Semana On

Quarta-Feira 05.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Coluna

Não acredita na pandemia? Facilitamos sua vida com um documento para você abrir mão de UTI e respirador

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 22 de Abril de 2020 - Victor Barone

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A revista Semana On quer facilitar a vida dos negacionistas que duvidam de que há uma pandemia global de covid-19, que questionam o número de vítimas da doença e creem que as estratégias de distanciamento social são estratagemas da esquerda para destruir a economia e derrubar o presidente Jard Bolsonaro. Basta assinar o documento abaixo e nos enviar por email. Assim, estas pessoas abrem mão do uso de respiradores e de internação em UTI, seja pública ou privada, em detrimento de outros pacientes. Afinal, se tudo é mentira não há perigo, tá ok?

MORO DETONA BOLSONARO

"Disse ao presidente que seria uma interferência política. E ele respondeu: seria mesmo." Em seu discurso de saída, na manhã desta sexta (24), Sergio Moro não apenas descolou definitivamente Jair Bolsonaro do combate à corrupção, mas denunciou pressão do presidente da República para manipular a ação da Polícia Federal.

E ao questionar a razão do desejo de trocar o diretor-geral da instituição sem nenhum motivo técnico, o agora ex-ministro da Justiça e Segurança Pública indicou tentativa de obstrução em investigações por parte de Bolsonaro. Na prática, Moro imputou um crime de responsabilidade, ao vivo, na TV. Ou melhor, vazou mais uma conversa comprometedora da República. Mas, desta vez, o gravador era ele mesmo.

Poucas pessoas ajudaram tanto a eleger um presidente quanto Moro. E poucas podem contribuir tanto com sua derrocada, ainda mais se os lavajatistas - base conjuntural de Bolsonaro - resolverem segui-lo.

Nesse sentido, ele posicionou o presidente abaixo daquilo que os moristas mais odeiam: o PT. Elogiou mais de uma vez a gestão de Dilma Rousseff e Luís Inácio Lula da Silva, que - segundo ele - não interferiram na Polícia Federal como o atual governo, o que possibilitou - em sua avaliação - o combate à corrupção. Nada ofende mais Bolsonaro do que essa afirmação.

O então juiz da Lava Jato foi um dos principais responsáveis por impedir a candidatura do ex-presidente Lula, correndo com a polêmica condenação por conta do Triplex, no Guarujá, para que uma decisão em segunda instância o tirasse do páreo - o que veio a acontecer. O líder petista era o único que derrotava o atual presidente nas pesquisas de intenção de voto.

Moro chegou a interferir na campanha eleitoral diretamente quando, seis dias antes do primeiro turno de 2018, divulgou trechos de uma delação de Antonio Palocci. A própria força-tarefa dos procuradores explicou que elas não traziam nada de útil para a investigação. Mas algo que não tem força nos autos do processo pode ter impacto na política.

Tudo isso foi bem resumido pelo próprio Bolsonaro, no dia 8 de novembro do ano passado, quando afirmou: "Se essa missão dele não fosse bem cumprida, eu também não estaria aqui, então, em parte, o que acontece na política do Brasil devemos a Sergio Moro".

Moro, em seus quase 16 meses no cargo, não conseguiu deixar nenhuma marca relevante. Seu pacote contra o crime, por exemplo, fomentava a letalidade policial sem reduzir a violência e teve que ser corrigido pelo Congresso Nacional.

Ficou mais conhecido pelas bolas nas costas que tomou do que pelos gols que fazia. Chegou à suprema humilhação de agir como advogado do presidente quando o nome dele foi citado na investigação da execução da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes.

Mas, mesmo com a divulgação de suas conversas com a força-tarefa da Lava Jato pelo site The Intercept Brasil e veículos parceiros, Sergio Moro manteve sua popularidade praticamente intocada, enquanto Bolsonaro via a sua ir caindo à medida que não entregava o crescimento econômico e a queda do desemprego no ritmo prometido. Inseguro, o presidente adotou o hobby de tratar Moro como inimigo. Agindo assim, acabou por transformar a paranóia em fato consumado.

