Semana On

Sábado 08.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Coluna

Nem a Economia, nem o Povo

O que querem salvar os que pregam o fim do isolamento social?

Postado em 25 de Março de 2020 - Rodrigo Amém

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Em seu último pronunciamento em rede nacional, o presidente pediu que os brasileiros voltassem ao trabalho. Que a Covid-19 era só uma gripezinha e #OBrasilnãopodeparar. O Brasil não está parando. Estamos na direção oposta ao resto do planeta, tentando voltar no tempo, como o Super-Homem dos anos 70. 

Jair Bolsonaro está plantando tragédia para colher capital político. Não seria sua primeira tentativa. O plano é o seguinte: usar a pandemia como pode expiatório. Vai responsabilizar as medidas de isolamento social dos governadores pelos maus resultados econômicos e a China pelas pilhas de cadáveres e o colapso do sistema de saúde. Se resultar em um impeachment ou mesmo num afastamento por crime comum, sairá como "mártir perseguido", pelo menos no ponto de vista da sua base fanática. Na cabecinha do Jair, faz sentido ser o único governante do planeta a tratar o Covid-19 como uma gripezinha. Como disse Bob Fernandes, ele está jogando poquer com a morte. Dos outros é claro.

Mas, ao contrário do que dizem por aí, ele não está sozinho. Trump, muito embora continue tomando as medidas recomendadas pelos especialistas de saúde, teima em contradizê-los na TV e na sua infame conta no Twitter. Por aqui, os empresários da base de apoio do Bolsonaro também pressionam pelo fim das medidas de isolamento. "O remédio não pode ser pior que a doença" virou um slogan, tanto na boca do presidente norte-americano quanto na do Velho da Havan. Alegam preocupação com o povo, que sofrerá com a depressão decorrente do isolamento preventivo. 

Pausa para a risada de humor involuntário. 

Não se trata de uma defesa dos pobres. Nem tampouco de uma defesa da economia. É uma defesa política. Num mundo relativamente próspero e pacífico, é possível isolar mazelas de geografica e economicamente. Aí é fácil ser neoliberal. Quase faz sentido. Pra quê pagar imposto? O governo não serve para nada! Estrada? Pedágio. Saúde? Plano privado. Emprego? Empreendedorismo pra quem tem capital e app de aplicativo para quem não tem. Quando a sociedade não percebe o imposto como investimento em qualidade de vida, fica fácil criar uma idelogia em torno do estado mínimo. E é isso, no frigir dos ovos, que é o neoliberalismo. Uma ideologia criada em torno de uma demanda de isenção tributária, doa a quem doer. Até porque só vai doer lá fora da bolha do condomínio. 

E é essa bolha que uma pandemia fura. O Corona vírus nos faz lembrar da absurda incongruência do estado ausente num mundo complexo, interligado e assustadoramente frágil. 

Covid-19 não atende ao discurso da meritocracia. Quem não tem dinheiro pega a doença e vai para a fila do SUS. Quem tem dinheiro pega e vai pro Einstein. Mas não tem Einstein para todo mundo. Diante de um eventual colapso da rede de saúde, tanto pública como privada, todos querem que o governo intervenha, deixe a austeridade pra depois, pague os salários dos autônomos, garanta fornecimento de água, luz, reforce o policiamento. Buscamos uma rede social que passamos anos desmantelando. 

O que o empresariado que apoia as sandices do Bolsonaro quer é proteger o modelo neoliberal de um trauma pandêmico que devolva às urnas uma nova versão de socialdemocracia. É uma preocupação com a manutenção de um projeto de poder, não com o povo. Nunca é com o povo.


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