos de SRAG e que isso se deve muito possivelmente à Covid-19”

“A grande pergunta é por que a gente tem tantos casos ainda não testados, se entre os testados a gente uma taxa de 70% para o Covid?”, questiona. “Acho importante distinguir duas coisas diferentes que afetam esses dados. Uma é o atraso de notificação. Uma parte já aconteceu e vai ser registrado. A segunda é a subnotificação mesmo. Significa que o sistema não está conseguindo notificar todos os casos.”

Tulio Batista Franco, sanitarista da Universidade Federal Fluminense, diz que esse fenômeno da subnotificação é visível no país todo. "Está muito acima. Como não tem testagem, tem a síndrome respiratória aguda grave, mas a verdade é que a maioria está morrendo de Covid-19”, afirma.

O especialista diz que, como não há a testagem adequada, "cada um fala o que quer". "Não se está conseguindo dar o diagnóstico correto para as pessoas. Você não tem o teste para se contrapor ao número do governo.”

Sérgio Cimerman, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia, também diz que o número "não é normal". "É por causa da circulação da Covid-19. Porque o coronavírus é mais transmissível e mais contagioso. A gente achava que o H1N1 era muito mais agressivo, e muito pelo contrário."

Para Patrícia Canto, pneumologista da Escola Nacional de Saúde Pública, com uma notificação baixa, a estimativa da mortalidade da doença também não é real. "Você só está testando os casos graves. Se você tivesse o total, alteraria. Então, com certeza, a taxa de mortalidade cairia se você tivesse uma testagem maior, porque você aumenta o número de pessoas infectadas."

"Outra coisa é que a gente tem um impacto mais sentido nos profissionais de saúde. Então o profissional de saúde que está acometido da doença, ele precisa do exame para poder retornar ou para manter a sua quarentena. A questão dos testes é fundamental", diz. "O fato de a gente não testar a população traz pra gente um subdimensionamento dos números. Então se a gente pensa que, cada um desses casos contaminou pelo menos 2, 3 [pessoas], se não forem mais, a gente tem que multiplicar por pelo menos 3 o número de infectados na população."

Sem saber o número real de infectados, o planejamento dos sistemas de saúde fica prejudicado, segundo ela. "Se a gente consegue avaliar que, em determinados locais, você está com um número maior de casos, você drena melhor os seus sistemas de vigilância e de ações de serviços de saúde e até de equipagem dos dispositivos hospitalares. Você pode enviar médicos. Você acaba sabendo isso pela gravidade dos casos. Se você tivesse uma dosagem mais ampla, uma testagem mais ampla, você talvez pudesse se antecipar à gravidade dos casos e aí você consegue manejar melhor a questão de leitos, de respiradores ou mesmo de profissionais de saúde."

O que preocupa, segundo a especialista, é o impacto desse quadro. "O problema é, em pouco tempo, os sistemas ficarem sobrecarregados e não termos leitos de UTI e respiradores/ventiladores mecânicos para o grande número de pacientes que se avolumam ao mesmo tempo. Os serviços são estruturados para a população em situações normais, não para situações de pandemia, como estamos vivendo agora. E a gente não pode esquecer que as outras situações continuam acontecendo. As pessoas ainda infartam, as pessoas ainda têm apendicite, as pessoas ainda têm infecções bacterianas. E agora estamos começando a época do ano em que a gente tem as doenças respiratórias sendo mais prevalentes também. Então a gente vai ter uma sobreposição da pandemia, que, por si só, já esgota o nosso sistema de saúde, sobreposta às outras doenças que a gente espera encontrar na população, em especial nessa época do ano."

"As pessoas ficando mais em casa, a gente tende a protegê-las de exposições a esses vírus respiratórios de um modo geral, tanto que essa é uma das principais estratégias no combate a essa pandemia. Com isso, você reduz, por exemplo, essa transmissão para crianças. As crianças não estão indo às escolas, não estão indo às creches. Com isso, você tende a diminuir essas infecções respiratórias", afirma.

