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Quinta-Feira 09.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Coluna

A Queda do Céu já começou?

‘Ela arrasta as mais poderosas economias, não se trata mais do pouso da águia, ela tomba abatida em pleno vôo’

Postado em 13 de Março de 2020 - Ricardo Moebus

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Já nem tantos aviões cortam os céus.

Quando o céu começasse a desabar, os primeiros afetados claro seriam as companhias aéreas, e logo toda a máquina ocidental de produzir incessantemente, insaciavelmente, mercadorias viria a sentir o impacto deste tombo celestial.

Como tantas vezes anunciado por vários xamãs, em especial Davi Kopenawa Yanomami, talvez o céu tenha começado a cair.

A epidemia “xawara” assola os povos.

Em uma entrevista em março de 1990, exatos trinta anos, Davi Kopenawa alertava:

Vou te dizer o que nós pensamos. Nós chamamos estas epidemias de xawara. A xawara que mata os Yanomami. É assim que nós chamamos epidemia. Agora sabemos da origem da xawara. No começo, nós pensávamos que ela se propagava sozinha, sem causa. Agora ela está crescendo muito e se alastrando em toda parte. O que chamamos de xawara, há muito tempo nossos antepassados mantinham isto escondido. Omamë [o criador da humanidade yanomami e de suas regras culturais] mantinha a xawara escondida. Ele a mantinha escondida e não queria que os Yanomami mexessem com isto. Ele dizia: "não ! não toquem nisso!" Por isso ele a escondeu nas profundezas da terra. Ele dizia também: "Se isso fica na superfície da terra, todos Yanomami vão começar a morrer à toa!" Tendo falado isso, ele a enterrou bem profundo. Mas hoje os nabëbë, os brancos, depois de terem descoberto nossa floresta, foram tomados por um desejo frenético de tirar esta xawara do fundo da terra onde Omamë a tinha guardado. Xawara é também o nome do que chamamos booshikë, a substância do metal, que vocês chamam "minério". Disso temos medo. A xawara do minério é inimiga dos Yanomami, de vocês também. Ela quer nos matar. Assim, se você começa a ficar doente, depois ela mata você.”.

No epicentro da mecanosfera produtora de turbilhões de mercadorias, consumidora voraz de toda matéria prima vinda dos quatro cantos do mundo, brota a mais nova epidemia xawara, coronavírus.

Não se sabe bem exatamente onde, nem como, mas em meio às milhares chaminés que cospem fumaça dia e noite, surgiu a novidade viva.

Tem também a fumaça das fábricas. Vocês pensam que Deomisë pode afugentar esta xawara, mas ele não pode repelir está fumaça. Ele também vai ficar morrendo disso. Mesmo sendo um ser sobrenatural, ele vai ficar muito doente. Nós sabemos que as coisas andam assim, por isso estamos passando estas palavras para vocês. Mas os brancos não dão atenção. Eles não entendem isso e pensam simplesmente: "esta gente está mentindo". Não há pajés entre os brancos, é por isso . Nós Yanomami temos pajés que inalam o pó de yakõana [pó tirado da resina da árvore Virola elongata, que tem propriedades alucinógenas], que é muito potente, e assim sabemos da xawara e ficamos muito inquietos. Não queremos morrer. Nós queremos ficar numerosos.”.

Ali o homem cada vez mais é convocado a trabalhar como uma máquina, e as máquinas convocadas a trabalharem como homens, construindo um interstício de indistinção entre o vivo e o inanimado, sobretudo nas biomáquinas de produção de carne, nos chamados já equivocadamente de criatórios ou granjas, na produção bioindustrial massiva, geneticamente manipulada, adulterada, medicalizada, antibioticodependente, de proteína animal em larga escala, curto tempo, baixo custo.

Justamente ali, a novidade viva veio mostrar o céu fraturado, no coração do gigante asiático, que em seu tombo reverbera um mundo inteiro.

A queda do céu arrasta as mais poderosas economias, não se trata mais do pouso da águia, ela tomba abatida em pleno vôo.

Povos originários, sobreviventes de guerras biológicas e bacteriovirológicas, atacados persistentemente e ininterruptamente, ainda mandam seus sinais e mensagens, clamando por respeito pela vida, respeito por todos os seres viventes, que poderá rearranjar a co-existência e co-dependência de tudo que vive neste ser pulsante, asteróide pequeno que todos chamam de Terra.


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