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Quarta-Feira 27.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Coluna

Mulheres trans que amam mulheres: histórias de luta e busca por respeito

No país que mais mata, em número absolutos, transexuais no mundo, dar visibilidade às trans lésbicas é questão de vida ou morte

Postado em 08 de Abril de 2020 - Alexandre Putti - Carta Capital

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Mulher, trans e lésbica. É assim que se classifica a advogada Maria Eduarda Aguiar, primeira pessoa trans a fazer uma sustentação no plenário do STF, defesa essa que resultou na criminalização da LGBTfobia pela Suprema Corte, em maio deste ano. Maria mora na cidade do Rio de Janeiro e tem uma atuação forte na militância pelas pessoas trans no Brasil. Mas ao contrário do senso comum que se tem de uma mulher trans, a advogada ama e sente desejos por outras mulheres.

Ao contrário do senso comum porque o debate sobre gênero, algo recente na nossa sociedade, ainda é muito confundido com a sexualidade. Quando pensamos em um menino que não se identifica com seu gênero e quer fazer uma transição para o sexo feminino, o imaginário já surge pensando que ele gosta e sente desejo por outros meninos.

O afeminado da turma dos meninos sempre é taxado como o gay, que sente atração pelos amigos, mas isso é um pensamento equivocado. Maria é exemplo disso. Nasceu com pênis e gostava de meninas. Automaticamente a sociedade já a considerou um garoto hétero. O tempo foi passando e aos 12 anos ela sentia algo diferente. “Eu queria ser mulher, mas não gay, e isso gerava uma confusão na minha cabeça”, conta.

Passou a adolescência inteira presa dentro de um gênero que lhe foi imposto. Ela, ainda como menino, era muito reservada e tímida. Chegou a namorar algumas meninas, mas nunca abriu sua identidade de gênero. Para ninguém.

Foi para a faculdade de Direito e durante os cinco anos de graduação na Universidade Estácio de Sá não teve coragem de fazer a transição de gênero por medo de como as pessoas iriam reagir. “Não tinha ideia de como sair do armário. Naquela época não se tinha o apoio que se tem hoje”, explica.

Aos 24 anos de idade, quando já estava formada e morando fora da casa de seus pais, Maria teve, finalmente, a coragem de assumir seu gênero. Desde então ela mora sozinha no Rio, atuando na advocacia e quase sempre com alguma namorada, mesmo estando solteira no momento.

Primeira mulher trans a disputar uma vaga no Senado Federal

A demora em passar pela transição também aconteceu com a professora de literatura e ativista Duda Salabert. A moradora da cidade de Belo Horizonte foi a primeira mulher trans a disputar uma vaga no Senado Federal. A corrida eleitoral aconteceu nas últimas eleições e ela estava concorrendo pelo PSOL, partido que ela optou por sair há alguns meses.

Duda foi a 10ª pessoa mais votada do estado de Minas e a terceira mulher na história das eleições mineiras. Não foi o suficiente para ela conseguir uma vaga no Congresso. “Senado significa senhores, e só pode se candidatar quem tem mais de 35 anos, idade que é a expectativa de vida de uma mulher trans no Brasil. Minha candidatura foi provocativa”, explica.

Por sinal, 35 anos foi a idade em que Duda fez sua transição. Ela explica que foi algo tardio por não ter acesso às informações que existem hoje. “Nunca fui um homem. Buscava uma identidade no campo da masculinidade e não me encaixava em nenhuma delas. Como associava gênero a sexualidade, eu sempre me questionei se eu era gay, mas nunca senti atração por homens”

As mais de três décadas em que Duda esteve no gênero masculino possibilitou que ela tivesse acesso à universidade e ao mercado de trabalho. Tendo em vista que quase 90% das mulheres trans no Brasil estão na prostituição por falta de oportunidade, isso pode parecer um privilégio. Não é. “O maior privilegio que eu poderia ter é poder viver minha própria identidade e isso me foi negado. Privilégio tenho hoje de poder ser quem eu sou.”