"Uma outra coisa que a gente espera, seguindo o perfil dos outros países que nos antecederam à pandemia, é que as condições mais graves da doença da Covid 19 aconteçam nas pessoas com comorbidades e com idades mais elevadas, com pacientes acima de 60 anos, aumentando essa internação, então, nessas faixas etárias. Isso tem a ver com o perfil da doença, e a redução de infecção nas crianças muito provavelmente tem relação com o fato de elas estarem mais em casa", diz Patrícia.

‘FT’ traz reportagem sobre subnotificação de casos de coronavírus no Brasil

O jornal inglês Financial Times destacou o receio de coveiros de São Paulo de que a taxa de mortes no Brasil em decorrência da infecção pelo novo coronavírus seja mais alta que a registrada oficialmente. 

A reportagem conversou com trabalhadores do cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo – o maior do País –, que chamou atenção no fim de semana pelo grande número de novas covas sendo abertas à espera de vítimas da covid-19.

Enquanto enterravam um homem de 96 anos, que morreu após ser hospitalizado com pneumonia e sem ter recebido os resultados do teste de coronavírus, os coveiros comentaram que o cenário é comum. “Muitos como ele chegam aqui antes de receber os resultados dos testes”, disse um deles ao jornal. “Estamos enterrando muitos.”

O FT cita também reportagem do Estado de SP, de 13 de abril, que mostrou que as mortes registradas como insuficiência respiratória e pneumonia no Brasil foram 2.239  a mais em março de 2020, em comparação com março de 2019. E as estimativas do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (Nois) – grupo que reúne pesquisadores da USP, PUC, UFRJ e Fiocruz, dentre outras instituições – que apontam para a existência de 12 vezes mais casos de coronavírus que os registrados oficialmente. 

Os números divulgados pelo Ministério da Saúde no último dia 19 eram de 38.654 casos, com 2.462 mortes. Por essa estimativa, já teríamos mais de 450 mil casos, ressalta o jornal inglês.

A reportagem também critica Bolsonaro. “O presidente Jair Bolsonaro é um dos poucos líderes mundiais minimizando os riscos do vírus. Ele alega que a pandemia criou um ‘clima de terror’ e criticou governadores estaduais por imporem bloqueios parciais. Na quinta-feira, demitiu seu popular ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, médico, que divergiu publicamente de seu chefe ao defender um maior distanciamento social, e que admitiu que havia mais casos do que os confirmados. ‘Estamos vendo apenas a ponta do iceberg’, disse ele no mês passado.”

De acordo com o FT, situação semelhante ocorre no México, onde até o último dia 19 havia 8.261 casos confirmados e 686 mortes. Lá, segundo o jornal, Hugo López-Gatell, subsecretário de saúde do coronavírus do país, admitiu que o nível real de infecção é pelo menos oito vezes maior.

Bolsonaro torce para que país nunca saiba número exato de mortos

Não sabemos a quantidade de mortos produzida pelo coronavírus em território nacional e talvez nem venhamos a saber - para alívio do presidente da República.

Os óbitos registrados até agora são apenas um retrato atrasado e imperfeito da situação em que estamos. Se há uma fila de vítimas fatais cujas amostras esperam para serem analisadas, outras tantas nunca vão ostentar em seus atestados a causa real de suas mortes porque não houve coleta pela escassez de testes.

Pesquisadores do Observatório Covid-19 apontaram que, quando o país registrava oficialmente 1.736 mortes, o número real estaria entre 3.800 (em uma projeção conservadora) e 15.600 (em uma mais pessimista). E o governo de Pernambuco, só para citar um exemplo fora do eixo Rio-São Paulo, ao montar uma força-tarefa para coletar sangue das pessoas mortas por problemas respiratórios, fez a letalidade dar um salto.