Desde que assumiu, ele vem tentando engolir instituições de monitoramento e controle, como a Polícia Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Receita Federal, Procuradoria-Geral da República em nome de seu projeto de poder e da proteção de seus filhos, envolvidos em desvios de recursos públicos via rachadinhas e em linchamentos digitais. 

A disputa com o ministro da Justiça, Sergio Moro, para além de suas dimensões psiquiátrica e eleitoral, se insere nesse processo e na iminência de responsabilização de seus filhos. O presidente sabe que não consegue controlar a base da Polícia Federal, mas - como mesmo disse Moro - ele deseja ter acesso a informações sigilosas. E, com isso, garantir a seu clã vantagem política sobre os adversários.

Seu discurso de saída fez um balanço (muito generoso) de sua gestão à frente do ministério, mas focou em mostrar que Bolsonaro é um dano - até maior que o PT - para o combate à corrupção.

Com isso, adubou o caminho do impeachment do ex-chefe e começou a pavimentar o seu para as eleições de 2022. Ele pode negar à vontade, mas o pronunciamento desta sexta não foi de saída, mas de alguém que se lança à Presidência da República.

Por Leonardo Sakamoto

DELAÇÃO PREMIADA

Dizer que Moro pediu demissão do cargo de ministro da Justiça é muito pouco para traduzir o que aconteceu em Brasília no final da manhã desta sexta-feira (24). Moro não se demitiu, ele se reinvestiu na condição de juiz para emitir uma sentença contra Jair Bolsonaro. Condenou o presidente pelo crime de tramar o uso político da Polícia Federal para abafar investigações, inclusive inquéritos que correm no Supremo Tribunal Federal.

Desde o início da crise do coronavírus, quando Bolsonaro começou a conspirar contra si mesmo de forma mais intensa, o país receava que surgisse uma encrenca terminal, capaz de empurrar a conjuntura para o caos. Temia-se o aparecimento de um fato que justificasse o uso do ponto de exclamação que se escuta quando as pessoas dizem "não é possível!" Pois bem, o sinal foi dado.

A saída de Moro, chutando a porta, ficará gravada no enredo da tragicomédia em que Bolsonaro transformou a sua Presidência como um marco da derrocada. De agora em diante, tudo é epílogo para o capitão. Na prática, Moro cancelou a primeira posse de Bolsonaro. Sua despedida marca a reinauguração do governo. O presidente é o mesmo, só que virado do avesso.

Ao esmiuçar as conversas antirrepublicanas em que Bolsonaro lhe disse que desejava aparelhar a Polícia Federal para anestesiar os inquéritos que rondam o clã presidencial, Moro arrancou da cena o cordeiro antissistema que prevaleceu na campanha de 2018. Materializou-se na sentença do agora ex-ministro um lobo sistêmico que aparelha a PF e negocia com a alcateia corrupta do centrão uma a blindagem política contra o derretimento do seu mandato.

Moro como que retirou do baralho de Bolsonaro a carta da reeleição. Acomodou no lugar o curinga do impeachment. Içado ao primeiro escalão do governo como símbolo do combate à corrupção, Moro ofereceu no seu último ato no ministério farto material para o enquadramento de Bolsonaro no crime de responsabilidade. Deu a Bolsonaro uma aparência de sub-Lula ao realçar que nem mesmo os governos do PT ousaram converter a PF num órgão companheiro.

Ao informar que vai ao mercado à procura de emprego, Sergio Moro declarou que continuará à disposição do país. Com a popularidade na casa dos 50%, contra cerca de 30% atribuídos ao agora ex-chefe, Moro deixou no ar o aroma de um flerte com as urnas de 2022. Bolsonaro criou um pesadelo do qual terá dificuldade para despertar.

