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Domingo 25.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

Amor, esse doce e cruel dúbio

O cinema de boa safra é revelador para mostrar como extremos podem ser melhor manuseados em conjunto

Postado em 15 de Abril de 2020 - Clayton Sales

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Uma dança lindamente vagabunda pelas estrelas. Um suporte amargamente sólido pelos becos. Um cantar magnetizado pelo encanto mais pueril. Um sofrer retalhado pela cumplicidade mais improvável. Expandir nossa ideia sobre o amor significa trafegar nas trilhas sinuosas que levam a um lugar: o amor é uma bela e dura dualidade. 

O cinema de boa safra é revelador para mostrar como extremos podem ser melhor manuseados em conjunto do que afastados. O filme mais badalado de 2016 é uma fantasia encharcada de lirismo, colorações e sonoridades. O jazz, outrora música de desafogo para penúrias cravadas em peles negras no solo da América escravista, foi o fundo para nossos ouvidos forrarem a cama e nos deitarmos para o sonho. Em "La La Land", o baile de desejos e aspirações de vida e de sensações é um jardim bem cultivado, mesmo nos seus azedumes, na prática, bastante coloquiais em nossas vidas. Tudo, no entanto, vivenciado com floreios e magia. E uma saudável inocência entre o pianista demitido por defender a pureza musical e a atriz sempre rejeitada em testes de elenco.

No outro pólo, e quanto mais distantes, mais fascinantes é aproximá-los, a história de "Despedida em Las Vegas" (1995) é uma épica batalha contra duas autodestruições: a de um fracassado roteirista alcoólatra que perdeu tudo e uma prostituta de rua entregue a sua própria aniquilação como pessoa. Cada espelunca ou lugar pouco melhor em que rola a paixão ardente é um santuário onde os mundos estraçalhados nos quais vivem os deixam em paz. Um novo sentido ganha seus corações e um tipo de feitiço inimaginável parece emanar da junção dessas almas, que, no entanto, ainda habitam os lugares de desolação que lhes decompõem. O desafio não é viver um conto de fadas mas criar estruturas internas para que um mínimo de amor transcorra.

Em ambas as histórias, coexistem elementos orgânicos e um deles, talvez o principal, é o amor como bote de salvação que se transmuta em belo iate, ao menos, para os mundos tão encantados ou arrasados. Como amor é dualidade, é interessante reparar que o casal de "Despedida em Las Vegas", o par pelejado, forjado na dor, nascido das catacumbas dos abandonos, termina seus dias junto, em que a morte é só mais um percalço. Em "La La Land", o par simpático, que dança e canta a cada trombeta que a vida lhes sopra, encerra seus dias fílmicos apenas na reticência dos olhares cúmplices, um futuro em aberto.

São duas redenções magníficas, dois romances que especulam mais profundamente algumas facetas minuciosas do amor. E a sua dualidade, os lados opostos que, na verdade, apenas são sina e dádiva para quem se aventura nessa dança de extremos. Ou nesse jazz que nos coloca com rostos e corpos conectados.


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