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Domingo 31.mai.2020

Ano VIII - Nº 395

Saúde

Máscaras ajudam a prevenir Covid-19? Especialistas analisam prós e contras

O utensílio protege contra o novo coronavírus ou, ao contrário, pode ajudar na disseminação da doença? Especialistas no mundo todo ainda não entraram em um consenso

Postado em 31 de Março de 2020 - Galileu

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Com a pandemia de Covid-19 causada pelo novo coronavírus muitas pessoas têm usado máscaras descartáveis quando saem de casa — mesmo a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendando que apenas aqueles que estão doentes ou com suspeita da infecção as utilizem. Mas há especialistas, e inclusive alguns novos estudos, defendendo que todos usem o adereço para prevenir a transmissão da doença. 

"O grande erro nos EUA e na Europa, na minha opinião, é que as pessoas não estão usando máscaras. Este vírus é transmitido por gotículas [de saliva ou espirro, por exemplo] e contato próximo. Gotas desempenham um papel muito importante [na transmissão] — você precisa usar uma máscara porque, quando fala, sempre há gotas saindo da sua boca", afirmou George Gao, diretor-geral do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, em entrevista à revista Science.

Desse modo, as máscaras seria uma forma de impedir que infectados contaminem outras pessoas. Vale lembrar, inclusive, que muitos não apresentam sintomas, mas transmitem a doença — e outros tantos propagam a infecção antes mesmo de apresentar tosse, febre ou falta de ar.

Só usar a máscara, porém, pode não ser totalmente eficaz. Como explica Manal Mohammed, professora da Universidade de Westminster, na Inglaterra, a lógica de usar a máscara cirúrgica vem da ideia de que "se protege um cirurgião, irá me proteger". "Apesar de seu uso por mais de um século, sua eficácia profilática [ainda] está em dúvida", escreveu Mohammed em um texto no The Conversation. "Um estudo recente mostrou que as máscaras cirúrgicas podem ser uma fonte de contaminação bacteriana na sala de operações. Embora tenham sido projetadas para prender as bactérias que saem pelo nariz e pela boca do cirurgião, o estudo encontrou bactérias no exterior das máscaras usadas."

De fato, estudos randomizados focados em outros vírus não foram capazes de comprovar a eficácia de máscaras na queda do número de infecções. "O problema é que as partículas que carregam o vírus Covid-19 são pequenas e se movem facilmente através da poeira e das máscaras cirúrgicas", escreveu Brian Labus, professor da Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, no The Conversation. "Essas máscaras podem fornecer alguma proteção a outras pessoas se você usar uma enquanto estiver doente, mas pouco fará para proteger você de outras pessoas contaminadas."

Ainda assim, Benjamin Cowling, epidemiologista da Universidade de Hong Kong, acredita que o produto faça alguma diferença: "Não faz sentido imaginar que as máscaras cirúrgicas são realmente importantes para os profissionais de saúde, mas não são úteis para o público em geral", afirmou em entrevista à Science.

Contudo, vale destacar que o produto já está em falta em diversos países (inclusive no Brasil), e a procura por quem não está doente pode prejudicar aqueles que realmente precisam, como infectados e profissionais de saúde. Por esse motivo, Mark Loeb, microbiologista e médico de doenças infecciosas da Universidade McMaster, no Canadá, afirmou à Science que não vê essa como "uma boa política de saúde pública as pessoas saírem comprando máscaras para usarem na rua".

Os especialistas também acreditam que as máscaras podem passar uma falsa sensação de segurança, fazendo com que as pessoas negligenciem outros cuidados essenciais, como lavar as mãos. Além disso, poucos sabem como utilizar o produto da forma correta — o que pode minar qualquer efeito protetor. "As pessoas que usam a máscara também devem tomar medidas especiais ao removê-la para garantir que não estejam se contaminando com as partículas virais que a máscara filtrou", escreveu Brian Labus no The Conversation. "Se você não usar a máscara corretamente e não removê-la adequadamente, mesmo a melhor máscara não será útil."

Considerando tudo isso, os especialistas destacam que a medida mais efetiva para evitar o aumento no número de casos ainda é o distanciamento social, pois restringir totalmente o contato com gotículas de saliva convivendo com outras pessoas é praticamente impossível. "Não quero assustá-lo, mas quando as pessoas falam, respiram e cantam (você não precisa espirrar ou tossir) essas gotículas estão saindo da boca", afirmou KK Cheng, especialista em saúde pública da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, à Science.


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