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Sábado 08.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Coluna

Mais um Baile de Máscaras no País do Carnaval?

É preciso mais que nunca desmascarar as intenções por trás das decisões de cada governo

Postado em 08 de Abril de 2020 - Ricardo Moebus

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O governo federal do Brasil propõe agora “flexibilizar” a quarentena, o isolamento ou afastamento social, liberando o aumento da movimentação em muitas cidades, tomando como uma das precauções para isso o aumento do uso de máscaras de proteção facial.

O governo de Minas Gerais, por sua vez, além de se alinhar à proposta federal de retomar as atividades comerciais, também propõe fazer uma normativa obrigando o uso de máscaras em todos os estabelecimentos comerciais.

O que podemos esperar desta “quarentena flex”?

Depois da grande onda de “flexibilizar” os direitos trabalhistas, “flexibilizar” os vínculos de trabalho, inclusive nos servicos públicos, “flexibilizar” os direitos socias, “flexibilizar” a aposentadoria; essa versão “Flex” economicista quer “flexibilizar” também a principal medida de proteção individual e coletiva contra o total colapso da capacidade de prestação de cuidado e assistência às vítimas do novo coronavirus pelo Sistema de Saúde.

 Para compensar, demonstrando sua “preocupação” com as pessoas, o governo cria o maior “baile de máscaras” da história do Brasil, todo mundo que sair pra rua, vai mascarado, mas pode acabar “tomando um baile”, pois pode se tornar um grande desatino.

Acontece que esse “carnaval temporão”, esse “micareta do Mandetta”, que chegou agora justamente no meio da quaresma, como era a tradição dos antigos micaretas, pode trazer consequências desastrosas, piorando ainda mais a situação já grave da pandemia pelo novo coronavírus.

O problema é que nesse “baile de máscaras”, o que está sendo servido são justamente os convidados, que desavisados podem entrar nessa achando que finalmente estarão “livres” para retomar suas tarefas, quando na verdade estão sendo “boi de piranha”, adaptando esta expressão para nosso momento: “manada para vírus”, para que se atinja logo a tal “imunidade de rebanho”, já que com a “imunidade parlamentar”, ninguém vai pagar esta conta.

Outro perigo, é que, por um lado, as máscaras devem ser sim usadas e consideradas como um importante Equipamento de Proteção Individual (EPI), como de fato são, e por isso mesmo disputadas a tapa por alguns países. Mas, por outro lado, se as máscaras diminuem sim o risco de contaminação, elas estão longe de evitar este risco. Principalmente porque o manejo das máscaras também exige um certo treinamento, e mesmo em ambientes hospitares, com pessoas acostumadas à técnica do uso de máscaras de proteção, mesmo assim, a contaminação acontece muitas vezes na retirada das mesmas. Ou seja, temos um risco adicional de as pessoas, uma vez com suas máscaras, se sentirem mais seguras, protegidas e confiantes, e por isso mesmo, se exporem muito mais às situações de contágio.

Toda máscara traz consigo sempre uma “fantasia”, sabe bem disso o país do carnaval, o problema é se esta fantasia for uma “fantasia de segurança”, uma “imaginação de proteção”, que pode gerar muito mais exposição às situações de risco e contágio.

Em outra direção, o esforço geral coletivo para manter o necessário afastamento físico presencial, mas reforçando mais que nunca o compromisso social, tem potencializado muitas iniciativas de produção local, comércio justo, consumo socialmente responsável e sem intermediários, economia solidária, como por exemplo os grupos de CSA (Comunidades Sustentanto Agricultura), formado por coletivos de produtores e consumidores organizados para compra direta de cestas de produtos agrícolas, como verduras, legumes, ovos, leite, diretamente dos produtores.

O movimeto CSA já vinha crescendo muito no Brasil, mas muita gente que não conseguia abrir mão de seus hábitos de compras em hortifruti, “sacolões”, supermercados ou hipermercados, agora se dispõe a aderir a esta compra coletiva solidária de produtores locais ou próximos dos locais, com distribuição direta sob encomenda.

Muitos destes grupos incluem também a produção especificamente orgânica, mas não todos, o que mais conta de fato é a ruptura com as grandes cadeias distribuidoras e com a produção agrícola industrial de larga escala e seu alto consumo de agrotóxicos.

A produção-consumo local, mais justa, infinitamente menos dependente da monstruosa logística dos gigantes distribuidores, tem exigido de cada um abrir mão de muitos hábitos e confortos, criando oportunidades de rever inclusive padrões estereotipados de consumo mecânico automatizado.

O afastamento físico presencial, associado à ruptura do frenesi das compras, pode criar em muitos lugares maior laço e mais compromisso comunitário-social. Claro que isto é apenas uma possibilidade, que depende do que nós mesmos estamos fazendo nesta oportunidade.

Novos modos de produzir-consumir podem advir e estão sendo experimentados por muitos, com uma disposição que não víamos antes da ruptura com a rotina cotidiana.   

Precisamos seguir reinventando estas possibilidades, especialmente agora, que a palavra de ordem já se faz ouvir retumbante nos tambores governamentais: “Voltem ao trabalho normal! Voltem a fazer como sempre fizeram! Voltem a viver como viviam antes! Voltem a (não) pensar como (não) pensavam antes!

Neste cenário das “mascaradas”, é preciso mais que nunca desmascarar as intenções por trás das decisões de cada governo.


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