Semana On

Sexta-Feira 07.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Brasil

Cientistas e médicos pedem cautela na divulgação de drogas contra o coronavírus

Anúncio de remédio sem testes aprofundados é desserviço à população, dizem especialistas

Postado em 16 de Abril de 2020 - DW, Cláudia Motta (RBA), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Especialistas contestaram nesta semana as informações divulgadas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), na última quarta-feira (15), segundo as quais o governo federal testará em pacientes com covid-19 um novo medicamento que, segundo o órgão, diminuiu em 93,4% a carga viral em células infectadas pelo coronavírus Sars-Cov-2 em testes realizados em laboratório.

Trata-se de um medicamento aplicado no tratamento de outras doenças, cujo nome não foi divulgado para evitar uma correria às farmácias, como ocorreu no caso da cloroquina, segundo afirmou o ministro Marcos Pontes, segundo quem que o medicamento é desenvolvido por cientistas brasileiros e tem formulação pediátrica, além de ser vendido a preço acessível e ter "muito pouco efeito colateral".

O ministro da Ciência, Marcos Pontes, disse que manteria em segredo o nome do remédio para evitar que as pessoas o comprassem em massa, mas, estranhamente, logo a seguir nome foi revelado. É o vermífugo Annita. Agora a Anvisa publicou uma portaria proibindo sua venda sem receita.

Os testes serão realizados em 500 pacientes em cinco hospitais militares no Rio de Janeiro e outros dois em São Paulo e Brasília. Alguns desses pacientes receberão um placebo, e nenhum deles sequer saberá o que está tomando. Todos eles assinarão um termo de consentimento.

O medicamento será aplicado em pessoas que deram entrada nos hospitais com pneumonia, febre, tosse e tomografia com aspecto de vidro fosco. A duração dos testes será de cinco dias, sendo que os pacientes permanecerão internados em observação durante outros nove dias.

As pesquisas sobre a aplicação do medicamento em pacientes com covid-19 foram realizadas por pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, órgão vinculado ao MCTIC. Inicialmente, foram testadas em torno de 2 mil drogas já conhecidas e comercializadas, das quais seis foram consideradas promissoras para a realização de testes in vitro.

Entre estes, dois medicamentos reduziram de modo significativo a replicação do vírus nas células. A droga que obteve os melhores resultados atingiu uma redução de 93,4% da carga viral, e será agora testada em pacientes infectados com covid-19.

Resultados questionáves

Segundo pesquisadores, resultados de testes in vitro quase sempre não se confirmam em humanos. "Os cientistas fazem centenas, pra não dizer milhares, de testes in vitro. Quase sempre todos são muito bem-sucedidos. É uma ferramenta primitiva que não dá base para imaginar que isso possa funcionar em um organismo vivo", afirmou o infectologista José David Urbaéz Brito, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Brito qualificou o anúncio de Pontes como "irresponsável" e um "desserviço" à população, e criticou a ausência de testes do medicamento em animais, o que, segundo os especialistas, seria uma etapa essencial do processo, antes de serem realizados os testes em humanos.

"Nunca se viu uma informação de tão baixa qualidade", criticou o infectologista. "Notícias oportunistas têm um enorme impacto em um momento de medo coletivo."

"Falar que um remédio funciona in vitro não tem nada a ver com funcionar em rato ou em humanos. É um passo muito distante entre uma coisa e outra", afirmou o pesquisador e professor de Medicina Intensiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Luiz Fernando dos Reis Falcão.

Cautela

Para o médico Jorge Venancio, coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e membro suplente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), a pesquisa anunciada por Pontes parece ser promissora. “O resultado de bancada foi muito bom, pelo que foi relatado. Agora tem que ver a pesquisa com seres humanos, que às vezes repete a bancada e às vezes não. Não é uma coisa segura, ainda”, explica o médico, que também integra o Conselho Consultivo da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz.

“O entusiasmo de buscar uma solução nossa, brasileira, é muito positivo, mas nós temos de ter cautela até ter os resultados clínicos. Acho inclusive que a posição do ministério (da Ciência), de não ter divulgado a substância, faz parte dessa cautela necessária nesse momento, para não provocar uma corrida à medicação antes de ter uma comprovação da eficácia dela”, afirma.

Venancio considera que diante de uma situação tão grave quanto a imposta pela pandemia do coronavírus, a ciência está entre as principais alternativas para encontrar uma solução. “Está se buscando desesperadamente caminhos para encontrar essa saída”, diz, destacando que a ciência precisa desesperadamente de recursos.

“O fato de ter sido cortada uma série de verbas para essa área, de uma forma quase selvagem, é um desastre e seguramente está atrapalhando muito a possibilidade de que a resposta agora fosse mais eficiente”, avalia.

Ética na crise

Apesar da pressa em encontrar a cura para a doença causada pelo coronavírus, a Conep mantém sua atenção ao respeito de todos os parâmetros éticos e científicos. “Temos cobrado bastante na Conep esses critérios”, relata Jorge Venancio. “Têm chegado alguns protocolos bastante insuficientes. Em poucos casos não temos aprovado, em outros temos colocado uma série de pendências. Alguns protocolos mais simples têm sido aprovados de primeira. Mas tem sido frequente cobrarmos correções nos projetos de pesquisa.”

A aprovação à pesquisa com humanos se dá somente quando a Comissão avalia que os direitos e o respeito à pessoa que está participando da pesquisa está sendo garantido. “Claro que tudo isso se dá numa situação dramática e tem de ser levado em consideração também. Porque a ética na pesquisa tem de ser pesada com balanço entre risco e benefício”, afirma o médico. “Quando se tem uma situação em que a pessoa tem um risco de prejuízo muito grande não estando na pesquisa, e se ela entrando na pesquisa tem possibilidade de redução desse risco, isso é favorável a ela. E nessas circunstâncias a pesquisa pode ser feita.”

Venancio explica que diante da pandemia não estão sendo exigidas coisas formais, cartoriais. “Não é momento para isso. Estamos procurando garantir questões essenciais, ou seja, que a pessoa possa tomar uma decisão consciente de participar da pesquisa, sabendo quais são os riscos que aquela pesquisa coloca e quais são os riscos que ela pode oferecer. Isso é uma coisa que temos cobrado bastante dos pesquisadores, que fique bem claro no termo de consentimento de cada pesquisa. É questão fundamental para que a pessoa possa tomar uma decisão consciente de participar ou não da pesquisa.”

Análise

Num instante em que pesquisadores de todo o planeta buscam remédios capazes de deter a pandemia, o ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) trombeteou uma estonteante boa-nova: vem aí um medicamento com potencial para anular 93,4% da pujança do coronavírus. Pesquisa genuinamente nacional.

A exemplo da cloroquina, a droga já existe. É usada no tratamento de outras enfermidades. O ministro recusou-se a revelar o nome. Alega que poderia haver uma corrida às farmácias. Curiosamente, Bolsonaro demora a tocar os seus clarins,

Segundo Marcos Pontes, o remédio será testado nas próximas semanas em pacientes hospitalizados com a Covid-19. Ele espera-se que maio traga resultados alvissareiros.

Nessa matéria, considerando-se a expectativa que o tema desperta, o mais adequado talvez fosse esgotar o trabalho antes de soltar fogos.

Convém combinar a lógica científica com a lógica de uma galinha. Há na praça muita gente cacarejando alto. Das autoridades, exige-se que também botem ovos. No caso da pandemia do coronavírus, os ovos precisam ser bem vistosos.


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