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Quarta-Feira 27.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Coluna

Jornalismo e cinema - primos que trocam grandes ideias

Ambos continuam gerando controvérsias e, principalmente, abrindo ao público bastidores do funcionamento dessa engrenagem que alimenta as mentes com a história de nosso cotidiano

Postado em 08 de Abril de 2020 - Clayton Sales

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Jornalismo e cinema são elementos que combinam como poucos. O enlace entre a criatividade da ficção da sétima arte e a busca pela verdade do quarto poder guarda diversos pontos em comum. São duas atividades unidas pelos laços da comunicação de massa, o que faz, em algumas modalidades como documentários, com que as metodologias se cruzem e até coincidam. São duas crias dos séculos 19 e 20, pelo menos tais como as conhecemos hoje, e moldadas na simbiose entre os avanços das tecnologias e as sensibilidades humanas, sejam artísticas, sejam investigativas. São indústrias de ideias, máquinas de valores, usinas de bens simbólicos e, claro, mananciais de contradições, questionamentos, virtudes e vícios. São portadoras da capacidade de influenciar destinos, costumes e pensamentos. São forças indubitáveis que navegam neste início de século 21 no mar tormentoso das incertezas, na tempestade torrencial da internet e nas marés inconstantes das transformações inevitáveis.

Mais do que esperado, portanto, que jornalismo e cinema dialogassem diuturnamente. Enquanto a imprensa contribui com sua amplitude na divulgação, reportagens e análises sobre as produções cinematográficas, o cinema se preocupa em mostrar por meio da riqueza da narrativa audiovisual o universo jornalístico nas suas mais variadas situações. Então, como jornalista e agora envolvido na experiência de trabalhar com o mundo cinematográfico graças aos programas de rádio e TV que conduzo, compartilho uma pequena relação comentada de sete filmes sobre o ofício. Não são necessariamente os melhores, sob os prismas técnico e artístico, mas geram boas prosas sobre as questões da nossa classe.

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (1976) - Um primor de longa-metragem, que colocou o tema do jornalismo investigativo em outro patamar na narrativa cinematográfica em tempos de Guerra Fria. É a história da construção da reportagem sobre a instalação criminosa de grampos telefônicos no comitê do Partido Democrata por parte dos coordenadores da campanha do presidente Richard Nixon, no que ficou conhecido como escândalo Watergate, nome do edifício "arapongado" pelo chefe do executivo norte-americano, que concorria à reeleição. A matéria do jornal Washington Post colaborou decisivamente para forçar a renúncia do governante, algo impensável na década de 1970. Além da cativante direção de Alan J. Pakula e do excelente roteiro de William Goldman, adaptado do livro escrito pelos próprios repórteres do diário, Carl Bernstein e Bob Woodward, destacam-se as atuações de Robert Redford e Dustin Hoffman nos papéis dos jornalistas. Um drama que, além do componente político, transforma-se em uma tensa crônica de redação, mostrando o processo de concepção da reportagem, as relações com as fontes, especialmente o chamado Garganta Profunda, personagem anônimo que alimentava os repórteres secretamente com dados e caminhos, e os conflitos internos. Por isso, é um clássico do gênero.

OS GRITOS DO SILÊNCIO (1984) - Um drama tocante que mostra o quanto o jornalista é um ser vivo como qualquer outro, dotado de sensibilidade. Quando o ditador Pol Pot assume o poder no Camboja nos anos 1970, um jornalista é enviado como correspondente para cobrir o fato. No país asiático, o repórter descobre que um de seus amigos, um cambojano colega de profissão e seu guia no trabalho, foi mandado a um campo de concentração, onde os opositores ao regime autoritário sofriam atrocidades e encontravam uma morte cruel. O desejo de saber o paradeiro do amigo e de denunciar o genocídio promovido pela ditadura são os combustíveis do longa-metragem dirigido por Rolland Jofé, com roteiro de Bruce Robinson e o elenco com Sam Waterston, Haing S. Ngor e John Malkovich. Sim, jornalistas também amam e podem usar essa paixão como motor de sua missão.

JENIPAPO (1995) - Poucas produções brasileiras trafegam pelo mundo da imprensa e uma das mais interessantes é "Jenipapo", suspense que narra a saga de um jornalista americano que trabalha no Brasil com pautas investigativas. Sua tarefa é cobrir os conflitos entre sem-terra e fazendeiros no interior da Bahia. A obsessão em conseguir entrevistar o padre ligado aos camponeses e que tem o poder e a autoridade de demolir a fortaleza ruralista com suas denúncias se transforma em um dos mais chocantes embates morais da profissão. Foi o primeiro filme dirigido pela cineasta Monique Gardenberg, que também assina o roteiro, e conta com um elenco brasileiro com Otávio Augusto, Julia Lemmertz e Marília Pera, e os americanos Henry Czerny e Patrick Bauchau. 