Por Josias de Souza

IMPEACHMENT

Após as acusações feitas por Moro, parlamentares e juristas avaliam que aumentam as possibilidades de impeachment do presidente. Para além das implicações políticas, as informações reveladas por Moro podem ter consequências jurídicas.

Para o professor de direito público Antonio Rodrigo Machado, o discurso do agora ex-ministro é “gravíssimo” e oferece argumentos jurídicos para um impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Na avaliação de Machado, há fortes indícios de que o presidente praticou crime de responsabilidade e crimes comuns, o que exige investigação.

“Moro deixou nas entrelinhas que houve tentativa de interferência do presidente nas investigações da Polícia Federal. Isso já vinha sendo noticiado pela imprensa e pode ter enquadramento de crime de responsabilidade, por improbidade administrativa”, explicou o jurista. “É o momento mais difícil do bolsonarismo. Isso também oferece argumento político para eventual abertura de um processo de impeachment”, acrescentou.

Antonio Rodrigo Machado ressalta que o papel da PF é de investigação policial, estatal. “Não pode ser confundido com trabalho governamental”, afirmou. Segundo ele, o papel do Ministério da Justiça é definir políticas públicas, privilegiando, por exemplo, a destinação de orçamento público. Pedir informações antecipadas sobre operações policiais e investigações criminais no Supremo Tribunal Federal (STF), como pediu o presidente, conforme denúncia do ex-ministro, é conduta ilegal, observa o jurista.

O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, acompanhou o pronunciamento de Moro. Não gostou do que ouviu, elogiou o ex-ministro e recorreu ao bordão que “de tédio não morremos”.

“Tudo que foi colocado é muito ruim. O ex-ministro Moro foi muito elegante e tem minha admiração. Tem que se manter a independência dos órgãos, é a segurança do cidadão”, disse Marco Aurélio sobre o conteúdo das revelações de Moro.

Sobre as consequências que podem alcançar o conteúdo da fala de Moro, que revelou ações de ingerência e tentativas de Bolsonaro em interferir na PF e também ter alguma interferência ao que ocorre no STF que o envolve e sua família.

“O amanhã dirá, vamos aguardar. Não alcançou o Supremo. O Supremo é supremo. Pode inclusive cassar atos do presidente da República”.

O ministro foi perguntado se os fatos apontados por Moro podem levar ao impeachment do presidente Bolsonaro. Respondeu: “Com a palavra, o Poder Legislativo”.

Marco Aurélio aproveitou e comentou sobre a chegada de Bolsonaro ao poder. Anteviu os riscos. “Num seminário, no verão de 2017 discorri sobre risco de se eleger um presidente populista de direita. Temia pelo Brasil. Foi eleito então um deputado federal, o Jair Bolsonaro, que passou o tempo todo batendo em minorias e fez da vida parlamentar aquele temor. Não foi premonição, decorre da minha visão prognóstica e o que tenho acumulado”

NAUFRÁGIO

Com reações negativas à saída de Sergio Moro do comando do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, parlamentares da oposição consideram que as acusações feitas contra o presidente, numa espécie de “delação premiada”, aproximam o governo de seu fim. Da esquerda à direita, a saída de Moro é alvo de críticas.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi direto ao assunto: “Que renuncie antes de ser renunciado”, escreveu o tucano nesta tarde de sexta, 24, no Twitter, em referência ao futuro do presidente Jair Bolsonaro após o ministro Sérgio Moro acusar o chefe do Planalto de interferir politicamente na Polícia Federal para obter acesso a informações sigilosas e relatórios de inteligência.

