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Sábado 11.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Coluna

Entre folhas e frames

Mesmo na atual conjuntura tecnológica, carregada de assustadoras profecias sobre o desaparecimento do livro enquanto arte e suporte do conhecimento, o audiovisual ainda o considera em elevada conta

Postado em 22 de Abril de 2020 - Clayton Sales

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Trilby era surda. Gostava de cantar mas o problema auditivo a impedia de discernir sobre sua afinação. As pessoas rejeitavam suas tentativas de soltar a voz. Até que o maquiavélico músico Svengali a convence a se deixar hipnotizar e assim ganhar a precisão nas notas que falta a sua voz magnífica. Ela passa a cantar nas noites, na boemia que lhe trouxe um misto de glória e ruína. Então, esse processo tem um preço: a saúde de Trilbly, que acaba morrendo. A história foi publicada pelo escritor francês George Du Maurier em 1894 e ganhou críticas, principalmente pela sua abordagem conservadora em relação à mulher. George Orwell a considerava também antissemita. O fato é que um grupo de franceses considerou a obra literária interessante para um experimento que se tornaria comum naquele final de século 19. Graças ao cinematógrafo, novidade midiática da época, foi concebido um minúsculo vídeo reconstituindo uma passagem de alguns parágrafos de "Trilby e o Pequeno Billee". Se os 22 segundos produzidos sem som e com baixa nitidez aos olhos em alta resolução de hoje foram apenas uma experiência breve, eles também representaram o início de um enlace que marcaria a trajetória do cinema. "Trilby e o Pequeno Billee" (1896) foi o primeiro filme que se tem registro concebido a partir da adaptação de um livro. Desde então, os livros se tornaram inesgotável fonte de histórias para roteiristas de cinema.

Neste mês, é celebrado o Dia Mundial do Livro, em referência às datas de falecimento de dois mestres da Literatura universal: Miguel de Cervantes e William Shakespeare, que morreram em abril de 1616. O escritor espanhol foi autor do célebre "Dom Quixote", que conta a história do fidalgo que resolve tentar viver as aventuras de seus bravos heróis da literatura mas a realidade estraga sua fantasia. Um enredo cômico que não escapou das lentes do cinema. Foram 28 adaptações audiovisuais desde 1906. Uma delas é o musical "O Homem de La Mancha" de Artur Hiller" (1972), com Peter O'Toole e indicações ao Oscar e Globo de Ouro. Shakespeare também recebeu versões cinematográficas de várias obras, perfazendo uma rica interface entre literatura, teatro e cinema. Uma das mais aclamadas é "Romeu e Julieta" (1968), baseado no famoso romance que narra a história de amor entre jovens de famílias rivais e termina de maneira trágica. Dirigido por Franco Zeffirelli, com Olivia Hussey e Leonardo Whiting no elenco, o longa-metragem ítalo-britânico faturou dois Oscars, três Globos de Ouro e um BAFTA.

Todos os gêneros literários foram contemplados pelo encanto do cinema, desde o drama e o mistério, até a comédia e o terror. A ficção científica também guarda um capítulo especial nessa jornada entre o livro e o cinema por ser um dos mais complexos tipos de literatura. Transformar suas obras em filme foi o desafio assumido por realizadores como Georges Meliés, que adaptou "Da Terra à Lua" de Julio Verne e "O Primeiro Homem na Lua" de H.G. Wells. A partir de um processo que remete à elaboração cênica do teatro, nasceu a produção pioneira da ficção científica no cinema, chamada "Viagem à Lua" (1902). Com cerca de 16 minutos, esse curta-metragem descreve a jornada de exploradores espaciais ao satélite natural da Terra, no qual encontram habitantes hostis e são obrigados a retornar. Bem antes de Neil Armstrong, o primeiro passo para a humanidade já havia sido dado pelos personagens dos livros de Verne e Wells, e pelos colonizadores escorraçados da película de Meliés. Obras como "2001 – Uma Odisseia no Espaço" de Arthur C. Clarke, colaborador no roteiro da adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick lançada em 1968, e "Androides sonham com carneiros elétricos?" de Philip K. Dick, que serviu de inspiração para "Blade Runner" (1982) de Ridley Scott, não apenas se tornaram clássicos do cinema de ficção científica, como ajudaram a projetar os produtos literários dos quais nasceram.

Em terras latino-americanas, o cinema também se rendeu aos encantos dos livros. Segundo trabalho sul-americano a vencer um Oscar de melhor filme estrangeiro, o argentino "O Segredo de Seus Olhos" (2009) é uma adaptação de "La Pergunta de Sus Ojos", romance de Eduardo Sacheri, que contribuiu no roteiro ao lado do diretor Juan Jose Campanella, estratégia que costuma resultar em êxito no delicado processo de transformar histórias publicadas nos livros em produções cinematográficas. Isso não aconteceu em "O Amor nos Tempos do Cólera" (2007), baseado no magnífico romance de Gabriel García Marquez e que teve a direção de Mike Newell. A recepção negativa da crítica atesta o quanto a tarefa de transformar livro em filme é espinhosa. Como ajustar a riqueza e os detalhes contidos na liberdade dos livros para os critérios técnicos, logísticos e orçamentários do cinema? A literatura brasileira também está cheia de exemplos interessantes, como "Macunaíma" (1969) de Joaquim Pedro de Andrade, baseado no clássico de Mário de Andrade, uma fábula fantástica sobre o processo de desculturação e antropofagia simbólica de um brasileiro nativo, e "Dona Flor e seus dois Maridos" (1976) de Bruno Barreto que buscou nas páginas de Jorge Amado a divertida e sensual história da bela viúva que se casa novamente mas se divide entre o esposo de hábitos aceitáveis mas ruim de cama e o fantasma do marido morto, um safado que, porém, a satisfaz entre os lençóis. Em ambos os casos, a compreensão total e pormenorizada do espírito da obra literária foi o ponto inicial para a construção eficiente das tramas e personagens.

Mesmo na atual conjuntura tecnológica, carregada de assustadoras profecias sobre o desaparecimento do livro enquanto arte e suporte do conhecimento, o audiovisual ainda o considera em elevada conta. Escritores mundialmente populares como Stephen King seguem negociando os direitos de suas obras para os produtores de cinema e de plataformas digitais de filmes, como a Netflix, que realizou "Jogo Perigoso" e "1922", inspirados em seus livros. No entanto, uma questão pode ser levantada a título de saborosa provocação: por que a longínqua parceria entre a literatura e as artes audiovisuais ainda não foi capaz de gerar uma versão de "Cem Anos de Solidão" (1967)? Em 2019, a Netflix anunciou a parceria com Rodrigo García e Gonzalo García Barcha, filhos de Gabriel García Márquez, para a produção de uma série baseada na hipnótica e sinuosa saga dos Buendía, habitantes da fictícia cidade de Macondo. De acordo com Rodrigo, seu pai jamais cogitou vender os direitos da obra por julgá-la incompatível com o tempo médio de um filme ou série de televisão. Desta vez, o herdeiro legal de Gabo tem confiança que a evolução do audiovisual agora permite que o livro mais amado do realismo fantástico ganhe seus primeiros frames. E assim, quando essa produção chegar ao catálogo do serviço de streaming, testemunharemos a renovação dos votos entre o livro e o audiovisual, entre as páginas que folheamos e os quadros em movimento que assistimos. Votos de amor eterno. 


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