Semana On

Segunda-Feira 13.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Coluna

A distopia do vírus

Idelber Avelar fala de coronavírus em tempos de bolsonarismo e otras cositas más

Postado em 13 de Março de 2020 - Idelber Avelar

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Caso se confirme que Eduardo Bolsonaro mentiu à imprensa sobre seu pai ter o vírus para depois desmenti-la e desmoralizá-la, bem, caso se confirme isso, aí nós teríamos chegado a um grau de molecagem e irresponsabilidade que não seria hiperbólico chamar de assassino.

A sugestão de que Jair tinha o vírus teria sido feita por Eduardo à Fox; o Meia Hora correu com a história e tanto UOL como G1 resolveram esperar. Pessoas da Globo confirmam, em off, que esperaram porque suspeitavam que o vazamento havia acontecido exatamente para ser desmentido, naquela velha estratégia de desmoralizar a imprensa.

Um par de horas depois da matéria do Meia Hora, na qual nenhum portal brasileiro grande embarcou, Jair apareceu no Twitter anunciando resultado negativo do seu exame.

Caso se confirme que os caras estão brincando de mentir até sobre isso, temos que nos preocupar muito mesmo sobre o que vai acontecer no Brasil, é surreal e inédito, é um filme distópico total.

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Em todo caso, a relação Brasil-EUA, o eixo dos governos de extrema-direita, mostra uma curiosa sequência de fatos significativos.

É sabido que Donald Trump se empanturra de cheeseburgers do McDonald's porque tem medo de ser envenenado. REPAREM NA SOLIDÃO da pessoa. Ele tem todo o dinheiro do mundo, mas não há um só ser humano na face da terra em quem ele confie para coordenar uma cozinha sua.

É sabido também que a primeira reação de Trump ao vírus foi fazer tudo para escondê-lo; depois, quando isso já era impossível, diminuir sua importância ou mentir sobre ele, na esperança de estancar a queda da bolsa; finalmente, quando tudo isso já tinha fracassado, baixar uma série de medidas enlouquecidas e provavelmente já inócuas, como proibição de voos oriundos da Europa (para logo depois consertar e dizer que proibida mesmo estava a entrada de europeus não residentes nos EUA).

Também é sabido que Trump teve contato com gente contaminada, que um australiano -- também do governo de extrema-direita da Austrália! -- que teve contato com Ivanka Trump já testou positivo, e que um secretário do governo Bolsonaro já testou positivo. E que essa turma toda compartilhou comida em uma mesa, tocou-se, esteve junta várias horas.

É o que se sabe. Reitero sem ironia que não desejo morte de ninguém, inclusive porque sabe-se lá o que aconteceria no Brasil e nos EUA com os "mitos" Bolsonaro e Trump mortos por um vírus. Acho que prefiro esses patetas vivos e derrotados nas urnas.

Mas como seria instrutivo e irônico que esses dois irresponsáveis levassem um sacode-Iaiá desse vírus! Ah, isso seria.

O MUNDO DERRETENDO

O mundo está derretendo e o Filho da Puta está inventando fraude na eleição pela qual ele mesmo foi eleito! Não é inacreditável a irresponsabilidade?

A fake news das fraudes nas urnas eletrônicas não é uma fake news entre outras para o bolsonarismo. Ela é uma espécie de fake news fundante, uma ur-fake news, se se quer.

Se vocês forem ao YouTube e procurarem uma entrevista de 2016 de Bolsonaro com o YouTuber de direita Nando Moura, vocês verão essa fake news ser trabalhada à exaustão. Foi o primeiro experimento intenso do bolsonarismo na propagação de hoaxes, em um momento em que Bolsonaro ainda dizia que estava “esperando aparecer alguém melhor” que ele.

Mas confesso que não esperava o sujeito reviver isso agora. É um irresponsável, e o objetivo de manter o bate-bumbo para a base vai mesmo se sobrepor a qualquer limite da decência e até mesmo do cuidado com a vida dos co-cidadãos.