Duas semanas atrás, FHC se colocou contra o impeachment de Bolsonaro à luz das posturas erráticas de Bolsonaro diante da pandemia do novo coronavírus. “Eu sou contra ele, não votei nele. Mas não acho que esse seja a hora. Inclusive, espero que o presidente aprende no exercício do cargo que precisa tomar mais atenção e falar com menor intolerância”, afirmou no dia 9 à rádio Jovem Pan. Na ocasião, falou das chances de sucesso do governador João Doria na próxima disputa presidencial. “É cedo para pensar em candidatura, mas ele é quem tem mais condições analisando um cenário com ACM Neto, Luciano Hulk, Rodrigo Maia, lideranças do PT no Nordeste ou até Fernando Haddad”.

O deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ) disse que o discurso de saída de Moro implodiu o governo Bolsonaro. “[Moro] Afirmou que o presidente quer controlar a PF para deixar impunes os crimes da família e para atacar a Democracia e o Estado de Direito”, disse Freixo. Para a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), o pronunciamento de Moro foi “o ‘Grand Finale’ de um Governo que nunca começou”.

O líder do PSB na Câmara, Alessandro Molon (RJ), afirmou que o Brasil continua sem governo. “A saída de Moro mostra que o presidente não consegue sequer manter seus aliados próximos, imagine costurar saídas pra crise. Brasil sem direção!”

Para o líder do DEM na Câmara, Efraim Filho (PB), Sergio Moro deu exemplo de coragem, equilíbrio e caráter. “Renunciou ao cargo de juiz federal para servir ao país e sua saída significa decepção no sonho de milhões de brasileiros. Notícia ruim para o governo e pior para o Brasil.”

No Senado, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) disse que as acusações precisam ser apuradas”. “Vamos averiguar todas as declarações do agora ex-ministro Sérgio Moro e tomar as medidas cabíveis”, disse o senador da oposição.

O deputado Angelo Coronel (PSD-BA), presidente da CPMI das fake news, afirmou que Moro sai deixando claro que Bolsonaro quer interferir na PF. “Por quê? Será que a equipe atual descobriu algo que está incomodando o governo? E disse que Bolsonaro quer alguém de sua confiança na PF para obter diretamente informações. Qual objetivo disso? Não é papel da PF esse tipo de serviço”, afirmou o deputado.

O Podemos, sigla ligada à Lava-Jato, afirmou que a saída de Moro do governo representa o afastamento do governo Bolsonaro do sentimento popular e do combate à corrupção. “É a derrota da ética”, disse a presidente do partido, deputada Renata Abreu (SP). O líder do Podemos na Câmara também se manifestou. “O Governo perde tecnicamente um dos seus melhores e mais respeitados nomes, e o combate à criminalidade e à corrupção sofre um duro golpe”, disse o deputado Léo Moraes (PR).

O líder do PSDB na Câmara, deputado Carlos Sampaio (SP), disse que a demissão de Moro é uma sinalização muito ruim à sociedade. “Sua saída não só é uma perda considerável ao governo e ao país, como pode indicar uma mudança preocupante na condução dos assuntos pertinentes ao Ministério da Justiça. É lamentável que o governo, em um momento de crise como este, perca um aliado de tamanha envergadura moral”.

Ex-líder do governo Bolsonaro no Congresso, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), diz que o teor das declarações de Sergio Moro é “avassalador” e que o presidente “não cumpriu com a palavra” de dar carta branca ao ministro e preservar a autonomia da PF.

Líder do partido pelo qual Bolsonaro foi eleito e depois rompeu, o PSL, no Senado, Major Olimpio (PSL-SP) disse que a saída de Moro deixa o “Brasil derrotado”. O senador acredita que o ex-ministro se fortalece para as eleições presidenciais de 2022:

O deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), fundador do MBL (Movimento Brasil Livre), classifica a pressão de Bolsonaro para interferir na Polícia Federal como “traição à direita” por não fazer um genuíno combate à corrupção.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que se tornou protagonista do governo durante os trabalhos contra a pandemia de coronavírus, adotou um tom mais positivo sobre a saída do ex-colega de governo. Moro apoiava a política de isolamento social do Ministério da Saúde e não o discurso de Bolsonaro por flexibilizar o confinamento. “Outras lutas virão”, tuitou Mandetta.

