Semana On

Terça-Feira 24.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Poder

Acaba o prazo de validade de Mandetta no governo

Presidente ataca o ministro da Saúde, que se aconselha com Alcolumbre e Maia

Postado em 03 de Abril de 2020 - Ricardo Noblat (Veja), Leonardo Sakamoto (UOL), Andréia Sadi (G1), Robson Bonin (Radar), Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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No último dia 31, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foi surpreendido com o contato de alguns médicos amigos que estão na linha do combate ao coronavírus. Eles avisaram terem sido chamados pela Presidência da República para uma reunião presencial. Os médicos queriam saber se Mandetta estava ciente e se iria ao encontro.

Surpreso, Mandetta respondeu que não iria porque não estava sabendo. Indignado, o ministro procurou o ministro da Casa Civil, Braga Neto, que disse ao colega não saber de reunião alguma. Mandetta afirmou ao ministro que não adiantava chamá-lo de última hora porque ele não iria à reunião para discutir o uso de cloroquina no combate ao coronavírus, como defende o presidente Jair Bolsonaro e seus familiares.

É só uma questão de tempo, concordam auxiliares do ministro. Depois do que disse sobre ele o presidente Jair Bolsonaro, assim que passe a crise do coronavírus ou mesmo antes, Mandetta será demitido.

Presidentes demitem ministros que não funcionam, embora esse não seja o caso de Mandetta. Demitem ministros que funcionam, mas que perderam sua confiança – é o caso de Mandetta. Alguns demitem depois de fritarem o ministro publicamente.

Mas jamais se viu por aqui um presidente forçar a demissão de um ministro do modo como Bolsonaro faz com Mandetta. “Estamos nos bicando há muito tempo”, revelou ele. “Mandetta extrapola. Falta-lhe humildade. Não ouve o presidente como deveria”.

Mandetta não pedirá demissão. Se pedisse seria acusado de desertar em meio “ao maior desafio da nossa geração”, como afirmou Bolsonaro ao ensaiar um recuo logo cancelado porque ele não consegue fingir por muito tempo ser o contrário do que é.

Em busca de “conselhos”, Mandetta foi jantar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na residência oficial do Senado. Na conversa, o ministro estava inconsolável. Disse aos chefes do Congresso que a situação com o presidente era “insustentável”.

Seguidamente boicotado nos bastidores pelo Palácio do Planalto, atacado nas redes sociais por aliados de Bolsonaro e agora publicamente pelo próprio chefe da República, Mandetta revelou estar no seu limite.

Na conversa, que entrou a madrugada, Mandetta disse a Maia e Alcolumbre que, por ele, está fora do governo. Bolsonaro não mereceria o empenho dele e de seus técnicos. Os chefes do Legislativo apelaram para que ele resistisse o máximo possível no cargo.

Em uma videoconferência do Valor, Maia disse que Bolsonaro “não tem coragem de tirar o ministro e mudar oficialmente a política de enfrentamento à pandemia”.

Menosprezo pela ciência

O presidente Jair Bolsonaro - que menosprezou o conhecimento de cientistas e médicos, agindo como se soubesse mais sobre o coronavírus do que a Organização Mundial da Saúde e os líderes de todos os países do mundo juntos - reclamou que está faltando "humildade" ao ministro da Saúde.

Bolsonaro, que chamou a pandemia de coronavírus de "fantasia", "histeria", "gripezinha" e "resfriadozinho" e disse, novamente (no último dia 2), que ela "não é tudo isso que estão pintando", reclamou que Mandetta "teria que ouvir um pouco mais o presidente da República".

O país registra um exponencial aumento de mortes por Covid-19. O próprio Ministério da Saúde avisa que esse número é subdimensionado e há muito mais casos e mortos que não foram identificados devido à falta de testes. Isso representa um óbito a cada 25 minutos. O número é grande em termo de perdas humanas, mas pequeno em se tratando desta pandemia. Ainda estamos no começo. Há projeções que mostram que chegaremos a mais de uma morte por minuto.

Como o ministério vem agindo de forma técnica, o impacto será menor do que se a saúde do país estivesse nas mãos de Bolsonaro. Nesse caso, o coronavírus causaria centenas de milhares, talvez milhões de mortos por aqui.

"Não pretendo demiti-lo no meio da guerra", disse o presidente, antecipando que fará isso quando puder.

É uma guerra pitoresca. Pois o capitão, enlouquecido, quer que sua tropa empurre população em direção ao abismo. Ela ignora suas ordens e caminha lentamente no sentido contrário. Como vingança, promete punir seus subordinados que fizeram a coisa certa.

O mais deprimente é que uma parte do povo, que está sendo empurrado para a morte, aplaude o capitão.

Como o presidente disse que o nazismo é de esquerda, no Memorial do Holocausto, em Israel, no ano passado, deve ter cabulado as aulas sobre esse período histórico. Pena.