O PREÇO DE UMA VERDADE (2003) - Se estamos falando de jornalismo e ficção, a lembrança do jovem repórter Stephen Glass é inevitável. E por uma razão nada enaltecedora. Enquanto era o querido funcionário da revista The New Republic, notabilizou-se pelas incríveis pautas e histórias que conseguia transformar em reportagens de capa. Até descobrirem que grande parte do material era produto de fontes inventadas, entrevistas inexistentes e episódios que nunca aconteceram. Isso aconteceu nos anos 1990 e o cinema tratou de registrar no filme "O Preço de uma Verdade", sob a direção e roteiro de Billy Ray, com Hayden Christenssen no papel principal, além de Peter Sarsgaard e Chloë Sevigny no elenco. Uma obra que discute os limites tênues entre a verdade e a invenção dentro da rotina normalmente acelerada de uma redação, mesmo a de uma publicação com a periodicidade de uma revista. É emblemática a frase proferida pela recepcionista sobre a repercussão negativa do escândalo: "se tivessem fotos, isso não teria acontecido". Isso nos anos 1990, claro. Mas nestes tempos de fake news...

INTRIGAS DE ESTADO (2009) - Que o jornalismo e a política caminham na mesma sintonia, ninguém duvida. É histórico. Essa convivência, portanto, coloca sob o mesmo ambiente, profissionais da imprensa e dos círculos de poder, o que, não raro, acarreta em amizades e outras formas de relacionamento pessoal. Até aí, nada demais, embora muitos considerem temeroso. Porém, quando um veterano repórter de um jornal, cujo currículo inclui o trabalho anterior como assessor de um candidato nos EUA de quem se tornou amigo, usa sua experiência para tentar maquiar o envolvimento do congressista em um assassinato, as questões polêmicas se levantam. Especialmente, quando ele é pressionado pela nova parceira, uma jovem jornalista antenada com as maravilhas da internet. "Intrigas de Estado" é o longa-metragem que aborda essa história, dirigido por Kevin McDonald, roteiro de Tony Gilroy, Matthew Michael Carnahan e Billy Ray, e um elenco que tem Russell Crowe, Rachel McAdams, Ben Afleck, Robin Wright Penn e Hellen Mirren. Ótimo para debates sobre relações de poder e o quanto isso afeta o trabalho de jornalistas.

O MERCADO DE NOTÍCIAS (2014) - Um documentário com toques de artes cênicas para entender nosso encantado mundo jornalístico. O diretor gaúcho Jorge Furtado, leitor crítico e consumidor voraz da imprensa brasileira, produziu um longa-metragem que investiga como anda o mercado da mídia noticiosa de alguns anos atrás, seus precedentes históricos e tenta localizar perspectivas para um futuro da atividade e suas interfaces com a democracia. Para isso, ele utilizou uma metodologia peculiar. Mesclando com depoimentos de figuras de referência da imprensa nacional, foram inseridas esquetes teatrais, encenadas por atores e atrizes, da peça "The Staple of News", de 1629, escrita pelo dramaturgo inglês Ben Johnson. A ideia foi traçar um paralelo entre a mídia de ontem e de hoje no que se refere à participação dos jornalistas e das notícias na formação da opinião pública. Há muitas diferenças, mas também várias semelhanças, o que contribui para discussões sobre a história e os horizontes do jornalismo.

SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS (2015) - O vencedor do principal prêmio do Oscar 2016 não poderia ficar de fora da lista. Afinal, não é sempre que um filme que trata de jornalismo ganha tanta evidência mundial. O roteiro de Tom McCarthy, também diretor, e Josh Singer é original, tanto que recebeu prêmios nessa categoria, justamente porque difere do livro-reportagem que denunciou casos de abusos sexuais em crianças cometidos por padres pedófilos da cidade americana de Boston. A produção cinematográfica, por sua vez, conta a história do processo produtivo das reportagens que culminaram na revelação do escândalo para o país e o mundo. A rotina dos repórteres do The Boston Globe, interpretados por Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, entre outros, as peregrinações por fontes e documentos que ratificassem as apurações e os embates entre membros da Spotlight, equipe encarregada de cobrir pautas investigativas, é revestida de fascínio, quase uma utopia possível para quem acredita no jornalismo profundo e meticuloso, solto das amarras do tempo. Uma aula de investigação genuinamente jornalística. 

Existem outras produções memoráveis, algumas clássicas, outras contemporâneas, o que mostra como esses dois primos, o jornalismo e o cinema, continuam trocando ideias, gerando controvérsias e, principalmente, abrindo ao público bastidores do funcionamento dessa engrenagem que alimenta as mentes com a história de nosso cotidiano.


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