Semana On

Quinta-Feira 06.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Coluna

Metrópolis e a anestesia de futuro

Em tempos de internet, redes sociais e tudo o que nos aconchega no comodismo, pensar no amanhã, sonhar com o amanhã, temer o amanhã pode nos converter em roteiristas de nossos futuros

Postado em 13 de Março de 2020 - Clayton Sales

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Libertar a mente para experiências além do limitado pelo real é um exercício magnífico. Uma das sortidas cores dessa aquarela é imaginar o futuro. A humanidade precisa se atirar nos anos vindouros e quanto mais longínquos são os tempos, mais a fantasia explode em riqueza. Hoje em dia, a sensação é que substituímos a emancipadora prática de especular o amanhã, com as asas soltas da inventividade, pela sisuda análise de cenários e metas exequíveis. Alguém aqui imagina ainda mundo, humanos, natureza, sociedades, política, artes, pensamentos em 2097, 2147 ou 3345? Parece que nossos cérebros esculpidos pelo pragmatismo perderam um quinhão da capacidade desenhar futuros. Vivemos o presente e vivemos enclausurados nele. Efeito das tecnologias digitais e sua capacidade atordoante de já nos apresentar esse amanhã pronto para consumo no mundo real. 

Delicioso lembrar como Rita Lee foi visionária em 1978 ao descrever sua "Miss Brasil 2000", mulher libertária, de cabeça aberta à diversidade e brasileiríssima da Silva nos quatro cantos do país, pronta para abalar padrões. Mesmo na distopia, era fascinante o mundo caótico e sombrio da Los Angeles de 2019 com seus androides e naves idealizados no fim dos anos 1960 por Philip K. Dick, traduzidos pelas lentes de Ridley Scott em "Blade Runner" (1982). 

Deliciosa também é a visão que a roteirista alemã Thea Von Harbou elaborou ao construir sua cidade-fantasia. Numa sessão em Berlim, estreava o filme "Metrópolis" (1927), dirigido pelo então esposo, o austríaco Fritz Lang. O longa-metragem se passa em 2026, em que governantes ricos administram o lugar de acordo com seus próprios interesses do alto de uma enorme torre luxuosa, sustentada por trabalhadores que viviam em um habitat infernal nas profundezas, realizando tarefas desumanizadoras e sob forte vigilância. Uma escravidão moderna.

As complexidades começam a despontar quando os dois "mundos" se visitam por meio do interesse de um jovem da elite, que descobre a tragédia que mantem funcionando seus luxos, por uma bela mulher do plano inferior, meio profeta mística, meio líder revolucionária. Tão marcante é o personagem feminino, que trataram de criar uma réplica robótica chamada Maria, que insufla a massa operária para a violência e justificar a reação agressiva da elite. Então, nesse 2026 alucinado, os conflitos e dialéticas se avivam: elite e trabalhadores, homem e máquina, cérebro e mãos, ciência e misticismo. Há quase um século, o cinema costurava a fantasia que os dias atuais vestem sob medida. 

Mesmo com parte das cenas perdidas, é possível realizar leituras variadas e até discordantes do filme. Há quem ressalte a luta de classes marxista, o conservadorismo religioso ou ainda o liberalismo smithiano, e até mesmo representações de sociedades secretas que dominam a porção paradisíaca do mundo, o Jardim dos Prazeres, e todo o resto. Há quem enxergue na obra uma celebração ao elitismo, quem veja ironia ao poder, à ganância material e ao capitalismo, e também crítica aos totalitarismos. Aliás, o casal se separou justamente por uma crucial divergência ideológica. Enquanto Fritz Lang fez filmes antinazistas e rendeu seu talento aos desejos de Hollywood, Thea von Harbour se aliou à Hitler, fã declarado de "Metrópolis", e escreveu roteiros que serviram de propaganda do regime.

 

As possibilidades narrativas dessas digressões futuristas numa época marcada pelos espólios da Primeira Guerra, a depressão econômica que avassalaria o planeta e as serpentes do fascismo sendo preparadas para o bote, tornaram "Metrópolis" rico em seu caráter controverso. Sua enigmática mensagem final diz que "o mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração". O que significaria hoje? Que devemos tornar nossa faculdade de pensar mais aberta aos domínios do espírito, ou seja, injetar imaginação na racionalidade controlada por todos os lados e incluí-la em nosso cardápio de sonhos? Ou que devemos aceitar com açúcar e com afeto o papel de corpos impensantes a serviço das mentes "superiores", controlada por um conciliador, profetizado como o mensageiro da paz.

A fantasia sempre inspirou grandes realizações da arte, inclusive as artes tecnológicas como o cinema. Em tempos de internet, redes sociais e tudo o que nos aconchega no comodismo, pensar no amanhã, sonhar com o amanhã, temer o amanhã pode nos converter em roteiristas de nossos futuros, mesmo que eles sejam materializados nas formas das artes. Afinal, o mediador entre a razão e a ação pode ser a imaginação. E o cinema, é claro.


Voltar


Comente sobre essa publicação...