Se tivesse lido um pouco sobre isso, Bolsonaro teria se deparado com os julgamentos dos militares que cometeram crimes contra a humanidade. E entendido que se espera de subordinados o não cumprimento de ordens dadas por seus superiores hierárquicos quando elas significarem atrocidades contra outros seres humanos.

Atuar para que a sociedade ignore medidas de contenção de uma pandemia e volte ao trabalho em nome da sobrevivência política de seu líder é mais que uma atrocidade, é tentativa de genocídio.

Os 58 óbitos por Covid-19 das últimas 24 horas entram na conta do presidente, que luta a favor do coronavírus quando deveria proteger a vida. Quantos mortos o seu mandato aguenta?

Análise

Jair Bolsonaro se esforça para consolidar um entendimento com o desastre. A crise do coronavírus o intimou a decidir se quer ser presidente ou estorvo do seu governo. Tomado por suas declarações mais recentes, Bolsonaro parece inclinado a escolher a segunda opção. Seu destempero deu uma aparência moderada ao general Hamilton Mourão. O vice-presidente mudou de patamar.

Contrariando a prudência militar, o capitão Bolsonaro carbonizou Henrique Mandetta, comandante do pelotão do governo federal na guerra histórica contra o flagelo viral. Cavalgando a ciência, o titular da Saúde defende o isolamento social. Dono de uma verdade própria, o presidente ameaça produzir aglomerações por decreto: "Posso abrir o comércio numa canetada".

Mandetta tornou-se um colecionador de elogios. Bolsonaro ouve panelaços. Simultaneamente, o vice Mourão aproveitou evento promovido por um banco nesta quinta-feira para ecoar as preocupações do ministro da Saúde e defender uma retomada das atividades econômicas "lenta, gradual e segura", sem arroubos nem canetaços.

Bolsonaro diz que ele e Mandetta andam "se bicando há algum tempo". Descarta a demissão "no meio da guerra". Mas acusa o auxiliar de ter "extrapolado", ignorando a hierarquia. E realça que "nenhum ministro é indemissível". Acha que o ministro deveria ouvir mais o presidente. Falta-lhe "humildade".

A resposta de Mandetta à carbonização deixa a impressão de que Bolsonaro meteu-se num processo de autocombustão. "Quem tem mandato popular, como ele, fala. Quem não tem, como eu, trabalha", disse o ministro. Foi como se o subordinado dissesse para o chefe algo assim: "Se não quer ajudar, tente não atrapalhar."

Politicamente isolado, Bolsonaro refuga o papel de líder. Trancou-se em seus rancores. No bunker palaciano, xinga ministros, governadores, prefeitos e a imprensa. Generais o aconselham a maneirar. Mas os auxiliares que o chamam de mito e o filho Carluxo encomendam o sangue dos rivais. Nesse grupo, Mourão é tratado como pretendente ao trono.

Em privado, Mourão assegura que não conspira contra Bolsonaro. Nem precisaria. Qualquer frequentador de palácios sabe que, quando um presidente definha, o vice ascende por gravidade.

Mourão costuma medir as pessoas pelas dimensões de seus assentos. Ainda era general da ativa quando uma declaração de conteúdo político lhe rendeu, sob Dilma Rousseff, o afastamento do cobiçado posto de comandante militar da região Sul. Reconheceu que falara demais. E resignou-se com a punição: "Cada um tem que saber o tamanho da sua cadeira."

Nessa época, Mourão não imaginava que viraria para Bolsonaro o mesmo tipo de assombração que Michel Temer foi para Dilma. Alvo constante de Carluxo, Mourão costuma dizer que o filho Zero Dois de Bolsonaro ainda "vai entender o tamanho da cadeira de cada um. E vai se limitar à sua."

Diferentemente de Mandetta, Mourão é um incômodo com mandato. Não está ao alcance da caneta de Bolsonaro.

Suprema ironia: Em agosto de 2018, outro filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, celebrou assim a perspectiva de conversão de Mourão em vice na chapa do pai: "Sempre aconselhei o meu pai: tem que botar um cara faca na caveira pra ser vice. Tem que ser alguém que não compense correr atrás de um impeachment."

Bolsonaro gosta de dizer que Mourão é "mais tosco" do que ele. O clã presidencial imaginou que a companhia do general transformaria o capitão, por contraste, num estadista instantâneo. Deu-se algo diferente. De tanto fabricar polêmicas e crises, Bolsonaro conseguiu ampliar o assento do seu vice.

Na última terça-feira, sentindo-se acuado, Bolsonaro propôs em rede nacional um "pacto" entre o Congresso, o Supremo, governadores, prefeitos e a sociedade pela "preservação da vida e dos empregos." Não colou.

O ainda presidente poderia considerar a hipótese de firmar dois pactos consigo mesmo: o de começar a trabalhar e o de parar de atirar no próprio pé. Do contrário, Bolsonaro não deixará a Presidência. Ele pode receber alta.


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