Semana On

Quinta-Feira 02.jul.2020

Ano VIII - Nº 399

Saúde

Quarentena por coronavírus afrouxou em todas as capitais do País. ‘Vamos pagar o preço’, diz Mandetta

Brasil é o país que menos testa entre mais atingidos pela Covid-19: subnotificação esconde dimensão da covid-19 no país

Postado em 10 de Abril de 2020 - Tulio Kruse (O Estado de S.Paulo), Ana Lucia Azevedo (O Globo), Cida de Oliveira (RBA) – Edição Semana On

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O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou em publicação nas suas redes sociais que o aumento na circulação de pessoas nas cidades registrado na quinta-feira (9) vai cobrar um preço "ali na frente", se referindo à Covid-19. Ele disse que o coronavírus "adora que as pessoas achem que ele é inofensivo".

“Nós estamos em um momento em que nós vamos colher um pouco dos frutos, essa semana, das nossas difíceis reduções de mobilidade social que fizemos nas últimas duas semanas. Hoje, eu vi que o pessoal começou a andar mais. Vamos pagar esse preço ali na frente. Esse vírus adora aglomeração, adora contato, adora que as pessoas achem que ele é inofensivo. E aí, as cidades podem pegar a transmissão sustentada”, afirmou.

Entre a última semana de março e os primeiros dias de abril, a diminuição no isolamento da população foi o padrão para todas as capitais brasileiras. Mesmo em casos onde a variação foi pequena, houve algum aumento na circulação de pessoas. Nenhuma capital viu suas ruas ficarem mais vazias durante a semana passada. 

A variação foi identificada com base na localização de 60 milhões de telefones celulares no País, compilada pela empresa In Loco, e tem sido analisada por pesquisadores brasileiros para determinar a relação do movimento nas ruas com o grau de contágio pelo novo coronavírus. A equipe de cientistas – que reúne representantes de Ministério da Saúde, Universidade de Brasília (UnB), Universidade de São Paulo (USP) e Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) – já confirmou que o aumento da reclusão no fim de março evitou infecções e internações. Resta saber o quanto a queda recente do isolamento vai influenciar no número de casos nas próximas semanas. 

Entre as dez maiores capitais do País, a que apresentou maior proporção de pessoas circulando nas últimas semanas foi Manaus. A capital do Amazonas é uma das mais atingidas do País pela covid-19. Menos da metade da população se manteve em casa durante a última semana – a média nos dias de semana ficou abaixo dos 48% de isolamento. Nesta terça-feira, 7, a Secretaria de Saúde amazonense admitiu que espera um colapso no sistema de saúde para os próximos dias, considerando intensidade do contágio e o número reduzido de leitos na cidade. 

Os pesquisadores acreditam que a movimentação identificada pela base de geolocalização, com os celulares, é muito próxima da movimentação real dos 220 milhões de brasileiros. “Como estamos trabalhando com uma base de 60 milhões de usuários, provavelmente essa queda que você está vendo de 2%, 3% (entre uma semana e outra) é uma queda real”, diz o pesquisador Júlio Croda, que participou do estudo. 

No Rio, por exemplo, a diferença de quatro pontos porcentuais de uma semana para outra pode significar, portanto, ao menos 252 mil pessoas a mais nas ruas. Em Manaus, a variação pode significar um aumento de apenas 17 mil, mas o que preocupa especialistas é que a cidade manteve um patamar baixo de isolamento em relação ao restante do País, além da baixa quantidade de leitos em relação à população. 

Manaus é a única metrópole que se manteve com mais da metade da população circulando na rua mesmo quando considerados os índices do último fim de semana, período em que a reclusão tende a aumentar. 

Entre as cidades mais atingidas, um dos maiores aumentos na circulação de pessoas ocorreu na capital do Ceará, Fortaleza. Cerca de 59% da população manteve-se em casa durante a última semana de março. Na semana passada o índice caiu seis pontos porcentuais, para 53%. Isso pode representar cerca de 158 mil pessoas a mais nas ruas. 

