Semana On

Segunda-Feira 21.set.2020

Ano IX - Nº 411

Poder

Na imprensa internacional, Bolsonaro é unanimidade: irresponsabilidade

Grandes publicações dos Estados Unidos, Europa e Ásia criticaram postura do presidente diante do covid-19

Postado em 17 de Abril de 2020 - Tiago Pereira (RBA), Congresso em Foco, BR Político - Edição Semana On

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Criticado pela imprensa brasileira pela forma como tem tratado o novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro tem sido motivo de chacota entre a mídia internacional. A imprensa mundial destaca o tom que Bolsonaro tem utilizado para se referir à pandemia, bem como as atitudes em desalinho às recomendações das autoridades sanitárias.

“Enquanto a maior parte do mundo tem tomado medidas drásticas para combater a disseminação do coronavírus, quatro líderes se destacam por suas contínuas negações da ameaça que a pandemia representa”, escreveu o Financial Times, um dos jornais de negócios mais influentes do mundo.

Fazem companhia ao presidente brasileiro Jair Bolsonaro na forma de lidar com o combate ao novo coronavírus o presidente, há mais de 20 anos, da Bielorrússia, Alexander Lukashenko; o líder autocrático do Turcomenistão, Gurbanguly Berdymukhamedov; e o ditador da Nicarágua, Daniel Ortega.

Os quatro líderes compõem o que o professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel chamou de “The Ostrich Alliance”, ou Aliança de Avestruz, em tradução livre. Trata-se de uma referência ao mito de que o pássaro enterra a cabeça na areia quando se depara com o perigo.

O periódico alerta que, além dos riscos para a saúde de suas populações, o negacionismo dos chefes de Estado traz consigo riscos políticos. “Enquanto a dissidência na Nicarágua está borbulhando, no Brasil multidões participam de protestos batendo em panelas e gritando “Bolsonaro assassino!” pelas janelas”, diz o jornal.

O texto destaca as divergências de Bolsonaro com as medidas de isolamento social recomendadas pelas autoridades de saúde do seu próprio governo e sublinha algumas das falas do presidente, como quando chamou a epidemia de “histeria”. Também critica as saídas do presidente às ruas, ocasiões em que cumprimentou diversas pessoas, entre elas idosos, e causou aglomerações.

O Financial Times também lembra que Bolsonaro fez eco ao presidente americano, Donald Trump, ao minimizar o coronavírus e ao defender o uso da hidroxicloroquina como uma possível cura para a doença.

O jornal americano Washington Post, por sua vez, dedicou um espaço em seu editorial do último dia 14, para analisar a ação de líderes mundiais que subestimam a gravidade do coronavírus. O presidente Jair Bolsonaro foi o destaque da publicação. Ao contrário de outros líderes e chefes de estado mulheres, que têm recebido elogios pela liderança na pandemia, o presidente brasileiro foi classificado como o caso mais grave de má conduta na crise, “de longe”. 

 “A novela do coronavírus, que já infectou pelo menos 1,8 milhão de pessoas em 185 países, tornou-se um teste global da qualidade da governança. A gravidade do surto em muitas nações têm dependido do quão bem – ou mal – os governantes responderam a ele”, inicia o texto que retrata o presidente brasileiro como o principal representante dos governantes que desprezam a gravidade da crise. “De longe, o caso mais grave de má conduta é o do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Quando as infecções começaram a se espalhar em um país de mais de 200 milhões de pessoas, o populista de direita reduziu o coronavírus a ‘uma gripezinha’ e instou brasileiros a enfrentar o vírus ‘como um homem, pô, não como um moleque’. Pior, o presidente tentou repetidamente minar as medidas tomadas pelos 27 governadores estaduais do país para conter o surto”, diz a publicação.

O conselho editorial do jornal termina fazendo um apelo. O texto afirma que presidente americano Donald Trump faria um grande favor se telefonasse a Bolsonaro e o pedisse para seguir os seus passos depois que Trump diminuiu sua a retórica de minimizar a pandemia e começou a apoiar os esforços de contenção da doença, momento a partir do qual os Estados Unidos começaram a ter um desempenho melhor no combate à pandemia, segundo o jornal.

Na mídia

O la Repubblica, jornal diário italiano, chama Bolsonaro de “o último cético” e afirma que ele ficou isolado entre os chefes de Estado nas posições adotadas para enfrentamento ao vírus. O diário também destaca as aglomerações provocadas pelo presidente brasileiro nos últimos dias e as dissonâncias entre Bolsonaro e os governadores.

Um dos mais respeitados jornais do mundo, O Le Monde, da França, destacou uma frase de Bolsonaro contrária às medidas de contenção: “Alguns vão morrer? Sim claro. Sinto muito, mas isso é a vida. Você não pode parar uma fábrica de automóveis porque há mortes nas estradas todos os anos”. O periódico francês cita nas atitudes do brasileiro um viés eleitoral. “Ao retomar esse discurso populista, muitas vezes insensato, Jair Bolsonaro certamente consegue remobilizar sua base eleitoral, de base conspiratória”, diz a matéria publicada em 4 de abril.

