Semana On

Domingo 09.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Poder

Um fantoche em meio a tragédia

Novo ministro da saúde assume dizendo sim ao anticientificismo do presidente e sem poder indicar seus próprios assessores

Postado em 17 de Abril de 2020 - Maíra Mathias e Raquel Torres (Outra Saúde), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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O oncologista Nelson Teich foi recebido no Palácio do Planalto às 9h de quinta, 16. Lá, uma pequena multidão participou da sua sabatina: estiveram presentes os ministros militares, o advogado-geral da União, o diretor-presidente da Anvisa e até o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB) – entidade que fez intenso lobby pela indicação. Teich foi ao encontro com um discurso pronto: o de que era um “equívoco” saúde e economia não trabalharem juntas – pois “a saúde não vive sem a economia” e “a economia não vive sem a saúde”. Foi prontamente convidado para assumir o Ministério da Saúde. Primeiro, pediu tempo pra consultar a família. Depois, avisou que aceitava o convite.

A saída de Luiz Henrique Mandetta do governo se diferenciou das anteriores até na forma. Quando decidiu tirar Ricardo Vélez Rodríguez, Bolsonaro foi ao Twitter anunciar que havia escolhido Abraham Weintraub como substituto. No caso do falecido Gustavo Bebianno, a intensa fritura aconteceu na mesma rede social, mas foi articulada pelo filho 02, Carlos Bolsonaro. Desta vez, o presidente ligou para o gabinete do ex-ministro e o chamou ao Planalto. Uma vez com o pé fora do gabinete presidencial, Mandetta não teve dúvidas: em um gesto político claro, se antecipou e anunciou via Twitter a própria exoneração – frisando de quem era a responsabilidade: “Acabo de ouvir do presidente Jair Bolsonaro o aviso da minha demissão do Ministério da Saúde.” Em meia hora, a postagem que fala do SUS recebeu 127 mil curtidas.

No Planalto, o ex-ministro foi recebido por Bolsonaro e pelo titular da Secretaria de Governo, general Augusto Heleno. Em entrevista ao SBT, o presidente relatou que foi uma conversa tranquila “de 30 minutos”. Mandetta, que disse que a conversa foi “amistosa” e “agradável”, saiu de lá diretamente para o Ministério da Saúde, onde concedeu entrevista à imprensa com mensagens aos servidores e equipe. “Não tenham medo. Não façam um milímetro diferente do que vocês sabem fazer”, disse. 
Depois, ao pendurar seu retrato na galeria de ex-ministros em uma cerimônia mais íntima que excluiu quase toda a imprensa, ele foi direto. Citando a “grande massa trabalhadora desse país”, questionou: “O que é falar para eles: ‘vão trabalhar, por que temos que passar por isso rápido’? Se passar por isso rápido significa estressar muito além do razoável o sistema de saúde?”. O SUS, segundo Mandetta, “vai pagar a conta de séculos de negligência, de favela, de falta de saneamento básico, de falta de cuidado com o povo mais humilde” – e sofrerá com o afrouxamento ainda maior das recomendações de distanciamento social que provavelmente vem por aí. “A gente tomou decisões baseado no que está acontecendo no sistema de saúde da Europa, da França, da Inglaterra. O sistema de enfermagem da Inglaterra foi atender com saco de lixo na cabeça”, exemplificou.

Mandetta sai do cargo com 76% de aprovação, segundo a última pesquisa Datafolha. Ontem, foram registrados panelaços em protesto à demissão em capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, Belém, Porto Alegre, Salvador, Vitória e Recife. A primeira onda de protestos aconteceu com o anúncio do ministro via Twitter. A segunda começou às 17h05, quando no Planalto, Jair Bolsonaro apresentava à imprensa o novo ministro.

Com expressão fechada e vestindo roupa escura, Nelson Teich prometeu que não vai haver nenhuma “definição brusca” em relação ao distanciamento social. Desconsiderando dezenas de estudos feitos em vários países, o ministro afirmou que faltam informações sobre o que acontece com a população diante de cada ação tomada pelas autoridades e “é tudo muito confuso”. “A gente começa a tratar a ideia como se fosse fato e começa a trabalhar cada decisão como se fosse um tudo ou nada – e não é nada disso”, disse, mostrando que não é um às na retórica. Teich prometeu trazer mais dados – porque, refletiu, com mais informação as coisas são menos decididas “na emoção”.

O fato é que Bolsonaro frisou, em entrevista ao SBT, que a escolha de Nelson Teich se baseou na seguinte orientação: “o povo quer voltar a trabalhar, mas obviamente com critérios”. E, na portaria do Palácio da Alvorada, defendeu a reabertura de escolas justificando que “não tem notícia de alguém abaixo de 10 anos de idade que foi a óbito”. O novo ministro reforçou na coletiva que está em “alinhamento completo” com o chefe e que veio para “trabalhar para que a sociedade retome, de forma cada vez mais rápida, uma vida normal”.