Para o fundador do partido Novo e candidato à Presidência em 2018 João Amoêdo, é “inaceitável” o presidente tentar ter acesso a informações privilegiadas e, portanto, controlar investigações.

Mesmo entre aliados próximos de Bolsonaro, o clima foi de luto. A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) preferiu não comentar as acusações de Moro contra o presidente, mas lamentou a saída do ministro.

A Frente Parlamentar da Segurança Pública da Câmara diz que recebeu com “extremo pesar” a notícia de saída de Moro. Em nota assinada pelo deputado federal Capitão Augusto (PL-SP), presidente da bancada, manifestou preocupação com “postura intransigente” do presidente em trocar o comando da PF à revelia do então ministro.

COLLOR AVISA

O senador Fernando Collor, eleito presidente da República em 1989, enxerga similaridades entre o seu governo, interrompido por um processo de impeachment em 1992, e a gestão de Jair Bolsonaro. "Eu já vi esse filme e não foi bom", anotou Collor nas redes sociais.

Em timbre didático, Collor escreveu: "Cabe ao presidente da República reunificar o país." Em tom de lamento, ele acrescentou: "Mas o que estamos vendo é a divisão entre pessoas, famílias e amigos. Isso é muito ruim." Arrematou: "O problema é grave e de consequências imprevisíveis."

Um dos personagens do "filme" estrelado pelo ex-presidente, Roberto Jefferson, mandachuva do PTB, também retornou ao palco. Ele integrou o que se convencionou chamar na época de "tropa de choque" de Collor no Congresso. Posteriormente, fez história ao denunciar o mensalão, escândalo que lhe rendeu uma sentença de sete anos de cadeia por corrupção e levou a cúpula do PT para a cadeia.

Agora, Jefferson alia-se a Bolsonaro para denunciar uma hipotética conspiração do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para cavar o impeachment do capitão. "Está chegando um momento de radicalização", antevê o neo-aliado de Bolsonaro.

Jefferson soa dramático: "A pressão é tão grande que, se tentarem, num movimento de rua, sustentar um pedido de impeachment, vão ter que enfrentar a turma do Bolsonaro. E aí o pau vai cantar. Quando você enfrenta a força, você tem que opor a força a ela. Não tem saída."

ALICE

Ministro palaciano que cuida da coordenação política do governo, o general Luiz Eduardo Ramos vive entre os dois mundos de Alice: o País das Maravilhas e o País do Espelho. Ele só não suporta viver no Brasil do coronavírus, que ultrapassará nesta quinta-feira a marca de 3 mil cadáveres.

O general está abespinhado com a imprensa. Acha que o noticiário traz "uma cobertura maciça dos fatos negativos." Está incomodado com o excesso de cadáveres e esquifes. "No jornal da manhã, é caixão, é corpo. Na hora do almoço, é caixão novamente, é corpo. No jornal da noite, é caixão e é corpo."

É preciso divulgar notícias positivas, encareceu o general. Coisa digna de Lewis Carroll e do País das Maravilhas criado por ele para sua personagem Alice. Nos telejornais do ministro Ramos, haveria um vácuo no qual a realidade deixaria de existir. Não restaria senão a fantasia.

No universo criativo de Carroll, Alice, depois de visitar o País das Maravilhas, decidiu atravessar o espelho de sua casa. Entrou no País do Espelho, onde enxergou tudo ao contrário do que realmente é. É nesse país que vive o general Ramos.

Atrás do espelho do Planalto, há um presidente que vê a pandemia como "gripezinha", trata isolamento social como uma inutilidade e finge não enxergar o monturo de corpos —"Eu não sou coveiro!", desconversa.

No Brasil maravilhoso idealizado pelo general Ramos, o noticiário refletiria a realidade invertida do país do espelho, onde brilha Bolsonaro. Quem ousasse mostrar o mundo real passaria por impatriótico. Beleza. Agora só falta descobrir uma maneira de esconder os caixões e os corpos.

