Semana On

Sábado 24.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

Um dia como outro qualquer

A sexta-feira em que Moro caiu, fez barulho e nada se quebrou

Postado em 22 de Abril de 2020 - Rodrigo Amém

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Sexta feira (24) foi um dia normal. Muita gente dizendo que foi "histórico", "divisor de águas" etc. Nada disso. Foi, sim, institucionalmente vergonhoso. Mas como tantos outros causos dessa administração. A queda de Moro teve o mesmo impacto do vídeo nazista da Secretaria de Cultura, que recebeu muitas notas de repúdio e teve zero consequência prática. Sim, o presidente trocou uma sub-celebridade equivocada por uma grande celebridade equivocada no comando da pasta. Mas, tirando o eventual uso da cultura como pauta para lacração em redes, Bolsonaro nunca deu a mínima pro tema. 

Ainda assim, a queda de Moro, muito menos grave que a de Mandetta em tempos de pandemia, sugou o ar das redações. Paramos, por um instante, de falar da Covid-19. Por dois segundos, nos esquecemos dos sertanejos bêbados nas lives e da final do BBB. A queda do Moro foi uma desagradável distração. Ele acusou o Presidente de coisas que já sabíamos. O Presidente respondeu acusando Moro de coisas que já sabíamos. Foi um teatro triste, só superado pelo teatro infeliz das reações institucionais. Trocentas novas notas de repúdio, meia dúzia de pedidos de impeachment expressamente endereçados para a gaveta. 

Rodrigo Maia acha que não há clima para impeachment. Outros falam que seria "um trauma institucional em tempos de crise econômica e de saúde". Bolsonaro, depois de ter tomado um cafezinho com Roberto Jefferson, age como se tivesse comprado o Centrão no Mercado Livre e esteja apenas esperando o delivery. Aliás, há quem diga que isso que lhe proporcionou a (raríssima) coragem para empurrar seu principal garoto-propaganda para fora do governo. 

Repito: a demissão de Moro é, literalmente, inconsequente. Bolsonaro vai indicar os parças dos filhos para o Ministério e o comando da PF. Vai criar uma polícia federal pelega com poder de sobra para perseguir adversários e proteger filhotes. E ninguém vai fazer nada a respeito. Ninguém. 

Tá na hora de abandonarmos esse realismo mágico de que pressão pública derruba governo. Isso aconteceu uma vez, lá na França, e não foi com coreografia e panela. Rolou guilhotina, sangue, cabeças. Desde então, virou fetiche. Quem derruba governo é quem paga "o pato". Aquele pato inflável que indica onde os manifestantes devem posar para foto. O carro de som que toca a música da coreografia da juventude neo-pentecostal. É quem paga o impulsionamento dos robôs de fake news. Esses são os que derrubam governos. E no Brasil, a agenda deles ainda está em curso. Nos bastidores, o desmantelamento dos mecanismos fiscalizatórios do governo continuam trabalhando, mesmo em Home Office. Se Paulo Guedes, importante peça de propaganda eleitoral, dá sinais de que será encostado por uma política mais... desenvolvimentista, acredite que isto se dará com amigos e aliados proporcionando serviços patrióticos a precinhos despudorados.

Seu meme, seu abaixo assinado eletrônico, seu panelaço. Nada disso importa até que os donos do pato determinem que, sim, sua opinião é útil. Até lá, os prints do Zap do Moro pra Carla Zambelli, o amigo do Carluxo na PF, as pilhas de corpos nos contêineres em Manaus: é tudo muito constrangedor, mas inócuo. 

Portanto, lembre-se. Conforme-se. Você nasceu nesse país, mas ele não te pertence. O Brasil é dos donos do pato. E a liberdade de expressão é o McLanche Feliz que lhe cabe neste banquete. Lembre-se disso, patriota.


Voltar


Comente sobre essa publicação...