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Terça-Feira 11.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Coluna

‘Ela’ e a ideia de um amor não-corpóreo

A voz é corpo, alma e coração de uma magnífica mulher

Postado em 02 de Abril de 2020 - Clayton Sales

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Um filme instigante que desperta caudalosas meditações sobre a transcendência do amor e o que alimenta os relacionamentos em geral. É preciso organismo, matéria, substância tangível e visível para o desenvolvimento de um sentimento pelo outro, no caso, outra? Num cenário futurista mas que não aparenta muita discrepância com dias atuais, repleto de dispositivos e aplicativos inteligentes, o contraste com a vida de Theodore (Joaquin Phoenix), homem que ganha vida escrevendo cartas emocionantes - lembrei da escrevedora de Fernanda Montenegro em "Central do Brasil" (1998) - torna o longa-metragem "Ela" (2013), escrito e dirigido por Spike Jonze, muito atraente para reflexões sobre a sublimidade dos afetos e a solidão como componente do vigente viver digital. 

Samantha (Scarlett Johansson) é cativante, cheia de personalidade e dona de altiva independência, ainda mais que se trata não de um ser vivo feminino e sim de um sistema operacional avançado capaz de incorporar faculdades humanas como amizade, afeição, desejo sexual e paixão. Apenas sua voz rouca, espontânea e hipnótica é "visível". Algo situado em algum ponto da Rachel de "Blade Runner" (1982), a bela replicante que se acreditava gente, mas sem a silhueta da Sean Young. Então, emerge a questão: o que amamos quando amamos mesmo? Essência, existência, espectro, estética, complexidade, projeção, espírito? "Ela" é um drama romântico aparentemente ingênuo mas basta nos despirmos um pouco das narrativas habituais sobre o amor para começarmos a inocular na mente um misto de fascínio, curiosidade e temor sobre um futuro possível das relações.

E o sexo, ingrediente vital para boa parte dos apaixonados? Na cama, durante uma noite sob as estrelas em seu apartamento, Theodore e Samantha tem uma transa daquelas que levam ao cosmos. Cada um descreve que carícia fará no outro e conforme o envolvimento com a descrição aumenta, a coisa esquenta até que o orgasmo é alcançado em harmonia. É a cena mais erótica do filme e uma das mais poéticas trepadas do cinema. Sem corpos se enlaçando. Apenas o homem físico e a mulher algorítmica numa sintonia de dar inveja a muitos casais convencionais. O componente material da relação é pulverizado e semeia magicamente a ideia de um sexo intenso quase sem matéria. O que amamos quando amamos mesmo? 

Não tive como esquecer de Zygmunt Bauman e seu conceito de amor líquido, aquele em que a durabilidade dos laços deixa de ser critério para definir o sentimento. "Ela" transforma as tecnologias da comunicação, para muitos, a maldição que está minando a perenidade dos vínculos, em poder reaproximador e refundador dessa perpetuidade. Talvez o que chamamos hoje de "máquinas" e nossa convivência com esses produtos de nossa capacidade tenham adquirido uma função surpreendente: nos revelar algumas facetas obscuras de nós mesmos. Como radialista, não pude deixar de celebrar um interessante e sutil resgate do poder ancestral da oralidade. A voz é corpo, alma e coração de uma magnífica mulher.


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