Entre as maiores capitais do País, Goiânia, Belém, Salvador e Curitiba vêm logo em seguida, com os menores níveis de isolamento. O motivo pode estar nas alternativas de renda para a população mais pobre. “Para conseguir segurar essas pessoas em casa, precisaríamos de acesso à renda. É nisso que demoramos muito (para fazer)”, diz o infectologista Eliseu Waldman, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP. “Ficar dentro de uma casa nessas condições em Manaus, na temperatura e umidade que têm na cidade, é muito difícil.” 

População menor, variação maior

Variações maiores ocorreram em capitais com populações menores. Florianópolis, em Santa Catarina, foi o local com o maior aumento na circulação de pessoas. Durante os dias de semana, entre 23 e 27 de março, a cidade chegou a ter 65% da população dentro de casa. Na semana seguinte, a média caiu para 55%. 

Mas há quem se mantenha confinado. Faz 21 dias que o aposentado Sebastião França, de 61 anos, não encontra os amigos nas mesas de dominós, antes disputadas, no centro de Florianópolis. “Eu não aguento, preciso sair, falar com as pessoas, mas não aparece ninguém. Todos estão confinados”, contou. 

Na terça-feira, a prefeitura de Florianópolis emitiu as duas primeiras multas por descumprimento do isolamento social na cidade. As duas pessoas estão entre os casos considerados suspeitos e, segundo informou o município, um deles se recusou a assinar termo de isolamento domiciliar e outro se recusou a coletar exames. A multa para cada um foi de R$ 500.

Poucos testes

A dependência extrema de insumos importados explica a precária situação do Brasil na testagem para o novo coronavírus. Mesmo só examinando doentes graves, mortos, profissionais de saúde — e com reconhecida subnotificação —, o país já é o 14º do mundo em casos e o que menos testa entre os 15 países mais atingidos.

O déficit de testes do Brasil em comparação a outros países é abissal. O país faz 296 testes por milhão de habitantes. O Irã, o segundo que menos testa entre os mais afetados, faz 2.755 por milhão. Os EUA, 7.101 por milhão. A Alemanha, um dos países com menor taxa de mortalidade, testou 1.317.887 pessoas — 15.730 por milhão.

Os testes e os insumos são produzidos na China, Índia, EUA e países europeus. Acossados pela pandemia, todos usam o que produzem e, no caso da China, a maior produtora, exporta a quem paga mais e mais depressa.

“Todos os países do mundo querem a mesma coisa ao mesmo tempo”, disse Doris-Ann Williams, CEO da In Vitro Diagnostics Association, que representa grandes fabricantes e distribuidores de testes.

O professor de virologia da UFRJ Amilcar Tanuri, coordenador do Laboratório de Virologia Molecular da universidade, diz que o Brasil está sob a tempestade perfeita: sofre com falta de infraestrutura para produzir testes, é refém da importação em um mercado sob demanda extrema e pena com a falta de ação do governo federal para resolver o problema.

“O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, fez tudo o que podia. Mas falta apoio e uma ação mais incisiva do governo”, diz.

Pesquisadores veem uma ameaça à nossa soberania: “Esse é o preço que pagamos por jamais termos investido em pesquisa e na indústria de biotecnologia. Agora, temos uma extrema dependência do exterior, uma ameaça gravíssima à nossa soberania”, afirma Roger Chammas, da Rede USP para Diagnóstico da Covid-19 (Rudic).

Chammas, cujas pesquisas são apoiadas pela Fapesp, diz que a previsão é que a Rudic faça 1.500 testes moleculares diários. Hoje, faz 200 por dia. Não é por falta de capacidade técnica: é falta de insumos. A Rudic integra a plataforma de testes do governo do estado de São Paulo, coordenada pelo Instituto Butantã, que prevê realizar 8.000 testes por dia, mas está à espera da chegada de reagentes.

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica, a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial, a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas e a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial criaram uma força-tarefa para validar esses testes e esperam publicar os resultados até o fim do mês.

“Há testes de baixa qualidade, e mesmo os bons podem oferecer resultados negativos falsos, o que gera insegurança. Por isso, não podem ser aplicados por qualquer pessoa. Só os testes validados devem ser usados”, afirma Priscila Franklin Martins, diretora da Abramed.

