Semana On

Sábado 26.set.2020

Ano IX - Nº 412

Coluna

O planeta observa, aterrorizado, o Presidente do 6˚ país mais populoso do mundo se comportar como um assassino

Idelber Avelar fala da pandemia, do comportamento do Governo Bolsonaro e outras cositas mas

Postado em 25 de Março de 2020 - Idelber Avelar

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Saiu uma peça de publicidade televisiva assinada pelo governo federal e intitulada "O Brasil não pode parar". Não vou anexá-la aqui porque, por menor que seja o alcance da minha página, eu quero minha consciência tranquila de que não contribuí para circular algo que é, em um sentido bastante literal, incitação ao assassinato e ao suicídio.

Com tremenda desfaçatez, o vídeo convoca a ida ao trabalho em nome de professores, de pobres, até dos profissionais da saúde! Os mesmos que estão unanimemente recomendando a reclusão!

Poucas vezes, na história das democracias, um governo agiu tão deliberadamente para matar uma parcela significativa de sua própria população.

Ele é uma peça de publicidade sórdida, na pior escola da ditadura militar (o vídeo termina com "Brasil Pátria Amada"), mentindo descaradamente e conduzindo uma população pobre ao morticínio.

O planeta está observando, aterrorizado, o Presidente do 6˚ país mais populoso do mundo se comportar como um assassino.

CARRETA DE DOIDO

A última é que o movimento que apoia o fanfarrão presidente da república está convocando CARREATAS pela "volta à normalidade".

No meio de uma PANDEMIA. Na qual todos os especialistas coincidem em que o momento é de acentuada curva ASCENDENTE. Os malucos vão fazer uma CARREATA. Para voltar a uma "normalidade" que, tolinhos, já deixou de existir, não volta mais.

O negócio está errado de tantas maneiras que você não consegue nem destrinchar a frase.

É impossível dizer algo sobre isso, a não ser xingar. Se você colocasse o poodle do Silvio Santos com diarréia para imaginar uma história, você não teria um script tão horrendo com este atual do país. Que pesadelo sem fim.

A LÓGICA DA PANDEMIA

Aos amigos e aos inimigos da metáfora da mão invisível, não custa lembrar algo curioso sobre a lógica da pandemia.

Segundo a lógica liberal clássica, ao pensar e agir de forma egoísta, buscando o seu próprio interesse, você contribuirá a que gire uma engrenagem que, em última instância, beneficiará a coletividade.

[uma nota sobre minha relação com essa ideia: não creio que ela seja desprovida de aplicação no mundo real, apenas não creio que seja sempre e necessariamente o motor final das coisas, nem muito menos um motor sempre positivo, assim como não creio, ao contrário dos marxistas, em luta de classes como motor da história--o que não quer dizer, na internet sempre é bom explicar, que eu acredite que a luta de classes "não existe" ou que o mercado não possa produzir efeitos positivos]

Falando do ponto de vista estritamente lógico, então, sem qualquer juízo de valor, poderíamos dizer que a lógica da pandemia é exatamente o revés, o contrário da lógica liberal. Elas são opostas.

Na lógica da mão invisível, você age de forma egoísta e isso beneficia a comunidade. Na pandemia, a única forma de você tomar a decisão egoistamente correta é pensar primeiro na comunidade.

Na lógica liberal: pense em você e isso fará bem ao todo; lógica da pandemia: você só fará bem a você se pensar antes na comunidade.

Não é casualidade que anda meio difícil de entender isso no país da lei de Gérson.

LITERATURA DA PESTE

Amigas e amigos têm me perguntado qual é a literatura de peste, de praga, de epidemia, que eu recomendo. Desde que o coronavírus alçou sua peçonhenta cabeça, muito tem se falado sobre os clássicos de Daniel Defoe, "Diário do ano da peste", e de Albert Camus, "A peste”.

São as duas grandes obras literárias que têm ocupado a atenção de todo mundo nestes tempos de pandemia. Eu não disse nada, e não foi porque não goste delas -- na internet, se você NÃO fala de uma coisa, às vezes as pessoas concluem que você NÃO GOSTA dela.

Admiro ambas obras, e sou um apaixonado por Camus, que está no meu top 3 dos escritores mais impecavelmente éticos da história da literatura. Mas não creio que "A peste" esteja entre seus 5 melhores livros, apesar de ser excepcional.

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Absolutamente fundamental na tradição de literatura de epidemia, e superior, creio eu, como literatura, é O ÚLTIMO HOMEM, de Mary Shelley.

Mary Shelley 

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Mary Shelley é, sim, a mesma autora de Frankenstein, filha de Mary Woolstonecraft (sempre quis fazer esta brincadeira), a grande pensadora pioneira feminista do século XVIII. Mary Shelley foi também esposa de Persey Shelley (grandíssimo escritor, mas ainda assim bem menor que ela).

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O livro é narrado por Lionel Verney, o único sobrevivente que conta a história dos últimos momentos da humanidade, destruída por uma praga que vai matando. Entre os seis personagens, tem uma brincadeira com Lord Byron e Percy Shelley, amigo e marido, respectivamente, da gênia, traduzidos no livro como Lord Raymond e Conde Adrian.

O livro se publica em 1826, mas a história começa a ter lugar em 1818, quando uma mulher, acadêmica, chega a Nápoles com um colega, e acha um manuscrito. Nesse manuscrito está a história da praga total, a mais aproximada representação literária do Coronavírus.

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Mary Shelley não só inventou o gótico, com Frankenstein, mas inventou também a literatura de epidemia como distopia inescapável e total. Mary Shelley também torneou com extremo cuidado as possibilidades sintáticas da língua inglesa na primeira metade do século XIX. Quase um século depois, em uma época em que ninguém lhe prestava atenção, foi James Joyce, claro, sempre ele, quem carregava, bêbado e fodido, um exemplar de "O último homem", pelas ruas de Roma em 1906.

Boa notícia: tem em inglês na internet para baixar de graça. Tem em português para baixar de graça.

Relaxem um pouco com Camus e Defoe. Leiam Mary Shelley.

De nada.


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