Que conjuntura delicada e perigosa, e que moleque irresponsável o Brasil elegeu como Presidente. Puta merda, nós estamos muito fodidos.

MUSA

Em um mundo liderado por gente ignóbil como Donald Trump e Jair Bolsonaro, é reconfortante quando uma pandemia te permite conhecer uma estadista de verdade. Apresento, a quem não conhece ainda, a gigante prefeita de Seattle, Jenny Durkan.

Seattle é o epicentro do corona vírus nos EUA e no estado de Washington já foram 29 mortes. Mas ouso dizer que, se não fosse pela prefeita, teriam sido muitas mais.

Se você procurar na internet, verá Jenny Durkan clamando SEMANAS atrás por ação do governo federal para fazer o básico: veicular informação com clareza, aumentar rapidamente a capacidade de administrar exames, transmitir cuidados básicos como a lavagem de mãos e considerar a possibilidade de cancelar eventos com multidões.

Além de tudo, a prefeita já percebia que, dado o caráter da pandemia, a população iria recorrer a Wal-Marts e Cotscos, e esvaziar os pequenos negócios locais -- e clamava para que a ajuda federal se direcionasse a esses negócios.

Coloco nos comentários o link a uma entrevista de SEIS dias atrás de Jenny Durkan, em que ela já oferecia todo o mapa de como o poder público deveria estar lidando com isso. Falando com clareza e precisão. E, além do mais, é uma milf exuberante aos 61. Imaginem, só imaginem, os EUA com uma Presidente Durkan agora.

Jenny Durkan também é autora de um artigo de 12.04.2019 que ficou famoso, publicado sob o título "Seattle isn’t afraid of immigrants, Mr. Trump".

Musa.

UMA LIVE NO FACE

Uma aula pública aos alunos do Núcleo de Práticas em Economia e Relações Internacionais, da Universidade Salvador (Bahia), sobre a política americana das últimas décadas, a convite do Prof. Felippe Ramos. Peguei autorização com eles para transmitir a aula pelo meu Facebook. Portanto, a live que vocês (se Deus quiser!) verão é desse evento.

A QUEDA DO CÉU

A foto à esquerda é de uma fila gigantesca na porta de um Costco, em Honolulu. A da direita é do xamã Davi Kopenawa, em Terra Yanomami, Roraima.

The Falling Sky. Words of a Yanomami Shaman. Davi Kopenawa & Bruce Albert, de autoria dele e Bruce Albert, publicado no Brasil como "A queda do céu", tem o meu voto para livro mais importante do século XXI até agora, em qualquer língua. É uma honra para os brasileiros que esse livro, apesar de não ser exatamente sobre o país, tenha sido produzido no Brasil.

Em um dado momento dessa obra, Kopenawa diz que um bom animal para ser comparado aos brancos é o cachorro, porque os brancos simplesmente não conseguem parar de comer. Se você colocar um naco de 10 kg de presunto na frente de um cachorro, ele vai comer e comer e comer sem saber o momento de parar, ele pode até se matar comendo.

Assim somos os brancos.

Os povos ameríndios têm uma reflexão sofisticada sobre VIVER COM O SUFICIENTE, entender a escassez como parte de um equilíbrio, que nos inclui mas é muito maior que nós. E que pressupõe respeito aos rios, aos animais, ao nosso entorno.

Nada contrasta mais com essas imagens de americanos estocando gigantescas pilhas de papel toalha, máscaras, luvas, toucas, cachecóis, papel higiênico e comida enlatada, todos correndo para chegar antes do vizinho, em um grotesco espetáculo do salve-se quem puder, sem sequer saber do quê exatamente estamos nos salvando.

Vamos continuar surdos a Kopenawa, dando esses vexames aí. No dia em que o céu cair, não adianta dizer que ele não avisou. Está tudo lá, em "A queda do céu".


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