Semana On

Terça-Feira 07.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Poder

A mais recente ‘jenialidade’ do ex-futuro-quase-embaixador do Brasil nos EUA

Como Brasil se inseriu em disputa geopolítica entre EUA e China sobre pandemia

Postado em 20 de Março de 2020 - João Fellet (BBC News), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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O tuíte em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) criticou a China por sua postura diante da eclosão do novo coronavírus renovou as tensões entre o governo Jair Bolsonaro os chineses, e inseriu o Brasil em uma disputa que opõe Pequim ao governo Donald Trump.

A atitude de Eduardo, filho do presidente Jair Bolsonaro, também reverberou na política brasileira: de um lado, políticos aliados do presidente e ativistas de direita saíram em defesa do deputado, e alguns copiaram Trump ao empregar a expressão "vírus chinês" para se referir ao novo coronavírus.

Do outro, vários partidos e políticos críticos do governo lamentaram a atitude de Eduardo e exaltaram a importância da China para o Brasil.

O embate se iniciou na quarta-feira (18), quando o deputado comparou a postura da China diante do novo coronavírus com a atitude da antiga União Soviética após o acidente na usina de Chernobyl.

"Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução", escreveu Eduardo no Twitter ao compartilhar uma sequências de mensagens publicadas pelo editor de um portal conservador que culpava o Partido Comunista Chinês pela pandemia.

A mensagem do deputado foi rebatida pelo embaixador da China no Brasil, Yang Wanming.

"As suas palavras são um insulto maléfico contra a China e o povo chinês. Tal atitude flagrante anti-China não condiz com o seu estatuto como deputado federal, nem a sua qualidade como uma figura pública especial", escreveu Yang.

O embaixador marcou na mensagem o presidente da Câmara, deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o chanceler Ernesto Araújo, que reagiram.

Maia pediu desculpas à China e ao embaixador "pelas palavras irrefletidas do deputado Eduardo Bolsonaro".

"A atitude não condiz com a importância da parceria estratégica Brasil-China e com os ritos da diplomacia", ele escreveu no Twitter.

Já Ernesto Araújo publicou uma nota com acenos em diferentes direções. Por um lado, o chanceler disse que as críticas de Eduardo "não refletem a posição do governo brasileiro". Por outro, disse ser "inaceitável que o Embaixador da China endosse ou compartilhe postagem ofensiva ao Chefe de Estado do Brasil e aos seus eleitores, como infelizmente ocorreu ontem à noite".

Ernesto não mencionou qual postagem compartilhada pelo embaixador teria sido ofensiva ao presidente Bolsonaro e a seus eleitores.

A conta da Embaixada da China no Brasil chegou a compartilhar um tuíte no qual um usuário dizia que a "família Bolsonaro é o grande veneno deste país", mas depois apagou.

A embaixada publicou outros tuítes sobre o episódio.

"Lamentavelmente, você [Eduardo] é uma pessoa sem visão internacional nem senso comum, sem conhecer a China nem o mundo. Aconselhamos que não corra para ser o porta-voz dos EUA no Brasil, sob a pena de tropeçar feio", disse a conta da embaixada em uma dessas mensagens.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB-RJ) também se pronunciou sobre a polêmica.

"O Eduardo Bolsonaro é um deputado. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha, não era problema nenhum. Só por causa do sobrenome. Ele não representa o governo", disse Mourão, em entrevista à Folha de São Paulo.

'Vírus chinês'

Ao criticar a China pelo novo coronavírus, Eduardo agitou as redes pró-governo num momento em que o presidente é alvo de protestos e panelaços contra sua postura diante da pandemia.

Ativistas bolsonaristas e políticos aliados do presidente - entre os quais o deputado federal Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PSL-SP) — passaram a usar a expressão "vírus chinês" para se referir ao novo coronavírus no Twitter.

O assessor especial da Presidência Arthur Weintraub — irmão do ministro da Educação, Abraham Weintraub — ironizou os críticos da expressão.