Por Josias de Souza

COVEIRO

O presidente Jair Bolsonaro fez mais uma declaração desastrada sobre as vítimas do novo coronavírus. Ele se irritou com a pergunta de um jornalista que indagou se ele sabia o número de mortes registradas nas últimas 24 horas no país. “Eu não sou coveiro!”, afirmou o presidente. O episódio aconteceu em sua habitual parada para falar com apoiadores e a imprensa, na porta do Palácio da Alvorada. No momento da entrevista, o Ministério da Saúde ainda não havia corrigido o número de mortos, divulgado com um erro nesta segunda-feira 20. Inicialmente, o órgão, que acaba de ser assumido por Nelson Teich, havia registrado 383 novas mortes, o que seria um novo recorde diário. Pouco depois, a pasta voltou atrás e divulgou um número bem menor, de 113 óbitos.

REPRIMIDO

O ex-deputado federal e ativista Jean Wyllys fez uma publicação em suas redes respondendo a uma postagem do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) que atacava os movimento LGBT. “As mentiras desse canalha dizem mais sobre suas próprias fantasias sexuais reprimidas e seu complexo de castração. Escroque!”, escreveu o ativista. “Ele e sua família mentem de maneira compulsiva e sem disfarce porque até agora não foram responsabilizados por suas mentiras, fake news e difamação”, completou.

O filho do presidente Jair Bolsonaro afirmou que: “No Brasil temos: Marcha das vadias enfiando imagem de santo no ânus publicamente; Parada Gay com tanta orgia que é reprovada inclusive por homossexuais. Mas o Presidente falar 2min pedindo respeito à vontade popular é autoristarismo. Isso cansa, isso revolta”.

A publicação de Eduardo, que mais uma vez apela à pauta de costumes para proteger o presidente, foi feita após as críticas sofridas pelo ex-capitão em razão da participação em ato pró-intervenção militar.

ARREPENDIDO

Em entrevista à Folha, o governador de São Paulo, João Doria, afirmou ser um dos arrependidos por ter votado no presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido-RJ). “Fiz campanha me posicionando contra esquerda, o PT. O outro candidato era Jair Bolsonaro. Por ser candidato, eu tinha que ter um lado, que não poderia ser o do nulo ou em branco. Nunca fiz isso. Mas não tinha a perspectiva de ter um presidente que pudesse vir a ter comportamentos tão irresponsáveis, tão distantes da verdade, tão condenáveis sobretudo numa situação de pandemia como essa”, afirmou Doria.

NO MUNDO DA LUA

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi às redes sociais para alertar sobre um “plano comunista”, o qual ele chama de “comunavírus”, de apropriação da pandemia do Covid-19 para “subverter a democracia liberal”. “Não bastasse o Coronavírus, precisamos enfrentar também o Comunavírus. No meu blog, analiso o livro ‘Virus’; de Slavoj Žižek e seu projeto de usar a pandemia para instaurar o comunismo, o mundo sem nações nem liberdade, um sistema feito para vigiar e punir”, escreveu o ministro no Twitter. Em seu blog, o ministro de Relações Exteriores aproveita para atacar a Organização Mundial da Saúde (OMS) e diz que transferir poderes nacionais à organização não tem eficácia comprovada. Ele diz ainda que o “plano comunista” em curso pretende utilizar a OMS como “primeiro passo na construção da solidariedade comunista planetária”.

Depois de semanas de tensão entre membros do governo federal e a embaixada da China no Brasil, o embaixador chinês Yang Wanming publicou mensagens diplomáticas na manhã desta terça-feira, 21, nas redes sociais em comemoração ao aniversário de Brasília. “Precisamos, nesse momento, que a amizade sino-brasileira continue a florescer”, disse em vídeo. 