Teich também apresentou uma discussão “de hoje em dia” que teve início 50 anos atrás – os determinantes sociais da saúde – para dizer que saúde e economia são complementares. Para ele, não se pode polarizar e “tratar pessoas versus dinheiro” ou “empregos versus pessoas doentes” – embora seja isso que Bolsonaro tem feito.

Introduzindo o debate sobre medicamentos e tratamentos, Teich prometeu que vai tratar tudo “de forma absolutamente técnica e científica”. Mais tarde, ao lado de Bolsonaro na entrevista ao SBT, teve que ouvir calado o presidente dizendo que a cloroquina “é o que nós temos no momento que pode dar certo”, e que “relatos de médicos de todo o Brasil” dão conta que o uso da substância “tem dado resultado” – e que embora não haja “confirmação”, nem esteja “cientificamente comprovado”, “caso [a eficácia] seja uma realidade lá na frente”, todos [os médicos] que usarem “vão se sentir aliviados porque não só tentaram, como salvaram vidas”.

Além disso, o novo titular da Saúde não terá liberdade de indicar seus próprios assessores. Quem anunciou a novidade foi Bolsonaro. Segundo o presidente, ele vai indicar pessoalmente “algumas pessoas” para a nova equipe.

Em tempo: a posição avessa aos direitos reprodutivos femininos, ou seja, ser contra o aborto, também foi uma pré-condição para a indicação ao cargo.

Empresário Raiz

Vários veículos já puxaram parte da ficha do novo ministro. A conclusão é que Nelson Teich é empresário raiz, mas tem experiência Nutella no SUS. Nascido no Rio de Janeiro, o médico teve contato com o Sistema Único na sua formação: graduou-se pela UERJ, em 1980, e se especializou em oncologia no Inca, o Instituto Nacional do Câncer.

Mas logo fundou o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI), em 1990, que seria vendido 25 anos depois para a United Health. Depois da transação, ele permaneceu no comando da companhia até 2018. Em 2006, fundou a MedInsight (MDI), uma empresa de pesquisa e consultoria em economia da saúde, adquirida em 2011 pela Resulta CNP, que atua na área de marketing e pesquisa de mercado. Em 2009, abriu outra empresa com nome parecido – MDI Instituto de Educação e Pesquisa. Nessa companhia, foi sócio de Denizar Vianna, secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos da gestão Luiz Henrique Mandetta. A companhia foi fechada em fevereiro do ano passado e poucos meses depois, em setembro, Teich foi nomeado assessor de Vianna na Pasta, cargo que exerceu até  janeiro de 2020. Foi a sua única experiência de gestão no SUS.

Teich também criou o COI Instituto de Educação, Pesquisa e Gestão em Saúde, uma organização sem fins lucrativos voltada para o câncer. E, atualmente, é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos. Ele também tem laços com o Hospital Albert Einstein, tendo prestado consultoria à instituição nos anos de 2010 e 2011.

E, claro, Teich já havia atuado como consultor informal para saúde na campanha de Jair Bolsonaro. O programa de governo protocolado pelo então candidato no TSE dedicou apenas quatro páginas à saúde (ou slides, qualquer semelhança com uma apresentação de PowerPoint não era mera coincidência). A premissa era: “a saúde deveria ser muito melhor com os recursos que o Brasil já gasta!” E mais: “é possível fazer MUITO [em caixa alta mesmo] mais com os atuais recursos!” Dentre as propostas, constavam a criação de uma carreira de Estado para médicos nos moldes do Judiciário – algo que, definitivamente, não combina com falta de recursos e sempre foi defendido pelas entidades de classe médicas – e o nunca esclarecido credenciamento universal para que “todo médico” pudesse atender a qualquer plano de saúde e toda a força de trabalho pudesse ser utilizada pelo SUS. Durante a campanha, houve alguns debates dedicados à saúde – inclusive no Roda Viva –, mas Bolsonaro nunca enviou representante.

Além do apoio da Associação Médica Brasileira (AMB), Teich recebeu aval do secretário especial de Comunicação Social, Fabio Wajngarten, e do empresário bolsonarista Meyer Nigri, dono da construtora Tecnisa. Este último, segundo a jornalista Bela Megale, já emplacou vários nomes no governo – inclusive o do próprio Wajngarten, de quem é amigo de infância. Ricardo Salles também teria sido indicação sua. 

Análise

O "alinhamento completo" que o oncologista Nelson Teich disse existir entre ele e Jair Bolsonaro é de vidro e pode se quebrar. A suposta harmonia não resistiu à primeira live do novo ministro da Saúde ao lado do presidente.

Levado ao ar numa transmissão ao vivo nas redes sociais do novo chefe, o substituto de Henrique Mandetta foi constrangido a falar sobre a cloroquina. Bolsonaro reiterou que, com receita médica, o medicamento pode ser usado contra a Covid-19. "É isso mesmo?", indagou.

E o doutor: "...O que acaba acontecendo é que você tem algumas indicações de que [o remédio] funciona e outras colocam alguns questionamentos sobre eficácia e toxicidade."

