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Sexta-Feira 29.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Artigo da semana

Como o Brasil destrói sua relação com a China

Depois de Eduardo Bolsonaro, foi a vez do ministro Abraham Weintraub ofender a China. Estratégia de desviar a atenção de um governo de resultados fracos é clara, mas poderá trazer prejuízos à economia e custar vidas

Postado em 09 de Abril de 2020 - Alexander Busch

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A estratégia do presidente Jair Bolsonaro já se tornou bem conhecida: basta ele estar sob pressão política para um de seus filhos ou ministros alinhados lançar uma acusação especialmente absurda ou um ataque pelas redes sociais.

O objetivo é desviar a atenção de um governo de resultados fracos e mobilizar os apoiadores do presidente. Isso pode ser observado sobretudo no caso do coronavírus, no qual o presidente age de forma cada vez mais errática e fica cada vez mais isolado, tanto no Brasil como no exterior.

Um exemplo dessa manobra de distração foi dado pelo filho presidencial Eduardo, quando ele atribuiu à China a culpa pela crise mundial causada pelo coronavírus. Agora foi a vez de o ministro da Educação, Abraham Weintraub, num post infantil e racista, acusar a China de lucrar com a propagação do vírus.

O embaixador chinês no Brasil exigiu desculpas, assim como exigira no caso de Eduardo, mas Weintraub respondeu que só fará isso se a China enviar aparelhos médicos a preço de custo para o Brasil. Ao contrário de Eduardo, que não tem cargo no governo e é deputado, Weintraub é ministro de Bolsonaro. Ele fala em nome do governo e também em nome do seu chefe, se este não o repreender. O que não aconteceu.

Em Brasília, a indignação é grande. "Meu medo é o efeito cumulativo da ofensa", afirmou Marcos Azambuja, diplomata de carreira e conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), ao jornal Valor Econômico. "O Brasil tem atirado com grande perfeição em seu próprio pé." 

Ele destacou que a relação bilateral entre os dois países era livre de impasses. "Onde havia uma estrada fluida e limpa agora há um campo um pouco minado por causa das tolices ditas por nós", disse Azambuja.

Para Azambuja, ofender a China pode ser – também literalmente – fatal para o Brasil. "Estamos em um caminho inexplicável de ofender a China e os chineses, num momento em que o país adquire uma importância crescente para o mundo e para nós, sobretudo no fornecimento de equipamentos de saúde de emergência", observou.

A China é, no momento, uma das poucas grandes nações em condições de oferecer e enviar conhecimento sobre o vírus e como combatê-lo, equipamentos médicos e, não menos importante, dinheiro para ajudar a aliviar o sofrimento.

Todas as outras grandes nações enfrentam, elas mesmas, uma situação de emergência, que deverá se estender para um futuro próximo, e não estão em condições de enviar ajuda.

Só que as chances de a China considerar o Brasil na hora de distribuir seus limitados recursos são cada vez menores devido às ofensas vindas de Brasília. A China é pragmática na sua política externa, mas ofensas de cunho racista são intoleráveis.

A campanha contra a China, levada a cabo por Bolsonaro, também prejudica a economia no longo prazo. Essa briga sem sentido, iniciada unilateralmente, reduz a capacidade do Brasil de se recuperar depois que a crise do vírus passar: nos últimos meses, a China se tornou ainda mais importante como mercado para os produtos agrícolas brasileiros.

Do superávit brasileiro – exportações menos importações –, 77,9% vêm do comércio com a China. No primeiro trimestre deste ano, o crescimento do superávit nas exportações para a China foi de quase 50%. Em quase todas as outras regiões do mundo, as exportações brasileiras caíram ou estagnaram. Ou seja, em meio à crise, as exportações de alimentos para a China são uma das poucas fontes estáveis de divisas em dólar para o Brasil.

A China já anunciou que vai comprar mais produtos agrícolas dos Estados Unidos. A justificativa é que a cadeia de fornecimento brasileira não é segura devido à crise do coronavírus e pode falhar. O presidente dos EUA, Donald Trump, festejou a notícia diante de fazendeiros do Meio-Oeste americano: os chineses, como prometido, vão comprar mais produtos agrícolas dos EUA, anunciou.

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, resumiu bem a situação, também em declarações ao Valor. "A crise cria uma situação em que o país precisa dançar conforme a música, e ainda estamos pisando no pé da dançarina."

Alexander Busch - Jornalista


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