O jornal britânico Financial Times reportou que os atritos que integrantes e aliados do governo têm causado com a China nas últimas semanas tornaram as relações com o país tensas e provocam preocupação em especialistas com os laços econômicos do Brasil com o seu principal parceiro comercial. 

“A embaixada chinesa em Brasília adotou uma abordagem pouco ortodoxa da diplomacia das mídias sociais: seus enviados têm divulgado suas reuniões, não com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, mas com alguns de seus rivais políticos, incluindo o ministro da Saúde que ele demitiu recentemente”, inicia a publicação. Segundo analistas ouvidos pelo jornal, a tensão vem em má hora, quando o Brasil entra em recessão e depende da China para comprar equipamentos de combate ao coronavírus.

O jornal cita os episódios em que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, desferiram ataques contra o país asiático considerados graves pelas autoridades chinesas como incitadores da crise diplomática.

VALE TUDO POR DINHEIRO

O apresentador e editor-chefe do programa Conexão Repórter, do SBT, Roberto Cabrini, foi parar entre os assuntos mais comentados do Twitter, após afirmar que sobram vagas nos nossos hospitais e que “o Brasil apresenta o segundo maior caso de sucesso no controle do coronavírus, atrás apenas da Coreia do Sul”. Cabrini disse ainda ser possível que, “daqui a um ano, mais do que pandemia, estejamos falando sobre o alarmante número de contratos sem licitação, assinados em caráter de emergência para compras de equipamentos médicos e produtos de proteção superfaturados”. “O número de pacientes recuperados da Covid-19 no Brasil, não sei se você sabe, é seis vezes maior do que o número de vítimas fatais”, disse ainda o apresentador.

GENTE DE BEM 1

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro agrediram ao menos quatro pessoas durante o ato que pediu intervenção militar e o fechamento do Congresso em Porto Alegre no último dia 19. Um dos vídeos, captado por um fotógrafo da RBS, mostra homens vestidos com as cores verde e amarela agredindo duas pessoas de vermelho nas proximidades do Comando Militar do Sul, nas Rua dos Andradas. Um deles, o servidor público do Hospital de Clínicas de Porto Alegre Paulo Miguel Rempel, desfere pelo menos dois socos contra uma mulher. No final do vídeo, o fotógrafo também é agredido.

Paulo Miguel Rempel vive desde 2007 com “auxílio-doença” após ser diagnosticado “com Transtorno Afetivo Bipolar episódio atual misto e Transtornos Mentais e do comportamento devidos ao uso da cocaína – síndrome de dependência”.  

GENTE DE BEM 2

O fotógrafo Lucas Landau, da Agência Reuters, fez uma imagem no último dia 19 flagrando um policial apontando a arma para moradores da favela do Vidigal, no Rio de Janeiro, que se opunham à carreata bolsonarista contra o isolamento social que passava pela região.  “Um policial aponta uma arma em direção a casas da favela do Vidigal que jogavam ovos e objetos em carros que participavam de carreata pró-Bolsonaro e a favor da reabertura do comércio durante a pandemia do Covid-19 no Rio. Ampliando a foto é possível ver que o policial não está com o dedo no gatilho. Nenhum tiro foi disparado enquanto eu estive lá”, relatou o fotojornalista em seu Instagram.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Um policial aponta uma arma em direção a casas da favela do Vidigal que jogavam ovos e objetos em carros que participavam de carreata pró-Bolsonaro e a favor da reabertura do comércio durante a pandemia do Covid-19 no Rio. Ampliando a foto é possível ver que o policial não está com o dedo no gatilho. Nenhum tiro foi disparado enquanto eu estive lá. Para @reuters. A police officer points his gun during a motorcade in a protest against Rodrigo Maia and Rio de Janeiro Governor Wilson Witzel's measures on the coronavirus disease (COVID-19) outbreak and in support of Brazil's President Jair Bolsonaro, in Rio de Janeiro, Brazil. April 18, 2020. REUTERS/Lucas Landau TPX IMAGES OF THE DAY #onassignment #carreata #próbolsonaro #manifestação #covid_19 #coronavirus #riodejaneiro #vidigal #brazil #brasil