"Gripe espanhola, Ebola (rio africano), pode. Vírus chinês é racismo!", escreveu.

'Racismo xenofóbico'

Difundido por Donald Trump, o uso da expressão "vírus chinês" tem provocado polêmica nos EUA.

Em artigo no portal da TV CNN, a analista Jill Filipovic disse que, ao usar a expressão, o presidente americano estava praticando "racismo xenofóbico" para agitar sua base e tirar as atenções de seus erros no combate à pandemia.

O uso da expressão também tem sido criticado por americanos de origem asiática e imigrantes asiáticos que vivem no Ocidente — grupos que dizem sofrer preconceito por causa do novo coronavírus.

De origem taiwanesa, o jogador de basquete da NBA Jeremy Lin disse que Trump estava "empoderando" racistas ao usar o termo e contribuindo com as ameaças sofridas por asiáticos nos EUA.

Já Trump disse que estava simplesmente sendo "preciso" ao chamar o vírus de chinês.

Na quarta-feira (18), quando uma jornalista questionou por que ele insistia no uso da expressão, Trump disse que o vírus havia vindo da China. "Não é de forma alguma racista."

Em outro momento da entrevista, Trump disse que a China havia tentado associar o novo coronavírus a soldados americanos. "Isso não pode ocorrer, isso não vai ocorrer, não enquanto eu for presidente", disse Trump.

O boato de que militares americanos levaram o novo coronavírus à China foi difundido por um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Zhao Lijian, e replicado por vários veículos estatais chineses.

Em 12 de março, Zhao publicou no Twitter, onde tem 300 mil seguidores, um vídeo no qual Robert Redfield, diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, diz a congressistas americanos que algumas mortes por influenza nos EUA foram posteriormente identificadas como causadas pela covid-19.

Redfield não disse quando as mortes ocorreram, mas Zhao aproveitou a mensagem para difundir a teoria conspiratória de que os EUA estariam por trás da pandemia.

"Talvez os EUA tenham levado a epidemia a Wuhan. Seja transparente. Torne públicas suas informações! Os EUA nos devem uma explicação", escreveu o chinês, sem apresentar qualquer prova sobre a insinuação.

Para Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e especialista em China, o embate iniciado por Eduardo Bolsonaro ameaça um trabalho realizado por várias autoridades brasileiras em 2019 para apaziguar tensões entre Brasil e China surgidas durante a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência.

Na época, Bolsonaro visitou Taiwan — gesto encarado como uma provocação pela China, que considera o território uma província rebelde chinesa — e disse que a China estava "comprando o Brasil".

Desde então, Stuenkel diz que autoridades como a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM-MS) e o vice-presidente Hamilton Mourão se esforçavam para "consertar o estrago" e convencer o governo a se concentrar nos benefícios mútuos da relação.

A China é a maior parceira comercial do Brasil e principal destino das exportações brasileiras.

Em 2019, o país asiático foi responsável por cerca de 28% das receitas brasileiras advindas de exportações, índice mais de duas vezes maior que o do segundo colocado, os EUA (13%).

Segundo Stuenkel, o comentário de Eduardo Bolsonaro "abre feridas que muitas pessoas achavam que estavam curadas e mostram a fragilidade desse conserto que se armou com muito cuidado".

O professor afirma que as relações entre EUA e China estão em seu pior momento desde 1989.

Além de trocar acusações sobre o novo coronavírus, os dois países têm se enfrentado em uma série de temas, como o comércio e o sistema 5G.

Isso, diz Stuenkel, faz com que, "para um país como o Brasil, manter boas relações com os dois lados ficou mais difícil; é preciso mais cuidado".

Ele afirma que o gesto de Eduardo pode prejudicar o Brasil em um momento de grande turbulência econômica causada pelo novo coronavírus. "A China será fundamental para a recuperação pós-crise, e, apesar de ter sido o primeiro país atingido, será fundamental para ajudar países no combate ao coronavírus", afirma.