Três anos antes de fazer sua transição, Duda criou o ‘Transveste’, uma ONG que acolhe e oferece cursos para pessoas trans, além de realizar trabalho de assistência em presídio. “Cada tijolo do Transveste era um tijolo na minha transexualidade. Foi a base do meu empoderamento”, conta a professora.

O apoio da família foi fundamental para sua aceitação. A mineira conta que sua esposa, com quem se mantém casada até hoje, deu todo o apoio. Além disso, dentro do colégio que Duda ministra aulas de literatura, a aceitação foi completa. Os alunos chegaram a fazer uma campanha para encorajar a transição e isso possibilitou que o processo, que na maioria das vezes é traumático, se transformasse em algo positivo.

Duda está afastada do trabalho para cuidar de Sol, sua filha nascida recentemente. Ela conta que enfrentou dificuldades em ser reconhecida como mãe trans. Precisou de um advogado para conseguir a licença maternidade e registrar sua filha como mãe. Além disso, colegas insistem em chama-la para reuniões, esnobando o fato dela estar de licença maternidade, que por lei dura seis meses. “Se a sociedade tem uma dificuldade odiosa em me reconhecer enquanto mulher, imagina me reconhecer enquanto mãe”, diz.

Duda tem pretensão de sair candidata para a prefeitura de Belo Horizonte em 2020. É cotada no PDT.

Ser mulher travesti e mãe é também a realidade da advogada e empresária Márcia Rocha. A moradora da cidade de Barueri, Grande São Paulo, tem 52 anos e durante 38 deles esteve presa ao gênero masculino.

Ela conta que durante toda sua vida foi uma pessoa desejada por muitas mulheres. Quando ainda não havia feito a transição, era o senso comum do homem hétero. Bem-sucedido, bonito, interessante, mas nunca completo. “Nem se falava isso na minha época, ainda mais no regime militar. Só fui me entender depois dos 30”, conta.

Durante toda a infância e adolescência, Márcia pegava roupas das irmãs e da mãe para se vestir. Se via na frente do espelho e se sentia completa. Mas, ao contrário do que se pensa, não era afeminada.

Márcia se manteve no armário durante todo esse tempo. Chegou a se casar duas vezes. No último casamento teve uma filha. A empresária conta que em todas as suas relações, suas companheiras sabiam do gosto que ela tinha de se vestir como mulher, mas isso sempre foi feito entre quatro paredes.

O fato de ela ser sincera em suas relações fez com que o processo de transição não fosse algo penoso demais para a família, mas ocasionou o divórcio com sua segunda esposa – ela aceitava, mas não sentia atração por mulheres.

“Me preparei psicologicamente. Sabia que tudo seria difícil, mas o pior de tudo foi com relação ao fato de eu gostar de mulheres. Eu saía e as mulheres não me olhavam mais. Isso foi muito difícil”, conta.

Por indicação de uma amiga, Márcia começou a frequentar lugares lésbicos e finalmente se encontrou. Ia em bares, baladas e chamava atenção de outras mulheres, também lésbicas. “Em um evento que fiz pela OAB em Bauru, conheci minha atual companheira Estamos juntas faz cinco anos.”

Como advogada, Márcia foi a primeira mulher trans a ter seu nome social registrado na carteira da OAB. Além de atuar como jurista, também é proprietária de quatro empresas no ramo imobiliário e mora com sua esposa, também advogada.

Márcia, Duda e Maria representam a luta pelo respeito à identidade de gênero, que nada tem a ver com a sexualidade. As três relatam que já sofreram transfobia, seja fisicamente ou psicologicamente. No país que mais mata, em número absolutos, transexuais no mundo, dar visibilidade às trans lésbicas é questão de vida ou morte.

Dados utilizados na matéria: Grupo Gay da Bahia.


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