Num português confuso, Teich deu a entender que o uso da cloroquina depende da gravidade do estado do paciente: "Esse equilíbrio entre você poder disponibilizar quando você acha que aquilo pode estar funcionando, em situações críticas, em que as pessoas têm mais chances de morrer e aquilo pode ser usado."

O novo ministro injetou o medo em sua retórica: "Quando você tem muita incerteza, o medo vai dirigir isso também. Você coloca na mão do médico, o médico vai fazer essa escolha, vai se responsabilizar por isso."

No melhor estilo Mandetta, Teich insinuou que o uso generalizado da cloroquina depende não do achismo de Bolsonaro, mas de uma palavra final dos cientistas:

"A nossa função hoje é fazer com que essa solução seja cada vez mais rápida, com base nos dados mais precisos e confiáveis. A gente está com vários estudos aqui. Acredito que isso vai vir num espaço relativamente curto."

Noutro trecho da transmissão, Bolsonaro sugeriu ao novo auxiliar que brindasse os brasileiros com "uma mensagem de tranquilidade e precaução". Antes de passar a palavra para Teich, o presidente mencionou "uma coisa que todo mundo diz, que é quase uma unanimidade". Afirmou que "60% dos brasileiros já foram ou serão infectados" pelo coronavírus.

"A partir desse momento", prosseguiu Bolsonaro, "é que nós podemos praticamente dizer que ficamos livres do vírus, tendo em vista esse percentual grande de pessoas ter conseguido anticorpos."

Dando de barato que lidava com dados inquestionáveis, o capitão como que estimulou os brasileiros jovens a desafiar o vírus de peito aberto nas ruas. "Então, a mensagem é: cuidar dos idosos, de quem tem comorbidades. E as demais pessoas, também tomar os devidos cuidados. Mas não precisam se apavorar caso venham a ser contaminados."

"É isso mesmo?", questionou o presidente ao novo ministro. Com muito jeito, falando macio, o substituto de Mandetta esclareceu a Bolsonaro que, em meio a uma pandemia, certas coisas podem não ser as coisas certas, mesmo quando se parecem com uma "quase unanimidade".

Após fazer uma pequena digressão sobre a fragilidade das estatísticas, o novo ministro citou o risco de ocorrer "uma segunda ou uma terceira" onda de contágios. No momento, disse Teich, "a gente tem que ter um foco muito grande em colher dados".

Nas palavras do ministro, é preciso saber "qual é a incidência e a prevalência" da Covid-19. É imperioso quantificar com precisão os infectados e os mortos. "Quando você combinar os dados, vai ser muito mais fácil a gente enxergar o que acontece e traçar políticas e ações."

Teich desmentiu, delicada e didaticamente, a tese de Bolsonaro segundo a qual 60% da população brasileira já estaria imunizada. Sem excluir a hipótese de estar errado, o ministro teorizou: "...A gente vai ter uma situação em que dificilmente vai chegar naquele número que teoricamente daria uma imunidade para uma sociedade."

Para desassossego de Bolsonaro, o substituto de Mandetta insinuou que as ruas terão de permanecer em casa por mais tempo: "A gente vai ter que discutir, sim, como é que vai ser a vida das pessoas. Prefiro falar em discussão da vida do que falar em discutir economia e emprego, porque pode dar uma conotação um pouco marcada. (...) Isso está relacionado a tudo: isolamento, distanciamento, emprego, ajuda do governo."

Nelson Teich resumiu o que está por vir: "O que sobra disso é o seguinte: colher os dados, enxergar o comportamento, enxergar o que está acontecendo com as pessoas, ter calma, tomar ações, reavaliar regularmente... A gente vai ter que caminhar nessa direção. E a gente vai ter que ter o conforto de entender que cada dia vai ter um dado novo que vai ajudar a entender melhor e a tomar decisões."

Mais cedo, ao ser confirmado por Bolsonaro como substituto de Mandetta, o novo ministro dissera que não haverá mudanças bruscas em relação ao isolamento social. Durante a live, Bolsonaro ecoou: "Não vai ser um cavalo de pau que vamos dar nessa questão. Mas, gradativamente, o Brasil vai voltar a trabalhar."

O próprio Bolsonaro reconheceu que, a essa altura, a posição do governo federal sobre isolamento perdeu relevância, pois o Supremo Tribunal Federal decidiu que estados e municípios dispõem de poderes para deliberar sobre essa matéria.

Seja como for, Nelson Tech despejou nas redes sociais de Bolsonaro palavras que não ornam com o vocabulário do presidente e da sua milícia virtual. Vale a pena repetir: "...ter calma, tomar ações, reavaliar regularmente... Ter o conforto de entender que cada dia vai ter um dado novo que vai ajudar a entender melhor e a tomar decisões."

Calma? Conforto? Ai, ai, ai... O doutor parece não ter a mais remota ideia das surpresas que o aguardam em Brasília. Talvez devesse perguntar a Bolsonaro: "Quando será o seu próximo passeio pela periferia de Brasília?" Ou: "Pretende visitar alguma padaria?"


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