A situação, que traz angústia para famílias (que nunca saberão o motivo do falecimento) e desespero a gestores públicos e profissionais de saúde (que estão trabalhando às escuras para tratar pacientes e planejar o enfrentamento da crise), é um alento para Jair Bolsonaro. Pois a narrativa que tenta vender é que o grande inimigo do país não é uma pandemia assassina transmitida por contato social, mas as ações de governadores e prefeitos para reduzir a velocidade de contágio e, portanto, evitar o colapso do sistema de saúde.

Como haverá mais empregos perdidos e negócios fechados do que pessoas mortas, ele aposta na minimização da questão sanitária a fim de garantir que não comecem a lhe servir café frio antes de outubro de 2022.

Claro que seu governo apresentou com atraso e de forma insuficiente medidas para garantir alimento aos trabalhadores informais, reposição e complemento salarial aos formais e apoio a micro e pequenas empresas, mas ele convenientemente se esquece disso. Culpa apenas quarentena e não sua própria lentidão.

As hordas que realizam carreatas com buzinaços em frente a hospitais e travam a passagem de ambulâncias, pedindo o retorno à normalidade por decreto (como se o vírus respeitasse o Diário Oficial), provavelmente só se importam com mortos se eles têm seu sobrenome.

Mas a maioria racional da população consegue ponderar dados concretos na balança da vida. Se tivéssemos números de óbitos reais, dificilmente o apoio à quarentena estaria caindo (em duas semanas, foi de 76% para 68%, de acordo com o Datafolha). Por mais duro que seja o impacto econômico deste momento, é difícil ignorar o problema quando ele deixa o anonimato e ganha rosto conhecido - o instituto de sobrevivência é algo poderoso.

Bolsonaro tem pouca experiência em áreas relevantes para um presidente e não é especialista em articulação política, mas não se pode negar seu mestrado em Terceirização de Responsabilidade e o doutorado em Apropriação do Trabalho Alheio.

Conforme esta coluna adiantou no início das medidas de isolamento social, ele tentaria transferir a responsabilidade pelos impactos econômicos do isolamento social e chamar para si os frutos delas.

A quarentena em São Paulo já está causando o chamado "achatamento da curva" de contágio, ou seja, fazendo com que a pandemia se arraste por mais tempo, mas produza menos casos simultaneamente. Isso evita a superlotação de postos de saúde e hospitais, o que salva a vida não apenas dos casos graves de Covid-19, mas também de acidentados e doentes de outras moléstias - que não esperam o coronavírus passar para existir.

Porém, quanto mais ela surte efeito, reduzindo o impacto da pandemia, mais Bolsonaro irá dizer que ela não serviu para nada. Pois, para ele, isso será a prova de que a situação foi superestimada.

Em caso de aumento significativo do número de mortos, também vai tentar atacar a quarentena, dizendo que isso é a prova de que ela não funciona e que a paralisação de atividades não essenciais foi desnecessária. Irá, claro, ignorar que, exatamente por conta da tomada dessa decisão, a curva de contágio brasileira já é melhor que a dos Estados Unidos, que vive uma tragédia. Sua narrativa é ganha-ganha (para ele), sempre.

Não se pode esperar transparência de um presidente da República que, após viajar com mais de duas dezenas de infectados por coronavírus, se nega a mostrar os resultados de seus exames que, supostamente, deram negativo. Talvez pela certeza de que se tornou imunizado, segue andando em meio a multidões, quando, novamente, chamou de covarde quem se protege do vírus. Alguém precisa informá-lo, aliás, que, apesar de improvável, o risco de reinfecção não é impossível.

Para garantir que os dados mostrem uma realidade favorável à sua narrativa não é preciso encobrir números. Basta não haver testes o suficiente neste momento - o que já é o caso. Quanto menos informação que mostre à sociedade o buraco em que ela se meteu, maior sua chance de continuar terceirizando a culpa pelo caos.

O sucesso de sua estratégia depende do ruído que consegue provocar nas redes sociais, gerando desinformação, aliado ao silêncio dos atestados de óbito. É feio jogar com os mortos. Mas é sorte do presidente que os mortos não falam.


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