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Segunda-Feira 25.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Mundo

O que está por trás da decisão de Trump de suspender financiamento à OMS?

China, UE e até ONU lamentaram ação do presidente americano; revista médica classificou medida como 'crime contra a humanidade'

Postado em 15 de Abril de 2020 - Veja

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O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suspender temporariamente a contribuição financeira de seu país à Organização Mundial da Saúde (OMS), enquanto investiga o papel do organismo internacional na atual pandemia de coronavírus, se materializou no último dia 14. Mas não foi uma decisão que causou tanta surpresa. Há muito já se especulava que os ataques de Trump à OMS não se restringiriam apenas à retórica.

Os EUA são o país que mais contribui para o orçamento do organismo multilateral baseado em Genebra, na Suíça. O Brasil também é um importante financiador da OMS, embora não tenha pagado sua contribuição em 2019 e 2020. A dívida brasileira com a organização era de R$ 169 milhões até 31 de março, uma das maiores, segundo apontam documentos internos da OMS.

Mas o que motivou Trump?

Há dois motivos principais, mas ambos envolvem a China, diz Barbara Plett-Usher, correspondente da BBC no Departamento de Estado dos EUA. Por um lado, o anúncio tem a ver, evidentemente, com o coronavírus. Integrantes do governo Trump acusaram a OMS de ter cometido erros no tratamento da pandemia, dizendo que a organização foi influenciada pela China.

Eles alegam que a OMS apoiou o plano de ação do governo chinês, que subestimou o vírus, e que não o pressionou o suficiente em busca de informações. Em particular, o presidente Trump demonstrou descontentamento com as críticas da OMS à sua decisão de impedir a chegada de voos da China aos EUA.

Por outro lado, acrescenta Plett-Usher, é parte de um esforço maior do governo Trump para reduzir a crescente influência global da China, especialmente em organismos internacionais.

Conforme noticiado pelo jornal americano The Wall Street Journal, a decisão procura pressionar a agência a contratar mais funcionários americanos. "Instruo meu governo a interromper o financiamento enquanto uma investigação está sendo conduzida sobre o papel da OMS na má administração e encobrindo a disseminação do coronavírus", disse Trump. "A OMS falhou em seu dever principal e deve ser responsabilizada", acrescentou.

"Muitos países disseram que escutariam a OMS e agora têm problemas", disse Trump, que criticou a organização por não restringir os voos da China, onde o surto teve origem.

O secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres, reagiu à decisão de Trump e disse que "agora não é a hora" de cortar recursos para a OMS.

'Informação falsa'

A decisão de suspender o financiamento da OMS ocorre num momento em que Trump está sendo alvo de críticas pela maneira com que lida com a crise nos Estados Unidos, o país com o maior número de mortos por covid-19.

Em janeiro, pouco depois de assinar um acordo comercial com Pequim, o presidente dos Estados Unidos elogiou a China por conter o vírus.

Mas agora Trump questiona se o gigante asiático teria dito a verdade. "O mundo recebeu todo tipo de informação falsa. Se a OMS tivesse ido à China para monitorar o surto, mais vidas seriam salvas", afirmou o presidente.

"Sua confiança nos dados da China talvez tenha causado um aumento de 20 vezes no número de casos no mundo", criticou, sem apresentar provas do que disse. "Seus erros causaram muitas mortes", acusou, e disse que a organização das Nações Unidas "encobriu" a gravidade do surto devido à sua suposta proximidade com a China.

"Se a OMS tivesse feito o seu trabalho de enviar especialistas médicos à China para avaliar objetivamente a situação in loco e criticar a falta de transparência da China, o surto poderia ter sido contido no foco com pouquíssimas mortes", especulou Trump.

Trump já havia acusado a OMS de colocar o politicamente correto acima de sua tarefa de salvar vidas e estar do lado da China, um país cuja transparência na pandemia foi amplamente criticada pelos Estados Unidos.

US$ 400 milhões

Estima-se que os Estados Unidos sejam responsáveis por 15% de todo o financiamento da OMS. É o país que mais contribui, na ordem de US$ 400 milhões por ano.

Mas Trump também disse ter "sérias dúvidas de que a generosidade dos Estados Unidos tenha sido usada da melhor maneira possível".

A contribuição da China em 2018-19 foi de quase US$ 76 milhões em contribuições obrigatórias e US$ 10 milhões em contribuições voluntárias, segundo o site da OMS.

A organização pediu em março US$ 675 milhões para ajudar a combater a pandemia e deve pedir pelo menos US$ 1 bilhão agora.

Todos os países-membros da ONU são obrigados a contribuir com o orçamento da OMS. Essa contribuição é proporcional à sua riqueza e à sua população.

Reações

A decisão do presidente Donald Trump de suspender a contribuição financeira americana à OMS foi duramente criticada pela China, por países europeus e por lideranças da área médica e científica em todo o mundo.

A China afirmou que está “profundamente preocupada” com o anúncio do presidente americano. “Esta decisão vai reduzir a capacidade da OMS e minar a cooperação internacional contra a epidemia”, lamentou Zhao Lijian, porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores

Zhao pediu ao governo dos Estados Unidos que “assuma suas responsabilidades e obrigações com seriedade e apoie as ações internacionais lideradas pela OMS para aliviar esta pandemia”.

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, criticou a decisão dos Estados Unidos. “Lamento profundamente a decisão dos Estados Unidos de suspender o financiamento da OMS. Não há nenhuma razão que justifique este movimento em um momento no qual os esforços são mais necessários do que nunca”, afirmou o espanhol.

A Alemanha também criticou a decisão do governo americano. “Devemos trabalhar juntos contra a Covid-19. Um dos melhores investimentos é reforçar as Nações Unidas, sobretudo a OMS, que tem pouco orçamento, por exemplo, para desenvolver e distribuir testes e vacinas”, afirmou no Twitter o ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Maas.

No atual contexto de saúde, “culpar não ajuda”, completou o chefe da diplomacia alemã, antes de destacar que “o vírus não conhece fronteiras”.

Já o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que este “não é o momento” para cortar o financiamento. “Depois que finalmente virarmos a página dessa epidemia, é preciso tempo para olharmos para trás, para entendermos como essa doença surgiu e se espalhou tão rapidamente em todo o mundo, e como todos os envolvidos reagiram à crise”, disse.

Especialistas da comunidade médica e científica também lamentaram a decisão americana. Richard Horton, editor-chefe da revista médica Lancet, escreveu que a medida tomada por Trump é “um crime contra a humanidade”. “Todo cientista, todo profissional de saúde, todo cidadão deve resistir e se rebelar contra essa terrível traição à solidariedade global”, afirmou.


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