Semana On

Segunda-Feira 21.set.2020

Ano IX - Nº 411

Poder

37% dos brasileiros querem a renúncia de Bolsonaro, 17% dos bolsonaristas se arrependeram do voto

Presidente se agarra ao que resta da tolerância da população

Postado em 10 de Abril de 2020 - Huffpost, Josias de Souza (UOL), O Globo - Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A renúncia do presidente Jair Bolsonaro em meio à sua atuação no combate ao surto do novo coronavírus no País é apoiada por 37% dos brasileiros, aponta a mais recente pesquisa Datafolha. Por outro lado, 59% desejam que o presidente permaneça no cargo. A pesquisa ouviu 1.511 entrevistados por telefone entre os dias 1º a 3 de abril e considera que a margem de erro é de três pontos percentuais.

A renúncia do mandatário ganha mais apoio entre jovens, 44%, mulheres, 42% e entre os que têm até o ensino fundamental completo, 40%. Segundo a pesquisa, pessoas com renda mensal acima de 10 salários mínimos representam 39% dos entrevistados que apoiam a saída do cargo. Já entre os que rejeitam a renúncia de Bolsonaro, quem ganha de 5 a 10 salários mínimos representa 69%, seguidos pelos homens (65%) e quem ganha de 2 a 5 salários mínimos (64%).

Levantamento também traz os números por região do País. A região Nordeste registra o maior índice de apoiadores da renúncia, 47%. Já na região Sul, em que Bolsonaro teve grande apoio durante as eleições de 2018, apenas 28% são favoráveis à renúncia, enquanto Norte e Centro-Oeste registram 30% e o Sudeste, 37%.

Os empresários são os que mais acreditam que Bolsonaro é capaz de liderar o país, somando-se em 65%. Estudantes são os que mais acham que não há mais condições de liderar o país, 57%. Entre os mais ricos, a avaliação positiva é maior entre os mais velhos, 59%, e com renda entre 5 e 10 mínimos, 62%.

Tolerantes

O Datafolha revela que Jair Bolsonaro vive uma situação paradoxal. Apenas 33% dos brasileiros aprovam sua atuação no combate ao coronavírus. Para 51%, ele mais atrapalha do que ajuda. Além disso, 17% dos eleitores que votaram no presidente em 2018 se dizem arrependidos. Nesse grupo, as mulheres representam 60%.

A pesquisa também mostrou que os eleitores do presidente que estão arrependidos têm mais medo do coronavírus do que a população em geral: 45% nesse grupo e 38% da média geral. Eles também acreditam mais que a quantidade de mortes provocada pela pandemia será muito alta: 66% ante 52% da população em geral.

Os eleitores que se arrependeram ainda demonstram mais medo de ser infectado pelo novo coronavírus do que a média geral. Na população como um todo, 38% responderam ter muito medo, 39% pouco medo e 23% não ter medo. Entre os que votaram em Bolsonaro e se arrependeram, 45% disseram ter muito medo, 34% pouco medo e 22% não ter medo.

Submetido a dados assim, de aparência contraditória, é grande o risco de Bolsonaro extrair da pesquisa suas próprias confusões. Quem preferir lidar com conclusões precisa distinguir tolerar de apoiar. Tolerância não significa aceitar o que se tolera. Quer dizer apenas que a esperança do brasileiro ainda é maior do que o seu desespero.

Na guerra contra o coronavírus, o otimismo é mais cômodo do que o pessimismo. Até que o vírus provoque um colapso nos hospitais, o otimista sofreu menos. Mas não convém a Bolsonaro continuar cutucando a paciência alheia com o pé. Ela pode morder, pois há um limite depois do qual a tolerância deixa de ser uma virtude para virar apenas mais um vocábulo —como cúmulo ou, digamos, túmulo.

De acordo com o Datafolha, Henrique Mandetta amealhou à frente do Ministério da Saúde uma taxa de aprovação maior, muito maior do que o índice atribuído ao presidente da República. Os dados que piscam no placar são cintilantes: Mandetta 76% X 33% Bolsonaro.

"O Mandetta já sabe que a gente está se bicando há algum tempo", declarou dias atrás o presidente, antes de esclarecer que nenhum ministro é "indemissível". Será? Suponha que Mandetta fosse enviado para o olho da rua. Imagine que Bolsonaro, um personagem capaz de tudo, colocasse na Saúde um ministro incapaz de todo. A tolerância talvez virasse panela de pressão.

Mestre na criação de crises, Bolsonaro não sabe desfazê-las. Engalfinhou-se com governadores e prefeitos. Tornou-se minoritário no Congresso. Criou uma nova modalidade esportiva: Tiro à imprensa. Distanciou-se da banda técnica do ministério. Colocou em alerta ministros do Supremo.

Num cenário tão encrespado, o otimismo é natural. Sob Bolsonaro, o Planalto tornou-se a repartição pública onde há a maior possibilidade de se criar uma metodologia inteiramente nova de gestão. Caos não falta.

Para preservar o fiapo de tolerância popular em que sua Presidência encontra-se pendurada, Bolsonaro precisaria virar-se do avesso, desfazendo as crises que criou. Do contrário, a "gripezinha" pode transferir o seu governo da enfermaria para a UTI.


Voltar


Comente sobre essa publicação...