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GENTE DE BEM 3

Repetindo a ação feita por Adolf Hitler na Alemanha nazista, que instituiu o uso da estrela de Davi para identificar os judeus – considerados “inimigos internos” -, a socialite e empresária Cristiane Deyse Oppitz sugeriu identificar com “fita vermelha” as pessoas que estão seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) ficando em isolamento social por causa pandemia do coronavírus. “As pessoas que não querem sair do confinamento, as pessoas que não querem trabalhar, fazer a economia girar, porque o mais importante é a vida, marquem ou com um laço vermelho na porta ou quando for sair coloque uma fita vermelha. Aí nós vamos identificar você como pessoa que não quer fazer parte deste grupo que não quer trabalhar”, diz a socialite em vídeo nas redes sociais”, afirma ela.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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GENTE DE BEM 4

Exercer o ofício de jornalista ficou um pouco mais perigoso nestes tempos em que a avenida Brasil cruzou com outras vias, digitalizadas e ferozes. Agora, um servidor público do governo do Distrito Federal (GDF) se sentiu no direito de desafiar a lei para constranger repórteres da TV Globo. O autor da promessa de recompensa é Marcos Aurélio Neves do Rego Sales, que é “agente socioeducativo” da Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal. No Facebook, Marcos Sales ostenta tanto a condição de funcionário da Secretaria de Justiça e Cidadania quanto uma foto em que divulga o “Aliança pelo Brasil”, o partido que o presidente Jair Bolsonaro tenta criar. Marcos Sales responderá a processo administrativo, que vai apurar se ele descumpriu o Estatuto do Servidor Público do Distrito Federal (Lei Complementar 840/2011). O estatuto diz que poderá incorrer em “responsabilidade civil”, ficando assim sujeito aos eventuais danos materiais decorrentes do seu ato, quem praticar ato que “resulte em prejuízo ao erário ou a terceiro”.

FRASES DA SEMANA

“Não deveria trocar só o diretor, deveria trocar o ministro. […] O que ele fez até hoje de concreto? Nada. Se sair, já vai tarde”. (Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, sobre a possível demissão do ministro Sérgio Moro e a troca do diretor-geral da Polícia Federal) 

“No jornal da manhã é caixão e corpo. No da tarde, caixão, corpo. No da noite, caixão, corpo. Tem tanta coisa positiva acontecendo. Vamos divulgar o número de curados”. (Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria do Governo, que passa a acumular o Ministério das Boas Notícias) 

“Só quem está gritando é a Casa Grande. Arrumou o quarto dela, a despensa está cheia. Tem seu próprio hospital. Lamenta muito o que está acontecendo, mas quer saber quando o engenho vai voltar a funcionar”. (Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde) 

“A lembrança que se deve fazer ao presidente é essa: a Constituição governa quem governa. Ela governa permanentemente quem governa transitoriamente. Então, um presidente ‘constituicida’ é uma contradição dos termos.” (Carlos Ayres Brito, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal) 

“Eu estou aqui porque acredito em vocês. Vocês estão aqui porque acreditam no Brasil. Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. O que tinha de velho ficou para trás. Nós temos um novo Brasil pela frente.” (Jair Bolsonaro, em ato golpista, em Brasília) 

“Em algum momento, como já estamos vendo em unidades hospitalares, não vou mais ter onde colocar os corpos”. (Wilson Lima, PSC, governador do Amazonas, onde a letalidade do coronavírus ultrapassa os 8,4%) 

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Com informações de Leonardo Sakamoto, Josias de Souza, Ricardo Noblat, Reinaldo Azavedo, Carta Capital, Outra Saúde, Sul 21, o Globo, BR-18, Folha de SP, Fórum, Veja, Dora Kramer, BRPolítico, Vera Magalhães, Marcelo de Moraes e Radar


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