Na véspera do conflito iniciado por Eduardo, o ministro da Saúde, Henrique Mandetta (DEM-MS), agradeceu à China por enviar equipamentos médicos para o enfrentamento da pandemia no Brasil.

Stuenkel diz que Pequim tem apostado na "diplomacia da saúde" para refazer sua imagem, arranhada pela pandemia.

Na semana passada, Pequim enviou um time de especialistas e 40 toneladas de equipamentos à Itália, país europeu mais afetado pelo novo coronavírus.

Para o embaixador Marcos Azambuja, conselheiro do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), Eduardo Bolsonaro cometeu um "disparate" ao criticar a China. "Ele deu um tiro no nosso próprio pé e prejudicou interesses brasileiros", afirmou.

"Não há nenhum elemento para que o Brasil use a retórica que o presidente dos EUA tem usado, de chamar o vírus de 'vírus chinês'. Nós não damos nacionalidade a um vírus, eles estão fora desse esquema", diz o embaixador.

Já em redes bolsonaristas o gesto de Eduardo foi exaltado.

"Sim, o nome correto é Vírus Chinês. Essa porra veio da China. Houve negligência e mentira dos china (sic). Não confie em comunista. Muito menos em chinês comunista", escreveu Bernardo Küster, criador do Brasil Sem Medo, que se descreve como o "maior jornal conservador do Brasil".

Para o influenciador bolsonarista Leandro Ruschel, Eduardo Bolsonaro "disse duas verdades: a epidemia do #víruschines invadiu o mundo por conta da tentativa do PCC de escondê-lo, e que a solução é mais liberdade".

"Mais liberdade significa o fim da ditadura. Por isso ficaram incomodados", ele escreveu no Twitter.

Análise

Eduardo Bolsonaro disputa com os irmãos Carlos e Flávio uma espécie de corrida para mostrar ao pai Jair quem é o filho mais genial. No seu penúltimo esforço, Eduardo avaliou que o Brasil tem poucos problemas. E achou que seria uma boa ideia adicionar à pandemia do coronavírus e ao risco de recessão econômica uma briga diplomática com a China, o maior parceiro comercial do Brasil.

O filho do presidente culpou a China pela pandemia. Até onde foi possível apurar, esse vírus surgiu na cidade chinesa de Wuhan. No final de dezembro do ano passado, o médico que tentou alertar sobre a gravidade da descoberta foi advertido pelas autoridades locais. Esse médico morreu em fevereiro, contaminado pelo coronavírus. A ditadura chinesa abriu uma investigação, considerou inapropriado o comportamento das autoridades de Wuhan e diz que serão punidos os responsáveis. Sabe-se também que a China agiu com rigor para deter o avanço do coronavírus.

No momento, o ministro Henrique Mandetta, da Saúde, solta fogos porque a China se oferece para enviar ao Brasil equipamentos que se tornaram escassos no resto do mundo. Coisas como respiradores artificiais e máscaras. A ministra Tereza Cristina, da Agricultura, celebra a reabertura de negociações com a China para a venda de excedentes de produtos agropecuários do Brasil.

Foi nesse ambiente que Eduardo Bolsonaro, ex-futuro-quase-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, chanceler informal do governo, decidiu comprar briga com a China. Numa reação incomum, o embaixador chinês no Brasil disse que o filho de Bolsonaro foi infectado por um "vírus mental". Exige um pedido de desculpas. O Itamaraty toma as dores do filho do presidente.

Difícil obter um pedido sincero de perdão, porque o patriarca do clã Bolsonaro está convencido de que o coronavírus é um plano da China para subjugar a economia mundial. Ainda não se sabe quem é mais genial, se o Zero Um, o Zero Dois, o Zero Três ou o pai. Mas vai ficando claro que a diferença entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites.


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