Subnotificação

A flexibilização do isolamento social defendida pelo ministro da Saúde, Luiz Henrirque Mandetta – e que já vem sendo adotada em muitas cidades em diversos estados –, é uma irresponsabilidade. Em vez disso, devem ser adotadas medidas mais rigorosas em relação à única estratégia capaz de diminuir a velocidade de contágio pelo novo coronavírus causador da covid-19. O alerta é do médico epidemiologista Francisco Job Neto, do Distrito Federal, doutor em epidemiologia de doenças infecciosas no sistema prisional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

“São fantasiosas as estimativas oficiais de 2 mil mortos em abril em São Paulo. A partir da próxima semana, o número de casos deve aumentar. O Brasil deverá repetir número de mortos semelhante ao dos Estados Unidos, Itália e Espanha. Só poderia ser diferente, com números menores, se estivéssemos fazendo tudo melhor que esses países fizeram e estão fazendo, o que não é o nosso caso”, afirma Job Neto.

Na realidade, o Brasil não sabe o número de casos de infecção espalhados pelo país e muito menos o de óbitos. No último dia 8, durante entrevista coletiva, técnicos do Ministério da Saúde mostraram dados referentes aos casos de infecção suspeitos em comparação com casos confirmados.

“Da semana 8, quando surgiu o primeiro caso confirmado de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por covid-19 até agora, são 31.451 casos relatados. Desses, 11% (3.416) foram confirmados”, disse o secretário de vigilância em saúde Wanderson Oliveira. Os dados, informados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), vinculado à pasta, refletem apenas a interpretação do médico sobre o paciente atendido.

Outro dado apresentado pelo ministério permite uma noção das proporções de casos de SRAG, categoria na qual está incluída a covid-19, no ano passado, quando comparada com este ano, após a chegada do novo coronavírus. “Mais de 80% do total são casos de SRAG sem diagnóstico nos dois anos. Em 2020, depois que o novo coronavírus chegou ao país, a zona cinzenta sobe e lembra um arranha-céu. É a covid-19”, explica Job Neto.

Sem precedentes

Para complicar, os números em investigação refletem apenas os casos suspeitos, em que as pessoas fizeram o exame e ainda não obtiveram o resultado. Não incluem aquelas que, apesar de assintomáticas, seguem espalhando o vírus por onde passam, contaminando pessoas de todas as idades e colocando em risco de vida especialmente as pessoas idosas, com diabetes, pressão alta, cardiopatias, obesidade.

Outra ideia do tamanho da subnotificação vem com uma pesquisa no portal da transparência desenvolvido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que reúne dados atualizados em tempo real pelos cartórios de registro civil. Publicada na quinta (9) pelo portal UOL, a reportagem mostra que declarações de óbito apontam um número 48% maior de mortes por covid-19 do que os dados oficiais apresentados pelo governo federal.

Das certidões de óbito registradas entre os dias 16 de março e 5 de abril, 722 trazem a doença como causa da morte. Para o mesmo período, dados do Ministério da Saúde indicavam 486.

“Uma subnotificação sem precedentes. Impossível que tenhamos apenas 15 mil casos nesse momento. Só testamos os casos de moderados a graves. De toda maneira, o número de óbitos, ainda que seja real, há muitas pessoas que morreram sem que o exame tenha ficado pronto. Independente disso, esses números estão crescendo. Estamos com 800 mortos e esse número vem aumentando de maneria impressionante, e nem chegamos ao pico, que será a partir da segunda quinzena de abril”, disse o médico infectologista Marcos Caseiro, da rede municipal e estadual na cidade de Santos (SP).

Ele disse que em Santos há 10 óbitos confirmados e 31 em investigação – três vezes maior que o número confirmado. Há 462 casos suspeitos aguardando exame. “Temos de melhorar a qualidade do nosso diagnóstico. Há três semanas o governo diz que comprou 20 milhões de testes rápidos. Onde estão? Falam mas as coisas não aparecem. A subnotificação é das coisas mais sérias e importantes, que vai contra o que preconiza a Organização Mundial da Saúde (OMS), de fazer testes para podermos identificar esses casos positivos”, cobrou.


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