Na Inglaterra, o The Guardian destacou os ataques de Bolsonaro à mídia e a queda de popularidade do presidente, com protestos registrados em várias cidades do país. Para a BBC, “enquanto o mundo tenta desesperadamente combater a pandemia de coronavírus, o presidente do Brasil está fazendo o possível para minimizá-la”. A rede britânica salienta as divergências entre Bolsonaro e seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e afirma que o líder brasileiro está frustrado porque foi eleito com a promessa de melhorar a economia, o que foi barrado pelo avanço da covid-19. “O Sr. Bolsonaro está determinado a fazer essa pandemia política, culpando seus adversários por tentarem destruir o país.”

Publicações econômicas como The Economist, Forbes e Wall Street Journal destacam o descaso do presidente brasileiro e o foco nas questões econômicas. O The Economist afirma que Bolsonaro “toca violino” enquanto a pandemia cresce e se refere ao presidente como BolsoNero.

Para a Forbes ,Bolsonaro emulou o presidente americano Donald Trump no início da epidemia, mas acabou não seguindo seus passos nas últimas semanas. A revista de negócios afirma que a base de apoio do brasileiro está encolhendo e irá reduzir ainda mais se ele der as respostas erradas ao coronavírus. Na mesma direção, o Wall Street Journal critica o foco excessivo de Bolsonaro na retomada da economia frente à uma doença mortal.

Bolsonaro também é criticado fora da Europa, por periódicos dos Estados Unidos, Japão, Índia, Indonésia, Austrália e Emirados Árabes Unidos.

Para o The Sydney Morning Herald, principal e mais antigo jornal australiano, Bolsonaro faz aposta de vida e morte com coronavírus. Mesmo com a disseminação da doença no país, o brasileiro não dá sinais de hesitação e faz cálculo político ao adotar postura cada vez mais desafiadora.

“Bolsonaro pode ter concluído que, quando enfrentar a reeleição em dois anos e meio, a economia importará mais para a maioria dos brasileiros do que o número de mortes por coronavírus. Ao rotular a ameaça de vírus como exagerada e reduzir as quarentenas e paralisações dos governadores a medidas desnecessárias, ele pode estar se preparando para culpar os outros por qualquer recessão que possa acontecer”, diz o texto, que cita analistas políticos brasileiros.

A Al Jazeera, emissora de televisão mais importante do mundo árabe, reproduziu entrevista com a deputada federal Tabata Amaral, que afirmou que Bolsonaro está colocando “vidas em perigo” no maior país da América Latina. A rede destaca as referências de Bolsonaro ao vírus, que utilizou termos como “gripezinha” e “histeria”.

Veja abaixo um compilado das publicações:

La Repubblica (Itália)
“Coronavírus, verdadeiro ou falso? Bolsonaro, o último cético: ‘Apenas uma gripezinha’”

Le Monde (França)
“Coronavírus: no Brasil, Bolsonaro se isola cada vez mais da gestão da crise da saúde”

El País (Espanha)
“A atitude temerária e irresponsável do líder do maior país da América do Sul ameaça causar inúmeras mortes”

The Guardian (Inglaterra)
“Jair Bolsonaro diz que crise de coronavírus é um truque da mídia”

BBC (Inglaterra)
“Enquanto o mundo tenta desesperadamente combater a pandemia de coronavírus, o presidente do Brasil está fazendo o possível para desacreditá-la”

Deutsche Welle (Alemanha)
“O presidente de um país não pode confrontar a ciência”

Observador (Portugal)
“Bolsonaro volta a subestimar pandemia: ‘O brasileiro tem que ser estudado, ele não pega nada’”

Aftonbladet (Suécia)
“Bolsonaro questiona números de mortes”

Wall Street Journal (Estados Unidos)
“‘Voltem ao trabalho': Bolsonaro descarta riscos mortais do coronavírus no Brasil”

Forbes (Estados Unidos)
“Em Coronavírus versus Brasil, Bolsonaro fica quase sozinho”

New York Times (Estados Unidos) 
“Bolsonaro, isolado e desafiador, descarta ameaça de coronavírus ao Brasil”

Washington Post (Estados Unidos) 
“Bolsonaro pode ser o líder mais cético do coronavírus no mundo”

The Japan Times (Japão)
“Jair Bolsonaro isolado e enfraquecido pela negação de coronavírus”

Asahi Shimbun (Japão)
“Pelo menos um líder mundial seguiu as alegações de Trump de promover o uso das drogas. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, elogiou repetidamente os benefícios da hidroxicloroquina e da azitromicina”

Times of India (Índia)
“Presidente do Brasil tira selfies e aplaude manifestantes apesar de riscos da pandemia”

Al Jazeera English (Emirados Árabes Unidos)
“COVID-19: Bolsonaro está colocando 'vidas em perigo'”

The Sydney Morning Herald (Austrália)
“Bolsonaro joga com a vida e a morte em meio a pandemia”

TIME
“O presidente do Brasil ainda insiste que o coronavírus é um exagero. Governadores revidam”

Detik (Indonésia)
“Além de subestimar o risco, Bolsonaro também deu um mau exemplo, aparecendo na multidão várias vezes com seus simpatizantes. Ele também não concordou com a política de 'bloqueio' que muitos governadores adotaram”

Zing News (Vietnã)
“No contexto da pandemia imprevisível do Covid-19, o presidente brasileiro costuma fazer declarações subjetivas. Em 29 de março, ele anunciou que gostaria de dar continuidade às atividades econômicas do país e se opõe à medida dos governadores para impedir a propagação da doença, dizendo que é natural que alguém morra pelo vírus”


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