Semana On

Quinta-Feira 06.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Coluna

Cavernas Digitais

Trabalhar para que o conhecimento científico coexista com os modos tradicionais de viver é um imperativo na construção do mundo pós novo coronavírus

Postado em 15 de Abril de 2020 - Ricardo Moebus

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Em entrevista ao jornal “El País”, Mario Vargas Lhosa, do alto dos seus 84 anos, nos diz:

Tínhamos a impressão de que, com o progresso e a modernidade, tínhamos dominado a natureza. Pois não! Uma grande idiotice. A prova é que isto pegou praticamente todos os países de surpresa. Nenhum estava preparado para um desafio assim. Um chinês come um morcego e isso provoca uma pandemia que aterroriza o mundo. Nenhum país estava preparado para um desafio semelhante. Isto significa como o progresso é relativo, como podemos ter surpresas muito desagradáveis com essa confiança. E uma das lições que será preciso tirar é que temos que estar mais bem preparados para o imprevisível.

Sim, o chamado “progresso”, este Deus da modernidade e também da pós modernidade, um dos Deuses maiores do panteão de nossa civilização ocidental, o imperativo categórico da seta linear e inexorável do progresso está manchado pela força do novo coronavírus.

E absolutamente não é o caso de considerarmos que “faltou termos mais progresso, mais avanço” porque aí sim, estaremos devidamente preparados para vencermos definitivamente o mundo descolado de nós mesmos que aprendemos a chamar de natureza, em oposição a algo que seria para nós mesmos a “humanidade”.

Alguns pensadores como Ailton Krenak já vinham insistindo muito antes de começar esta atual história de “um chinês come um morcego e...”, já vinham insistindo que esta conversa de “progresso”, e também esta conversa de uma “humanidade”, são armadilhas que não podem mais continuar disparando suas mesmas ratoeiras eternamente.

Não é de modo algum o caso de desconsiderarmos as importantes contribuições e informações fundamentais que a ciência tem provido inclusive no enfrentamento do novo coronavírus.

Desconsideração que inclusive levou nosso premiado presidente a ser considerado o pior líder do mundo no enfrentamento da pandemia pelo novo coronavírus, em editorial do “The Washington Post” esta semana.

Não é desconsiderar a ciência, até porque a própria ciência trabalha por permanente revisão, reconsideração, hipótese, aproximação e principalmente permanente abertura para a refutação posterior. Ou seja, a ciência não é equivalente ao dogma do progresso, a ciência está distante da “religião do eterno desenvolvimento”, a ciência convive com o contraditório e não combina com o autoritarismo, nem mesmo com algum autoritarismo que se autodenomine “científico”, que pretenda determinar sozinho o certo e o errado, o moral e o imoral para o coletivo das pessoas.

Nesta crise na qual estamos todos mergulhados, muitos discursos se atravessam e se entrecruzam o tempo todo, vivemos uma avalanche informacional que se oferece o tempo todo para aplacar um pouco nossa sede inesgotável por informações externas ao nosso afastamento físico, aplacar um pouco nossa ansiedade por respirar para fora dos nossos cárceres privados.

Agora que estamos muito mais virtuais, estamos certamente muito mais vulneráveis ao complexo jogo do bombardeamento informacional via web, via todas as redes sociais, via os chamados “veículos de comunicação”.

Agora que estamos mais distantes fisicamente, ficamos mais ainda à mercê destes “veículos”, destes intermédiums, destes canais virtuais que refletem supostamente a realidade do mundo em nossas cavernas digitalizadas.

O banho de notícias que tomamos todos os dias, ou mesmo a toda hora, tentando nos lavarmos um pouco de nossa infinita ignorância, tem validade cada vez mais curta, daqui um minuto tudo pode ter mudado. Já não existem mais “as notícias do dia”, agora, estamos nas notícias do “último segundo”.

Este tsunami informacional vai nos enredando, criando uma trama cada vez mais difícil de desvendar, de se desvencilhar, de avaliar, de ponderar, de refletir.

Temos cada vez mais informações, mas refletimos e avaliamos cada vez menos, temos menos ferramentas e estamos cada vez menos preparados para enfrentar todas as armadilhas discursivas que se colocam para nós.

Por exemplo, muitos discursos que vem empacotados ou embalados em informações ditas científicas, são simultaneamente portadores de conteúdos ou referenciais moralistas, preconceituosos, carregados de outras intencionalidades. Deste modo podemos a todo momento ser atropelados pelas tramas discursivas, pelas cadeias discursivas, sugados por nuvens de tags, ou tragados por dragas semióticas.

Sobretudo nestas atuais circunstâncias de desamparo que nos encontramos diante do cenário real letal do novo coronavírus, muitos discursos se levantam como “salvadores da Pátria”.

Antigos arquéticos se levantam de suas tumbas, com forças renovadas, convocando o “heroísmo”, o “patriotismo”, a “obediência”, a “submissão incondicional aos ditames da razão”, o “sacrifício”, o “poder médico de salvar as pessoas”, a “onipotência da ciência”, “a vigilância perfeita”, entre outros tantos, que nos assustam e nos assombram, trazendo cores ainda mais horripilantes à já crítica situação.

Mas é importante frisar e ressaltar que o pensamento crítico diante da onipotência da ciência não está vinculado, não significa de modo algum, a arrogância ainda maior de ignorar solenemente as recomendações técnico-científicas, como estão fazendo algumas lideranças políticas, covardemente expondo a população a riscos desnecessários.

Manter um pensamento crítico, que tenha clareza da importância da ciência, mas que mantenha em mente suas limitações, que tenha em mente que nenhuma abordagem poderá assumir o controle total sobre nossas vidas, sob pena de entrarmos em uma distopia autoritária ainda pior.

Povos tradicionais, com seus modos próprios de ler e fabricar o mundo, logo no início da pandemia, já anunciavam que isto que chamam novo coronavírus é “nisun”, ou seja, algum tipo de enfermidade provocada por animais ou seres que habitam animais ou plantas, e que adoecem os homens quando o pacto universal de respeito e consideração por tudo que vive foi unilateralmente corrompido pelo homem.

E o que fazer então? Retiro, guardar-se em retiro. Então por outros caminhos chegamos à mesma principal estratégia proposta pela ciência científica para minimizar os riscos e mortalidade pelo novo coronavírus.

Com uma diferença, “isolamento” não cabe no discurso dos povos tradicionais, simplesmente porque não existe. Tudo está interligado, nada pode ser isolado, o próprio “indivíduo” é uma fantasia que não cabe ali, não se usa este tipo exótico de separação por abstração.

Mas o retirar-se acontece de fato, a quarentena, o afastamento físico presencial, mas funciona como um “retiro o que eu disse”, ou seja, no retirar-se vive o repensar, o refletir, o encontrar-se mais, ou até mesmo o ir de encontro ao que eu não pensava antes.

Pode não parecer nada demais, mas com esses nossos velhos fantasmas que se levantam, torna-se mais do que nunca necessário combater o risco da monocultura mental que se anuncia ainda mais forte.

Considerar e trabalhar para que o conhecimento científico possa e deva coexistir com os modos tradicionais de viver, que são tão legítimos quanto necessários e indispensáveis para a sobrevivência de todos nós, é um imperativo inadiável na construção do mundo pós novo coronavírus.


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